Posts marcados ‘Jair Bolsonaro’

42 anos de orgulho

Eu não poderia deixar passar os 42 anos do Orgulho LGBT em brancas nuvens. Desde Stonewall Inn, em 28 de junho de 1969, quando a polícia invadiu o bar e massacrou um grupo de homossexuais e transgêneros, muito foi conquistado. A exemplo no Brasil temos a recente decisão do STF sobre a união homoafetiva, os milhões de cidadãos que se movem contra o preconceito em marchas e manifestações a favor da diversidade sexual em todo o país, o reconhecimento da ex-companheira de Cássia Eller como mãe de seu filho, os avanços na mídia e no debate sobre a homofobia e, obviamente, o primeiro casamento civil homoafetivo, realizado hoje no interior de São Paulo. De 1969 pra cá muita coisa mudou para melhor, apesar dos pesares, estamos remando adiante, lentamente, mas colhendo um mundo mais justo não só para nós, mas abrindo a mente e dando voz a outras minorias. Muitos podem dizer que face ao conservadorismo protagonizado por Bolsonaros, Malafaias e, agora, Myrians, não temos o que comemorar. Mas acho que eles comemoram conosco, afinal, não teriam de onde tirar verba se não fosse pela nossa luta.

Vivemos num país onde é bonito ver dois homens brigando, mas hediondo ver dois homens se amando. Existe muito o que lutar e não podemos nos anular nos outros dias do ano. O homossexual sofre preconceito diariamente e as questões afirmativas são fundamentais para um mundo mais justo. Sonho com o dia que não teremos mais a necessidade de marchas, leis e didatismos para acolher as minorias como gays, negros, mulheres e outros. Enquanto vivermos com o pé no passado, teremos medo de buscar o que é nosso por direito no presente e pior, passaremos uma guilhotina no pescoço do futuro.

Não há religião, cultura, lei, localização ou proibição que vá impedir um homossexual de existir. Não existe essa história de “ele é gay pelas influências”. Se fosse assim, todo mundo seria heterossexual, afinal, estamos numa cultura heteronormativa e, em grande maioria, os pais são heterossexuais. Ninguém escolhe ser gay, bem como não escolhe ser hétero. Não existe uma enquete em dado momento da sua vida que você escolheu com quem transar e quem amar.

Os opositores dizem que as minorias visam criar um nicho de super-cidadãos, inabaláveis e incriticáveis. É muito confortável dizer isso quando se está inserido em uma maioria dominante. A péssima notícia que eu tenho a dar é que a vida não é justa. Para ninguém. E as minorias, independente de qual estamos tratando, tem uma carga histórica que precisa ser apagada. Não podemos menosprezar que negros não tem as mesmas oportunidades que brancos, que mulheres sofrem abusos diários por homens, que algumas religiões e culturas sofreram e ainda sofrem massacres culturais e que gays não tem os mesmos direitos que heterossexuais. Para um mundo mais justo é necessário olhar com abrangência a sociedade e atender as necessidades específicas dos movimentos sociais. As feministas queimaram sutiãs e hoje têm direitos iguais. Os negros exaltaram sua cultura e se inseriram. Os homossexuais não podem se anular por conta de um falso-moralismo.

Que todo dia 28 de junho seja dia de lembrarmos aqueles que morreram, aqueles que sobreviveram, aqueles que fizeram história, aqueles que fazem a sociedade. Que todo dia a gente possa conviver pacificamente, não importando com quem eu durmo ou quem eu amo. Eu quero ser feliz e ter minha cidadania plena e quero o mesmo para todos. Eu quero igualdade e não superioridade, nem dos gays e nem dos heteros. Não podemos viver num mundo de aceitações. Aceitar é apenas dar espaço a mostrar uma superioridade falsa. Quero viver num país onde meus filhos e seus filhos possam se confundir na multidão que constrói essa nação.

 

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Pensamentos sobre a reação conservadora

Contribuição de Rafael Moreira (@pelotelefone) para o Dia do Orgulho LGBT

Em meio a tanta confusão, e muita bobagem dita por Bolsonaros, Malafaias e Myrians, achei que valia a pena fazer alguns apontamentos sobre as bobagens que vem sendo ditas e repetidas, especialmente pela bancada autodenominada evangélica.


