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42 anos de orgulho

Eu não poderia deixar passar os 42 anos do Orgulho LGBT em brancas nuvens. Desde Stonewall Inn, em 28 de junho de 1969, quando a polícia invadiu o bar e massacrou um grupo de homossexuais e transgêneros, muito foi conquistado. A exemplo no Brasil temos a recente decisão do STF sobre a união homoafetiva, os milhões de cidadãos que se movem contra o preconceito em marchas e manifestações a favor da diversidade sexual em todo o país, o reconhecimento da ex-companheira de Cássia Eller como mãe de seu filho, os avanços na mídia e no debate sobre a homofobia e, obviamente, o primeiro casamento civil homoafetivo, realizado hoje no interior de São Paulo. De 1969 pra cá muita coisa mudou para melhor, apesar dos pesares, estamos remando adiante, lentamente, mas colhendo um mundo mais justo não só para nós, mas abrindo a mente e dando voz a outras minorias. Muitos podem dizer que face ao conservadorismo protagonizado por Bolsonaros, Malafaias e, agora, Myrians, não temos o que comemorar. Mas acho que eles comemoram conosco, afinal, não teriam de onde tirar verba se não fosse pela nossa luta.

Vivemos num país onde é bonito ver dois homens brigando, mas hediondo ver dois homens se amando. Existe muito o que lutar e não podemos nos anular nos outros dias do ano. O homossexual sofre preconceito diariamente e as questões afirmativas são fundamentais para um mundo mais justo. Sonho com o dia que não teremos mais a necessidade de marchas, leis e didatismos para acolher as minorias como gays, negros, mulheres e outros. Enquanto vivermos com o pé no passado, teremos medo de buscar o que é nosso por direito no presente e pior, passaremos uma guilhotina no pescoço do futuro.

Não há religião, cultura, lei, localização ou proibição que vá impedir um homossexual de existir. Não existe essa história de “ele é gay pelas influências”. Se fosse assim, todo mundo seria heterossexual, afinal, estamos numa cultura heteronormativa e, em grande maioria, os pais são heterossexuais. Ninguém escolhe ser gay, bem como não escolhe ser hétero. Não existe uma enquete em dado momento da sua vida que você escolheu com quem transar e quem amar.

Os opositores dizem que as minorias visam criar um nicho de super-cidadãos, inabaláveis e incriticáveis. É muito confortável dizer isso quando se está inserido em uma maioria dominante. A péssima notícia que eu tenho a dar é que a vida não é justa. Para ninguém. E as minorias, independente de qual estamos tratando, tem uma carga histórica que precisa ser apagada. Não podemos menosprezar que negros não tem as mesmas oportunidades que brancos, que mulheres sofrem abusos diários por homens, que algumas religiões e culturas sofreram e ainda sofrem massacres culturais e que gays não tem os mesmos direitos que heterossexuais. Para um mundo mais justo é necessário olhar com abrangência a sociedade e atender as necessidades específicas dos movimentos sociais. As feministas queimaram sutiãs e hoje têm direitos iguais. Os negros exaltaram sua cultura e se inseriram. Os homossexuais não podem se anular por conta de um falso-moralismo.

Que todo dia 28 de junho seja dia de lembrarmos aqueles que morreram, aqueles que sobreviveram, aqueles que fizeram história, aqueles que fazem a sociedade. Que todo dia a gente possa conviver pacificamente, não importando com quem eu durmo ou quem eu amo. Eu quero ser feliz e ter minha cidadania plena e quero o mesmo para todos. Eu quero igualdade e não superioridade, nem dos gays e nem dos heteros. Não podemos viver num mundo de aceitações. Aceitar é apenas dar espaço a mostrar uma superioridade falsa. Quero viver num país onde meus filhos e seus filhos possam se confundir na multidão que constrói essa nação.

 

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Pensamentos sobre a reação conservadora

Contribuição de Rafael Moreira (@pelotelefone) para o Dia do Orgulho LGBT

Em meio a tanta confusão, e muita bobagem dita por Bolsonaros, Malafaias e Myrians, achei que valia a pena fazer alguns apontamentos sobre as bobagens que vem sendo ditas e repetidas, especialmente pela bancada autodenominada evangélica.


