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Não tenho nada contra gay, inclusive eu tenho um amigo que é viado e tals


Nenhuma frase pode ser mais imbecil que “não tenho nada contra gay, inclusive tenho amigos gays e…”, por que você prova sim que tem algo contra gay, uma vez que você rotula esse ou aquele cidadão face a quem ele ama. Essa frase de pseudo-igualdade não te torna menos intolerante. Principalmente porque essa frase normalmente é seguida por um “mas eu acho” e descamba todo o texto. Normalmente a frase é “não tenho nada contra gay, inclusive tenho um amigo assim e trato de igual, sabe? Mas acho que essas leis a favor deles estão criando uma ditadura gay, vocês não acham?”. Exemplo muito bonito desse tipo de pensamento é esse maravilhoso texto do Vereador Paulistano Carlos Apolinário do DEM (nenhuma surpresa, não?) que traz quatro perguntas que gostaria de responder. Posso? Obrigado.

1) É preciso, para ser gay, colocar uma camiseta com a inscrição no peito: Sou gay?

Claro que não. Da mesma maneira que nenhum evangélico precisa usar camisa do Smilinguido ou “Exército de Cristo, Aliste-se já!”, ou os católicos colocarem adesivos “tudo com jesus, nada sem maria” para se mostrarem cristãos. Pensando desta maneira, o nobre vereador poderia criar um projeto de lei onde todos receberiam camisetas brancas para uniformizar a sociedade. Essa liberdade de usar uma camisa com inscrições tem que ter um fim. É o tal orgulho que as pessoas pregam. Um absurdo. Onde já se viu, orgulho de ser algo.

2) É preciso ir a um canal de tevê ou a uma revista e dizer: Sou gay?

Claro que não. Da mesma forma que não é necessário ir a um programa de televisão evangelizar.
3) É preciso, para ser gay, ir a locais públicos e dar beijo na boca?

Eu sei que não é bacana responder uma pergunta com outra pergunta, mas: Para ser um homem hétero é necessário ver uma mulher na rua e chamar de gostosa? Ou é necessário dar as mãos num restaurante durante um jantar romântico com sua esposa? É necessário abraçar quem você ama em público?
4) Para ser gay, é preciso fazer uma declaração pública: Sou gay?

Bem, você só é gay, hétero, bissexual, assexuado ou qualquer outra nomenclatura que o valha depois que você, em algum momento da sua vida, declara que é assim. Você pode declarar tanto subindo num palanque ou dando um beijo em alguém.

Meu único questionamento ao vereador Carlos Apolinário é: liberdade é seletiva?

O vereador em questão ainda é responsável (como tantos outros engraçadinhos) em fazer o achincalhe dos direitos humanos criando a proposta do “dia do orgulho hétero”. O Orgulho LGBT não é uma afronta ao heterossexuais. É apenas uma demonstração que nós existimos e merecemos, assim como heterossexuais, todos os direitos previstos. Nunca vi um heterossexual sendo expulso de um lugar por beijar alguém do sexo oposto, ou ter seu direitos negados por isso, ou precisar esconder de sua família que é heterossexual. O Orgulho LGBT é uma forma de reafirmar que não precisamos viver em guetos e queremos nos inserir na sociedade de forma plena, sem diferenciação. Eu entendo perfeitamente que o objetivo do Orgulho LGBT foi bastante esvaziado, principalmente pela falta de objetivo político daqueles que lotam as Paradas e Marchas (mas isso é assunto pra outro post durante a semana). O foco aqui é que existe uma minoria oprimida e quer ser representada e quer ter voz, mostrar-se a sociedade e ganhar o espaço que é de direito. Não se cogita fazer um Dia do Orgulho Branco ou a Marcha Pelo Dia Internacional do Homem. As minorias lutam pelo seu reconhecimento e pelo fim do massacre cultural que as maiorias impoem há anos, décadas, séculos. Bem como existe a Marcha pra Jesus, e tem seu valor e seu significado que não devem ser menosprezados por qualquer cidadão, o Orgulho LGBT também não deveria.

O grande celeuma que estamos criando com esses embates ideológicos extremistas, tanto do lado dos conservadores e fundamentalistas religiosos quanto dos militantes LGBTs cegos por um discurso, é uma rixa que não é saudável para o Brasil e mina o debate da forma mais anti-democrática possível. Temos que conversar de maneira franca, honesta e reta para chegarmos a acordos. Ninguém consiguirá absolutamente nada com dedos na cara.

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