Sobre a decisão do STF

Muito tem se falado sobre a decisão, o Malafa vociferando que é inconstitucional e vem a cereja do bolo com o projeto do Deputado João Campos de um decreto legislativo que tem por objetivo sustar os efeitos da ADIn. Mas vamos por partes.
Como o direito não faz parte da educação do brasileiro (o que é uma pena e tema para outros textos), somente quem se aventurou nesse curso consegue (ou deveria conseguir) entender o alcance da decisão. A tal decisão, diga-se, unânime, se baseou no artigo primeiro da Constituição. Isto é (basta ler lá) um FUNDAMENTO da República brasileira, no caso a dignidade da pessoa humana (é redundante, mas tá escrito lá, fazer o que). Não foi com base no art. 226, que trata da família. Assim, o STF, a quem cabe defender a Constituição, entendeu que não é possível que um Estado que defenda a dignidade negar direito aos casais homoafetivos. Em outras palavras, é uma decorrência direta dos valores de base do país reconhecer que cidadãos homossexuais são tão cidadãos quanto os demais. Parece óbvio, e realmente é, mas os ranços de preconceito forçaram a tal ADIn.
Aí me vem um tal Deputado João Campos que, segundo consta, é delegado de polícia e bacharel em Direito (assim diz ele) e apresenta um projeto de decreto legislativo para sustar os efeitos da decisão do STF. Bom, acho que ele ficou na constituição de 1967 e não leu a de 1988. Isso porque o art. 56 da Constituição, que prevê o decreto legislativo, fala que ele poderá ser usado para sustar efeitos de atos normativos do Poder Executivo, não fala nada de Judiciário. Antes, os artigos 100 e 101 deixam bem claro que a palavra do STF é final e não é contestável ou anulável pelos outros poderes. O STF é sim nosso órgão máximo.
Ou seja: o tal projeto do Deputado João Campos NÃO EXISTE JURIDICAMENTE. O máximo que poderia acontecer, num caso raríssimo de surto coletivo, é o próprio STF declarar o ato inexistente (o que até seria lindo).
Além disso, como a decisão foi com base no art. 1º, nenhum projeto, mesmo que de emenda à Constituição, poderá mudar seus efeitos, pois a dignidade humana não pode ser riscada da Constituição.
Portanto, a não ser que os ditos evangélicos resolvam dar um golpe de Estado, pode correr e oficializar no cartório a sua união porque ela vai valer, por mais que o Malafaia não queira (talvez eu não devesse ter dado a idéia do golpe).
E esse post ta muito grande e eu só comecei. Mal de advogado, tenham paciência.

Sobre o PL 122
Aí começa mais um festival de bobagem, que chega a dar aflição a qualquer pessoa alfabetizada e que seja capaz de um mínimo de raciocínio abstrato. Não vou nem perder meu tempo (e o seu, querido leitor) sobre a óbvia constitucionalidade do projeto. Vou me remeter apenas a uma questão e deixar a conclusão pra vocês: A lei vigente, que ficou conhecida como Lei do Racismo (Lei 7.71/89) mas pode ser melhor chamada de lei contra a discriminação, prevê as seguintes condutas como crime:

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”
Acompanhe comigo: uma das condutas criminosas é induzir ou incitar a discriminação ou preconceito contra RELIGIÃO. Olha, quem conhece um evangélico, um pastor ou já perdeu seu tempo ligando a TV nas madrugadas da televisão sabe muito bem que um dos esportes preferidos dos pastores evangélicos é divulgar os males das religiões espíritas ou de origem africanas, agregando todas sob a estigmatizada alcunha de macumba (que são também minorias religiosas). E mais, não sou poucos aqueles que incitam a chamada “guerra espiritual” contra pais de santo. E, no entanto, eu nunca vi nem ouvi que um pastor sequer tenha sido denunciado por incitar a discriminação contra o candomblé, por exemplo. Ninguém tem dúvidas de que isso diz respeito à profissão de fé deles.
Então, eu não consigo entender o medo que está sendo propagado pelas lideranças evangélicas que eles serão perseguidos (mentira que entendo sim, mas vamos fingir que não). Se ainda levarmos em conta que a recente emenda incluída no projeto pela Marta Suplicy, realmente não há como entender que dizer que ser gay é pecado viraria crime. Sabendo que provavelmente nem o Malafa leu o projeto, tirem suas conclusões.

Notinha sobre a Myrian
Bom, e o assunto da vez é a Myrian Rios que abriu o esgoto e saiu falando todo tipo de bobagem no plenário da Assembléia do Rio. Acho até engraçado, Myrian defendendo o direito de discriminar. Saibam que a babá lésbica dela poderia entrar com uma ação de dados morais na Justiça do Trabalho, onde conseguiria até a reintegração no emprego, tendo em vista que sua demissão foi motivada por discriminação.

Enfim, gente, votem melhor, por favor. É muita perda de tempo com gente burra.
(e procurem as leis no site do Planalto ou do Senado)

Esse liberalismo não tem limites!

No post sobre Jair Bolsonaro recebi uma quantidade incrível de comentários. Inclusive agradeço imensamente pelo barulho feito. Ficamos entre os 100 posts mais lidos no mundo (no mundo de WordPress, mas ainda é um mundo). Nós ficamos. Todos nós que não suportamos essas manifestações de preconceito. Aprovei todos que recebi, salvo os SPAMs.  Hoje, 31 de março de 2011, recebi este comentário de uma senhorita chamada Samantha. Não faço ideia de quem seja, mas achei bastante curioso seu apontamento sobre Jair Bolsonaro. Sinceramente não entendi se ela foi irônica num nível tão absurdo que eu não alcancei (então, meus parabéns) ou se foi apenas uma gota no oceano de 120 mil votos do futuro ex-deputado. Gostaria de compartilhar com vocês:

“Bolsonaro expôs a opinião dele, assim como vocês são sempre tão vocais na expressão de seus direitos. E outra: Se não quer ouvir, NÃO PERGUNTE!!! Graças a Deus ainda moramos num país onde se pode criticar e ter opiniões. Na sua cartinha você acusa o Deputado de “nazi-fascista” mas quem está impondo uma censura de opinião é você, meu caro.