Sobre a decisão do STF

Muito tem se falado sobre a decisão, o Malafa vociferando que é inconstitucional e vem a cereja do bolo com o projeto do Deputado João Campos de um decreto legislativo que tem por objetivo sustar os efeitos da ADIn. Mas vamos por partes.
Como o direito não faz parte da educação do brasileiro (o que é uma pena e tema para outros textos), somente quem se aventurou nesse curso consegue (ou deveria conseguir) entender o alcance da decisão. A tal decisão, diga-se, unânime, se baseou no artigo primeiro da Constituição. Isto é (basta ler lá) um FUNDAMENTO da República brasileira, no caso a dignidade da pessoa humana (é redundante, mas tá escrito lá, fazer o que). Não foi com base no art. 226, que trata da família. Assim, o STF, a quem cabe defender a Constituição, entendeu que não é possível que um Estado que defenda a dignidade negar direito aos casais homoafetivos. Em outras palavras, é uma decorrência direta dos valores de base do país reconhecer que cidadãos homossexuais são tão cidadãos quanto os demais. Parece óbvio, e realmente é, mas os ranços de preconceito forçaram a tal ADIn.
Aí me vem um tal Deputado João Campos que, segundo consta, é delegado de polícia e bacharel em Direito (assim diz ele) e apresenta um projeto de decreto legislativo para sustar os efeitos da decisão do STF. Bom, acho que ele ficou na constituição de 1967 e não leu a de 1988. Isso porque o art. 56 da Constituição, que prevê o decreto legislativo, fala que ele poderá ser usado para sustar efeitos de atos normativos do Poder Executivo, não fala nada de Judiciário. Antes, os artigos 100 e 101 deixam bem claro que a palavra do STF é final e não é contestável ou anulável pelos outros poderes. O STF é sim nosso órgão máximo.
Ou seja: o tal projeto do Deputado João Campos NÃO EXISTE JURIDICAMENTE. O máximo que poderia acontecer, num caso raríssimo de surto coletivo, é o próprio STF declarar o ato inexistente (o que até seria lindo).
Além disso, como a decisão foi com base no art. 1º, nenhum projeto, mesmo que de emenda à Constituição, poderá mudar seus efeitos, pois a dignidade humana não pode ser riscada da Constituição.
Portanto, a não ser que os ditos evangélicos resolvam dar um golpe de Estado, pode correr e oficializar no cartório a sua união porque ela vai valer, por mais que o Malafaia não queira (talvez eu não devesse ter dado a idéia do golpe).
E esse post ta muito grande e eu só comecei. Mal de advogado, tenham paciência.

Sobre o PL 122
Aí começa mais um festival de bobagem, que chega a dar aflição a qualquer pessoa alfabetizada e que seja capaz de um mínimo de raciocínio abstrato. Não vou nem perder meu tempo (e o seu, querido leitor) sobre a óbvia constitucionalidade do projeto. Vou me remeter apenas a uma questão e deixar a conclusão pra vocês: A lei vigente, que ficou conhecida como Lei do Racismo (Lei 7.71/89) mas pode ser melhor chamada de lei contra a discriminação, prevê as seguintes condutas como crime:

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”
Acompanhe comigo: uma das condutas criminosas é induzir ou incitar a discriminação ou preconceito contra RELIGIÃO. Olha, quem conhece um evangélico, um pastor ou já perdeu seu tempo ligando a TV nas madrugadas da televisão sabe muito bem que um dos esportes preferidos dos pastores evangélicos é divulgar os males das religiões espíritas ou de origem africanas, agregando todas sob a estigmatizada alcunha de macumba (que são também minorias religiosas). E mais, não sou poucos aqueles que incitam a chamada “guerra espiritual” contra pais de santo. E, no entanto, eu nunca vi nem ouvi que um pastor sequer tenha sido denunciado por incitar a discriminação contra o candomblé, por exemplo. Ninguém tem dúvidas de que isso diz respeito à profissão de fé deles.
Então, eu não consigo entender o medo que está sendo propagado pelas lideranças evangélicas que eles serão perseguidos (mentira que entendo sim, mas vamos fingir que não). Se ainda levarmos em conta que a recente emenda incluída no projeto pela Marta Suplicy, realmente não há como entender que dizer que ser gay é pecado viraria crime. Sabendo que provavelmente nem o Malafa leu o projeto, tirem suas conclusões.

Notinha sobre a Myrian
Bom, e o assunto da vez é a Myrian Rios que abriu o esgoto e saiu falando todo tipo de bobagem no plenário da Assembléia do Rio. Acho até engraçado, Myrian defendendo o direito de discriminar. Saibam que a babá lésbica dela poderia entrar com uma ação de dados morais na Justiça do Trabalho, onde conseguiria até a reintegração no emprego, tendo em vista que sua demissão foi motivada por discriminação.

