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Vale tudo

Hoje aconteceu em São Paulo uma das maiores manifestações públicas do Brasil. Não, não estou falando da Parada do Orgulho LGBT, mas da Marcha pra Jesus.  E face ao que se tornou, o evento evangélico e a festa da diversidade sexual são a mesmissima coisa. Ambos surgiram como um momento de necessidade de clamor e liberdade de expressão de um povo oprimido, porém significativo, e se tornaram uma festa de exaltação a coisas equivocadas. Acredito que o único diferencial está na organização. Acredito que a militância que organiza a Parada do Orgulho LGBT, em todos os lugares do mundo, tem o objetivo inicial, trazer visibilidade a um setor da sociedade e pedir inclusão social. Já o objetivo da Marcha para Jesus que tinha em sua origem louvar a nome de Deus e propagar amor e evangelizar tornou-se, na mão de seus administradores, um evento de propagação do ódio. Aquela ideia de “amor de Cristo” foi para o ralo há algum tempo, mas em 2011 tornou-se mais evidente.

Liderado pela nova febre da rata dentre os fundamentalistas e conservadores, Silas Malafaia, a Marcha para Jesus reuniu um milhão de pessoas na tarde de hoje (segundo os organizadores a estimativa da polícia representa apenas um quinto do público real) e foi algo assustadoramente próximo ao nazismo. Palavras do pastor davam conta de chamar de “lixo moral” as pessoas que questionam a interferência das igrejas em assuntos do governo (mesmo estando num Estado laico), e comparou a liberdade de expressão, que ele tanto defende em poder praticar sua homofobia livremente, a apologia a cocaína e pedofilia. “Amanhã se alguém quiser fazer uma marcha em favor da pedofilia, do crack ou da cocaína vai poder fazer. Nós, em nome de Deus, dizemos não.”, disse Malafaia.

“O STF rasgou a Constituição que, no artigo 226, parágrafo 3º, diz claramente que união estável é entre um homem do gênero masculino e uma mulher do gênero feminino. União homossexual uma vírgula”. Silas Malafaia, mais uma vez, defendendo um Estado justo e democrático de fato. É óbvio que nenhum extremista vai dar bola pro que quero dizer, tanto do lado LGBT quanto do lado conservador, mas estamos a beira de um momento crítico no país. Com o aval de um nicho conservador que sabe exatamente onde e como inflar a fúria de outro setor da sociedade, estamos criando um cenário de instabilidade e isso poderá a levar a uma guerra entre progressistas e conservadores, utilizando, como em outros momentos, pessoas como armas. Me surpreende ver a historia se repetindo. Uma nova inquisição nascendo e hoje o homossexual é a nova bruxa. Pense que há 15 anos evangélicos e católicos se odiavam e trocavam ofensas, e hoje estão unidos “contra um mal maior”. É o medo da latente perda de fiéis de ambos os lados x o crescimento econômico no país que todo mundo quer tirar uma casquinha. Encobrir o preconceito com o manto da religiosidade é um golpe baixo. Se discursos baixos como este promovido por Silas Malafaia não tivessem espaço, não teriamos a necessidade da criação da PLC 122. A vontade de acabar com qualquer lei que beneficie homossexuais não é meramente uma questão ideológica ou religiosa. Tem fundamento econômico e apelo destrutivo. A liberdade de expressão é válida para eles, desde que seja só para eles. E muitos homossexuais pensam no mesmo caminho. Liberdade de expressão é unilateral. De nada adianta, nós gays, nos juntarmos por um ou outro motivo e jogar pedra na manifestação alheia. Todo mundo tem direito de manifestar suas ideias e filosofias, lógico, dentro de uma legalidade. Vale tudo. Homem com homem, mulher com mulher, homem com Deus, mulher sem Deus e todo mundo junto por um bem maior.

Juntamos 3,5 milhões em uma parada gay, mas não juntamos 35 mil para ajudar a educação. Reúnem 5 milhões promovendo a homofobia em nome de Cristo, mas não juntam 5 mil para doar sangue. Está tudo deturpado.

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