Posts marcados ‘Rafinha Bastos’

Merdas não se anulam. Apenas acumulam.

Relutei bastante pra falar sobre o caso Rafinha x Wanessa porque acho uma palhaçada tão grande que bateu uma preguiça absurda. Rafinha é um tiozão que faz piada sem graça, se orgulha de ofender, mas não tem culhão pra aguentar as consequências. Wanessa é casada com um homem rico, está grávida e, por conta disso, vai ficar um tempo de molho e precisa garantir seu nome na mídia com um CD recém-lançado (após muito adiamento). Rafinha manda umas entrevistas “polêmicas”, uns vídeos com seu eterno humor ruim, Wanessa abre um processo em nome do seu feto e daqui a pouco vai parir e sorrir na capa da Caras. Resumo da obra: são duas Attention Whores querendo mais cinco minutos de holofote. Próximo, por favor!

Sinceramente, eu comeria Rafinha Bastos e Wanessa. Com batatas. O bebê eu deixaria pra lá, afinal, ele pode me processar. Mas Rafinha e Wanessa? Ah! Comeria mesmo! Só pra não ter mais que digerir aos poucos essa história. Teria no máximo uma indigestão, tomaria meu Eno e vamos lavar a louça, porque isso sim está em falta no Brasil. Mas como o canibalismo é considerado um crime, e acredito que ambos não sejam tão saborosos quanto minha atual dieta de poucas calorias, vamos deixar os dois se esbofeteando. Vamos ao assunto que me trouxe aqui: a transformação de um babaca em mártir por julgarem seu crime ser menor.

Está rodando uma corrente, num desses “eventos políticos” do Facebook (até quando?), pelos RTs do Twitter e as imagens rebloggadas do Tumblr um manifesto muito coerente [/ironia] dizendo que o Brasil é o país onde “os humoristas são levados a sério e os políticos na palhaçada”, e sugerindo que os usuários dessas redes troquem seus avatares por fotos do Rafinha Bastos como um manifesto a censura do Brasil e contra a corrupção. Eu não sei por onde começar a vergonha que sinto ao ver isso. A imagem mote da campanha expõe Rafinha Bastos como mártir e José Sarney como vilão nacional e contemporizando: por que Sarney e Maluf estão soltos enquanto as pessoas correm atrás do pobre Rafinha Bastos, pobre coitado, com tochas? Olha, uma coisa não anula a outra. Sarney e Maluf são criminosos? Sim. Rafinha Bastos é criminoso? Também. Não é porque uma pessoa fez uma cagada que a outra passa impunemente. Cada um paga por aquilo que fez. Esse discurso de “enquanto tem tanto bandido solto por ai e vocês querendo processar fulano” é tão eloquente quanto “vocês falam sobre direitos humanos enquanto tem tanta criança passando fome”.  Um problema não anula o outro, eles se acumulam. E devemos debater todos. Não é porque eu estou falando sobre determinado assunto que eu vou tentar inserir outra questão no meio. Isso seria oportunismo (além de um bocado de DDA).

Se os políticos do Brasil são levados na brincadeira, a culpa e é única e exclusiva de quem os elege, no caso, você. O mesmo cara que acha engraçado Rafinha Bastos dizer que “mulher estuprada deveria agradecer ao estuprador, pq ele está fazendo um favor” é o que vota em Tiririca como “voto de protesto” e depois reclama que a política nacional está num cenário insustentável. Não que eu ache Tiririca a pior coisa que já apareceu nesse país. Foi eleito democraticamente, não está fazendo um mandato ruim (por enquanto) e temos coisas bem piores infiltradas em Brasília, como Jair Bolsonaro, por exemplo. Tão logo, se você é um revoltadinho com a política nacional, faça por onde: vote direito.

“Ah, mas o humor não pode ter censura”. Concordo. Bem na verdade, nada pode sofrer censura. Um Estado democrático não se faz calando. Porém, é necessário se fazer entender que certas “brincadeiras” ferem a dignidade do outro. Você acha bacana chamar uma criança com Síndrome de Down de “retardada”, “imbecil” e/ou “mongolóide”? Ou ainda é cabível chamar um negro de “macaco”? Isso é censura? Não. É ter noção de que por mais que você esteja brincando, você carrega nessa brincadeira uma carga histórica que fere a vida do outro e não a faz por respeito. É difícil entender que da mesma forma que um negro se sente ofendido por ser chamado de “macaco”, um homossexual vai se ofender se for chamado de “veado” e por aí vai toda a mistura de fauna e minorias que existem com o único objetivo de minimizar o ser humano?