Enfim, gente, votem melhor, por favor. É muita perda de tempo com gente burra.
(e procurem as leis no site do Planalto ou do Senado)

Vale tudo

Hoje aconteceu em São Paulo uma das maiores manifestações públicas do Brasil. Não, não estou falando da Parada do Orgulho LGBT, mas da Marcha pra Jesus.  E face ao que se tornou, o evento evangélico e a festa da diversidade sexual são a mesmissima coisa. Ambos surgiram como um momento de necessidade de clamor e liberdade de expressão de um povo oprimido, porém significativo, e se tornaram uma festa de exaltação a coisas equivocadas. Acredito que o único diferencial está na organização. Acredito que a militância que organiza a Parada do Orgulho LGBT, em todos os lugares do mundo, tem o objetivo inicial, trazer visibilidade a um setor da sociedade e pedir inclusão social. Já o objetivo da Marcha para Jesus que tinha em sua origem louvar a nome de Deus e propagar amor e evangelizar tornou-se, na mão de seus administradores, um evento de propagação do ódio. Aquela ideia de “amor de Cristo” foi para o ralo há algum tempo, mas em 2011 tornou-se mais evidente.

Liderado pela nova febre da rata dentre os fundamentalistas e conservadores, Silas Malafaia, a Marcha para Jesus reuniu um milhão de pessoas na tarde de hoje (segundo os organizadores a estimativa da polícia representa apenas um quinto do público real) e foi algo assustadoramente próximo ao nazismo. Palavras do pastor davam conta de chamar de “lixo moral” as pessoas que questionam a interferência das igrejas em assuntos do governo (mesmo estando num Estado laico), e comparou a liberdade de expressão, que ele tanto defende em poder praticar sua homofobia livremente, a apologia a cocaína e pedofilia. “Amanhã se alguém quiser fazer uma marcha em favor da pedofilia, do crack ou da cocaína vai poder fazer. Nós, em nome de Deus, dizemos não.”, disse Malafaia.

“O STF rasgou a Constituição que, no artigo 226, parágrafo 3º, diz claramente que união estável é entre um homem do gênero masculino e uma mulher do gênero feminino. União homossexual uma vírgula”. Silas Malafaia, mais uma vez, defendendo um Estado justo e democrático de fato. É óbvio que nenhum extremista vai dar bola pro que quero dizer, tanto do lado LGBT quanto do lado conservador, mas estamos a beira de um momento crítico no país. Com o aval de um nicho conservador que sabe exatamente onde e como inflar a fúria de outro setor da sociedade, estamos criando um cenário de instabilidade e isso poderá a levar a uma guerra entre progressistas e conservadores, utilizando, como em outros momentos, pessoas como armas. Me surpreende ver a historia se repetindo. Uma nova inquisição nascendo e hoje o homossexual é a nova bruxa. Pense que há 15 anos evangélicos e católicos se odiavam e trocavam ofensas, e hoje estão unidos “contra um mal maior”. É o medo da latente perda de fiéis de ambos os lados x o crescimento econômico no país que todo mundo quer tirar uma casquinha. Encobrir o preconceito com o manto da religiosidade é um golpe baixo. Se discursos baixos como este promovido por Silas Malafaia não tivessem espaço, não teriamos a necessidade da criação da PLC 122. A vontade de acabar com qualquer lei que beneficie homossexuais não é meramente uma questão ideológica ou religiosa. Tem fundamento econômico e apelo destrutivo. A liberdade de expressão é válida para eles, desde que seja só para eles. E muitos homossexuais pensam no mesmo caminho. Liberdade de expressão é unilateral. De nada adianta, nós gays, nos juntarmos por um ou outro motivo e jogar pedra na manifestação alheia. Todo mundo tem direito de manifestar suas ideias e filosofias, lógico, dentro de uma legalidade. Vale tudo. Homem com homem, mulher com mulher, homem com Deus, mulher sem Deus e todo mundo junto por um bem maior.

Juntamos 3,5 milhões em uma parada gay, mas não juntamos 35 mil para ajudar a educação. Reúnem 5 milhões promovendo a homofobia em nome de Cristo, mas não juntam 5 mil para doar sangue. Está tudo deturpado.

Não tenho nada contra gay, inclusive eu tenho um amigo que é viado e tals


Nenhuma frase pode ser mais imbecil que “não tenho nada contra gay, inclusive tenho amigos gays e…”, por que você prova sim que tem algo contra gay, uma vez que você rotula esse ou aquele cidadão face a quem ele ama. Essa frase de pseudo-igualdade não te torna menos intolerante. Principalmente porque essa frase normalmente é seguida por um “mas eu acho” e descamba todo o texto. Normalmente a frase é “não tenho nada contra gay, inclusive tenho um amigo assim e trato de igual, sabe? Mas acho que essas leis a favor deles estão criando uma ditadura gay, vocês não acham?”. Exemplo muito bonito desse tipo de pensamento é esse maravilhoso texto do Vereador Paulistano Carlos Apolinário do DEM (nenhuma surpresa, não?) que traz quatro perguntas que gostaria de responder. Posso? Obrigado.

1) É preciso, para ser gay, colocar uma camiseta com a inscrição no peito: Sou gay?

Claro que não. Da mesma maneira que nenhum evangélico precisa usar camisa do Smilinguido ou “Exército de Cristo, Aliste-se já!”, ou os católicos colocarem adesivos “tudo com jesus, nada sem maria” para se mostrarem cristãos. Pensando desta maneira, o nobre vereador poderia criar um projeto de lei onde todos receberiam camisetas brancas para uniformizar a sociedade. Essa liberdade de usar uma camisa com inscrições tem que ter um fim. É o tal orgulho que as pessoas pregam. Um absurdo. Onde já se viu, orgulho de ser algo.

2) É preciso ir a um canal de tevê ou a uma revista e dizer: Sou gay?

Claro que não. Da mesma forma que não é necessário ir a um programa de televisão evangelizar.
3) É preciso, para ser gay, ir a locais públicos e dar beijo na boca?

Eu sei que não é bacana responder uma pergunta com outra pergunta, mas: Para ser um homem hétero é necessário ver uma mulher na rua e chamar de gostosa? Ou é necessário dar as mãos num restaurante durante um jantar romântico com sua esposa? É necessário abraçar quem você ama em público?
4) Para ser gay, é preciso fazer uma declaração pública: Sou gay?

Bem, você só é gay, hétero, bissexual, assexuado ou qualquer outra nomenclatura que o valha depois que você, em algum momento da sua vida, declara que é assim. Você pode declarar tanto subindo num palanque ou dando um beijo em alguém.

Meu único questionamento ao vereador Carlos Apolinário é: liberdade é seletiva?

O vereador em questão ainda é responsável (como tantos outros engraçadinhos) em fazer o achincalhe dos direitos humanos criando a proposta do “dia do orgulho hétero”. O Orgulho LGBT não é uma afronta ao heterossexuais. É apenas uma demonstração que nós existimos e merecemos, assim como heterossexuais, todos os direitos previstos. Nunca vi um heterossexual sendo expulso de um lugar por beijar alguém do sexo oposto, ou ter seu direitos negados por isso, ou precisar esconder de sua família que é heterossexual. O Orgulho LGBT é uma forma de reafirmar que não precisamos viver em guetos e queremos nos inserir na sociedade de forma plena, sem diferenciação. Eu entendo perfeitamente que o objetivo do Orgulho LGBT foi bastante esvaziado, principalmente pela falta de objetivo político daqueles que lotam as Paradas e Marchas (mas isso é assunto pra outro post durante a semana). O foco aqui é que existe uma minoria oprimida e quer ser representada e quer ter voz, mostrar-se a sociedade e ganhar o espaço que é de direito. Não se cogita fazer um Dia do Orgulho Branco ou a Marcha Pelo Dia Internacional do Homem. As minorias lutam pelo seu reconhecimento e pelo fim do massacre cultural que as maiorias impoem há anos, décadas, séculos. Bem como existe a Marcha pra Jesus, e tem seu valor e seu significado que não devem ser menosprezados por qualquer cidadão, o Orgulho LGBT também não deveria.

O grande celeuma que estamos criando com esses embates ideológicos extremistas, tanto do lado dos conservadores e fundamentalistas religiosos quanto dos militantes LGBTs cegos por um discurso, é uma rixa que não é saudável para o Brasil e mina o debate da forma mais anti-democrática possível. Temos que conversar de maneira franca, honesta e reta para chegarmos a acordos. Ninguém consiguirá absolutamente nada com dedos na cara.