Que tal pensar por outro foco: parar de dar importância a esse quiprocó em busca de popularidade entre Wanessa e Rafinha e começar a se importar com a política, parando com o velho discurso brasileiro orgulhoso do “ah, eu odeio política, acho que ninguém presta, nem gosto de conversar sobre isso”, como se fosse algo bom e louvável. Os que não gostam de política, são governados pelos que gostam, já disse bem Platão. Vamos parar de alimentar esses monstrinhos como Sarneys, Malufs, Rafinhas e Wanessas. Ou melhor, não vamos não. Afinal, todo mundo precisa alguém pra ser odiado. Inclusive eu, que odeio todos vocês que requentam futrica como se fosse notícia.

Não é estupro se for na Globo

Há alguns meses a arroba mais influente do Twitter, como Rafinha Bastos gosta de ser chamado, foi duramente criticado por fazer uma piada sobre estupro dizendo que “mulher feia quando é estuprada deveria agradecer”. Além dos ataques no Twitter, o Ministério Público decidiu investigá-lo por conta da piadinha desrespeitosa e de péssimo gosto. Nada mais justo. Estupro ou qualquer outro tipo de abuso sexual é algo nojento e criminoso. Além disso, uma “piada” como essa fere a dignidade de quem já passou por essa situação e dos seus familiares. Eu tenho um caso de estupro na família e me sinto ofendido quando vejo alguém banalizando algo tão grave.

Paralelo a tudo isso, a nova sensação do sempre engraçadíssimo e inovador Zorra Total [/ironia] conta da história de uma transexual e sua amiga feia que andam em um metrô lotado e suas desventuras cotidianas. Tudo isso em meio a um bordão que se popularizou rapidamente: Ai, como eu tô bandida!

O roteiro do quadro não muda: Janete encontra Valéria, elas comentam sobre a cirurgia de mudança de sexo de Valéria, fazem uma brincadeira de “você gosta?” – “gosto” até o infinito que irrita o telespectador e a personagem, Valéria dá meia dúzia de patadas e apelidos em Janete e, por fim, alguém abusa sexualmente de Janete no vagão lotado. Neste momento Valéria, muito debochada, diz pra amiga aproveitar o momento porque não é sempre que uma mulher como ela tem esse tipo de sorte. Ou seja, em meio a todas as claques e clichês que imperam no programa de sábado, ensinamos semanalmente que a mulher não deve reagir ou se ofender caso seja sexualmente abusada, e caso venha a sofrer um estupro, deve se sentir sortuda, pois nenhum homem gostaria de se envolver com uma mulher feia. Percebam que é exatamente a mesma piada que saiu da boca de Rafinha Bastos e foi absurdamente pisoteada. Porém na Globo sua projeção é outra, torna-se benéfico. Ignora-se o fato do desrespeito a dignidade. O pior de tudo: tal quadro alcança hoje 25 pontos no Ibope. Todo sábado a noite o mesmo roteiro ensina às mesmas pessoas que estupros e abusos sexuais são bençãos, e não devem ser denunciados.

Fica a pergunta: Qual a diferença do estupro de Rafinha Bastos e do estupro de Valéria e Janete? Nenhuma, salvo o poder de penetração da mensagem. Enquanto Rafinha atende a um público mais “elitizado” socio-culturalmente (afinal, ele é defensor do tal ‘humor inteligente’, apesar dos quilos de preconceito), o Zorra Total vai de encontro com um povo que provavelmente não teve acesso a informação e que utiliza na maioria das vezes a televisão como seu quadro negro involuntário. Os quadros subsequentes colocam a mulher como unicamente uma fêmea, um objeto sexual, ridicularizam o fato Presidência do Brasil estar nas mãos de uma mulher e passam uma hora semanal fazendo o retrógrado humor da mulher de pouca roupa, erotizando o telespectador. Esse é o mesmo programa que ensina que estupro é o novo ‘casar e ter filhos’. É um humor machista e misógino. Eu sinceramente não acho a menor graça dessa bandidagem da Valéria.

Aos que não sabem: hoje no Brasil, 43% das mulheres brasileiras sofrem violência doméstica; uma mulher é violentada a cada 12 segundos; a cada duas horas uma mulher é assassinada. E você vai continuar rindo disso?

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