Tu passa por cima dele!

Dia 28 de Junho lembramos o incidente de Stonewall, o que marcou a início da luta pelos direitos LGBT no mundo, tendo nesta data o Dia do Orgulho LGBT (ou como se dizia antigamente “Dia do Orgulho Gay”). Por conta disso, decidi fazer um texto por dia, de hoje até a próxima terça (28/06/2011) com essa temática. Estamos de acordo? Todos balançam a cabeça e dizem que sim. Que beleza!

Um juiz em Goiás decidiu que o STF não sabe de absolutamente nada e esse negócio de homem com homem, mulher com mulher e outras coisas que vão contra a ~família brasileira~ são contrárias a constituição e, portanto, anulou o reconhecimento de união estável entre o jornalista Liorcino Mendes, 47, com o estudante Odílio Torres, 23. O juiz Jeronymo Pedro Villas Boas argumentou que o direito à união homossexual “inexiste no sistema constitucional brasileiro”. Ele afirmou que não quis confrontar o Supremo, mas “só seguir a Constituição”. O juiz afirmou ainda que defende que os homossexuais sejam livres para ter qualquer tipo de relação, mas “essas pessoas não podem querer a aceitação dos demais membros da sociedade como se fosse natural”. Para finalizar disse que sua medida não foi baseada em qualquer tipo de preconceito, apenas na constituição. Tirem suas conclusões.

OI MEU NOME É JERONYMO.

Quão terrível seria viver caso nossa constituição não evoluísse, como propõe o juiz goiano. O Brasil carrega até hoje a mácula de ser o último país independente das Américas a abolir a escravatura totalmente. Carregamos sempre o ranço do passado, ignorando que a sociedade é algo volátil e tem a tremenda habilidade de se modificar com o passar dos anos. O que mais me assusta é alguém pensar nos malefícios que a união civil homoafetiva poderá causar ao país. Vamos conferir uma lista de países onde os direitos LGBT são reconhecidos: Bélgica, Canadá, Espanha, Dinamarca, Islândia, Noruega, Holanda e Suécia. Como pode-se perceber, apenas países onde a educação é realmente precária e os pobres cidadãos vivem a beira da miséria, convivendo com guerras, doenças e toda sorte de tragédia. Coisa de país subdesenvolvido! Agora vejamos países onde os direitos LGBT são negados: Mianmar, Malásia, Coréia do Norte (onde homossexuais são presos), Irã (com direito a pena de morte), Afeganistão, Tanzânia (prisão perpétua) e Somália (pena de morte). Ou seja, apenas países extremamente desenvolvidos. Realmente, o Brasil é bem mais parecido com a Somália do que com o Canadá. Faz todo sentido.

Alheio a tudo isso (ou não), a Frente Parlamentar Evangélica (adoro esse nome) apresentou à Mesa Diretora da Câmara um projeto de decreto legislativo que pretende cassar a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os direitos dos homossexuais. O projeto do Deputado Federal João Campos (PSDB-GO) vai além da decisão do juiz Villas Boas. Ele propõe anular todos os atos dela decorrentes da decisão do Supremo. Reforçando sua ignorância, o Deputado alegou que o Congresso pode cassar uma decisão do STF – se, de fato, ocorrer, será algo inédito – com base no artigo 49 da Constituição. O item 5 deste artigo diz que é de competência exclusiva do Congresso “sustar atos normativos do Poder Executivo que exorbitem do poder regulamentar ou dos limites de delegação legislativa”. Não existe qualquer citação a determinações do Judiciário.

Vamos a um infográfico para explicar as consequências da decisão do STF:

Em resumo: a união civil homoafetiva não cria qualquer prejuizo a pátria e seu objetivo é meramente equiparar todos os cidadãos brasileiros, como diz a constituição que ela deve ser igual para todos. Óbvio que o conservadorismo que ganha voz no Brasil vai querer de todas as formas barrar o direito LGBT, mas jamais ignorará os deveres. O que não se pode é criar uma atmosfera de instabilidade no país, um diz algo, outro vem por cima e desmente e fica nesse embate. Três dados valiosos para você que é contra a união civil homoafetiva: 1) Se você é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo, apenas não se case com alguém do mesmo sexo. Você não precisa impedir a felicidade alheia para ser feliz. Caso você ache que isso é necessário, o que você sente não é felicidade, é inveja; 2) Gays e lésbicas não querem casar na igreja. O objetivo aqui é o reconhecimento legal. É poder, enfim, ter os mesmos direitos. Não é a criação de super-cidadãos como alguns pintam, pelo contrário, é, enfim, o término da marginalização de um setor representativo da sociedade; 3) Se você acredita que a justiça no Brasil é lenta, que tal se uma pilha de processos sobre reconhecimento de uniões estáveis desaparecessem? Com o reconhecimento do STF essa é uma tendência, uma vez que eu não precisarei entrar na justiça e esperar anos pelo óbvio ululante.

Formadores de falta de opinião

Ontem estava sem fazer nada em casa (vida de desempregado é assim mesmo) e vendo um pequeno quebra-pau entre a minha linda Lele Siedschlag (sempre me enrolo pra escrever o nome dela) e uma pessoa sem qualquer importância. Tudo se deu por algum mal entendido e o rapaz proferiu uma frase que me martelou, apesar da quantidade absurda de erros gramaticais em menos de 140 caracteres: VOCÊ TEM A OBRIGAÇÃO DE SER CORRETA PORQUE É UMA FORMADORA DE OPINIÃO.

Wait! Por que Dona Alessandra é uma formadora de opinião? Ok, ela tem um blog bacanudo, trabalha no R7, é jornalista (das boas, com diploma e tudo), mas isso não a qualifica como “formadora de opinião”. Não que eu desmereça seu trabalho, em absoluto, mas o que leva uma pessoa a ser “formadora de opinião”?

Todos sabemos o que é um “formador de opinião” (se você não sabe, apenas balance a cabeça concordando), e todos sabemos também da sua importância numa sociedade. O que leva a necessidade de um formador de opinião é o que me intriga. Por que hoje, em 2011, precisamos de pessoas que demonstrem sua opinião para que possamos absorver algo e tomar partido? É sério que não podemos compartilhar de opiniões próprias?

Estamos na era da comunicação. Qualquer um é um objeto transformador e emissor de informações e opiniões. Não dependemos mais de comentários ácidos e protestantes desse ou daquele cara para formar aquilo que achamos. O ser humano é formado pelos seus achismos. Eu tenho a minha opinião, você tem a sua. Podemos trocar opiniões e pronto. Temos dois pontos de vista sobre o mesmo assunto. Posso mudar meu ponto de vista e você também. Mas isso não significa que eu tenha que esperar aquilo que um ser superior, o “formador de opinião”, diga para que eu estabeleça o que eu acho desde a economia brasileira até as razões que levam Angela Bismarchi a fazer tantas cirurgias.

A necessidade do “formador de opinião” se dá numa sociedade preguiçosa. Quando temos preguiça de ligar os pontinhos, conectar nossa lógica e criar uma ideia, uma opinião, a gente recorre ao “formador de opinião” para parecer um pouco menos burro. O mais engraçado de tudo é que a figura do “formador de opinião” é utilizada unicamente por aqueles que se julgam mais inteligentes e abastados. Você nunca vai ver aquela senhora que vende pipoca na porta do cinema, que tem cara de quem faz uma rabada deliciosa no fim de semana pros netos, e que pega dois trens pra chegar em casa esperando a opinião de um formador para poder dialogar. Ela tem a opinião dela, por mais equivocada que seja, mas tem. E na maioria das vezes, a opinião dela bate com a sua, mas de uma maneira muito mais simplista.

Perdemos essa pureza de cada um ser um formador de opinião, dessa vez sem aspas. A gente vive a ArnaldoJaborização das ideias, onde se espera alguém que julgamos mais inteligente abrir a boca e usamos suas palavras com toda propriedade, como se fossemos incapazes de escrever ou falar.

Não que eu ache que devemos falar as maiores asneiras sem pensar só pra quebrar a solda dos “formadores de opinião”. Existe, acima de tudo isso, a ética e o bom senso.

Quanto a obrigação de ser correto, pelo amor de Deus, né? Quando a gente vai parar de ser pseudo-politicamente correto e assumir nosso lado mais leve e espontâneo? Parece que essa geração viveu tão bem os anos de chumbo que decidiu que tudo hoje deve ser censurado. O correto é bastante relativo. Como disse em outro post, há alguns séculos era correto afirmar que a terra era plana e que o sol girava em torno da Terra. Se a gente não questionar, viveremos num 2011 eterno, sem evoluções. E acredite, estamos caminhando para isso.

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