Um político expressa a sua opinião e o rebuliço está formado. Tenha santa paciência!!! Se bobear, é capaz até de isso gerar uma revolução! Agora: cadê essa mobilização quando Mensalões são desmascarados? Quando qualquer tipo de corrupção vem á tona? Pelo menos nunca ouvi desse Deputado (Bolsonaro) estar envolvido nos escândalos que REALMENTE definem o caráter e a podridão da política brasileira.

Olha, vocês que me desculpem, mas pra mim, o mais triste disso tudo é ver como o homossexualismo tem se tornado algo tão normal, tão natural, tão correto. A IMPOSIÇÃO da aceitação desse desvio sexual especialmente pela mídia etc, está cada vez maior e isso é realmente MUITO triste… Ainda não tenho filhos, mas temo pelo mundo em que eles viverão. Pra onde irão os valores de FAMÍLIA -> PAI e MÃE (MACHO E FÊMEA) e filhos??

Meu Deus…. Ainda bem que ainda temos alguma representação resistente à esse liberalismo sem limites. É o mundo chegando no fim MESMO!!!”
Ok, então vamos por partes. É muita informação reacionária pra pouco parágrafo.

Primeiramente, muito obrigado por vir até meu blog e deixar tão amável comentário. Já pode se orgulhar e colocar no currículo. Sim, Bolsonaro tem todo direito a utilizar de sua opinião, por mais equivocada que seja, da mesma forma que eu tenho direito a me expressar sem sua interferência. Se o Brasil hoje é um Estado democrático, onde todos podemos expressar nossas opiniões, não agradeça a seu candidato Jair Bolsonaro. O rapazinho não estava do lado da liberdade de expressão em 1968, quando foi instaurado o AI-5. Há que se lembrar que a televisão no Brasil, não sei se é de seu conhecimento, é uma concessão pública. Ou seja, mais um fator pesando contra o ex-militar. Isso sem contar o poder de penetração de algo publicado numa emissora de TV versus algo escrito num blog gratuito como o meu. Isso sem contar que eu tenho a obrigação moral, como eleitor brasileiro, de fiscalizar o trabalho dos políticos do Brasil. Jair Bolsonaro falou algo que me ofendeu, não apenas quanto a homossexualidade, pois sempre soube de sua visão retrógrada e nazi-fascista (continuo sustentando minha opinião), mas sua declaração misógina e racista. Obviamente Jair Bolsonaro, num programa de televisão, tem muito mais repercussão do que este pobre blogueiro.

Não podemos criar um reboliço em cima da opinião de um politico? Temos que nos calar e engolir a seco todo tipo de absurdo? Quem está censurando quem aqui, minha nobre comentarista? Eu, por expressar minha indignação face às declarações de Jair Bolsonaro, ou você, por recriminar minha opinião? E nem precisa dizer que estou censurando sua opinião com este texto. Muito pelo contrário. Estou dando a você um destaque que não ofereci a qualquer outro comentário e estou expondo minha opinião, afinal, meu direito.

Eu acharia excelente caso esse comentário do Bolsonaro gerasse uma revolução. Não. Pensando bem, isso não geraria uma revolução. A revolução já está acontecendo e você não percebeu. Isso sim é revolução. Dar voz a qualquer imbecil, como eu. O que Jair Bolsonaro propõe não é revolução. É ditadura. O ilustre Deputado Federal propõe, inclusive, a esterelização das classes mais baixas. Revolucionário seria dar dignidade a essa gente, como o Governo Lula, tão criticado por seu “Bolsa Familia”, que por mais que você direitista odeie, tirou milhões de pessoas da completa miséria. É o ideal? Não. Acredito que não. Mas todo brasileiro tem direito a dignidade, independente de sua condição social, etnia, cultura, orientação sexual, religião e outras coisas que usamos pra separar uns dos outros como se fossemos coleta seletiva. Quando vamos compreender que, por exemplo, antes de ser branco, gay, obeso, neto de nordestino, agnóstico, estrábico e fumante, sou brasileiro, sou humano, sou digno de respeito? Respeito e igualdade vão muito além de setorizações. Eu não preciso ser negro para me revoltar com um ato racista como do Deputado Jair Bolsonaro. Eu não preciso ser judeu para me revoltar com o genocídio. Acima de qualquer coisa prezamos a liberdade. A própria bíblia, se não me engano, cita algo sobre Livre Arbítrio, não?

O brasileiro médio tem uma incrível mania de justificar um erro com outro. Aquela famosa máxima do eleitor malufista que diz “rouba, mas faz”. Corrupção é crime? Sim. E acho que todos se revoltaram o bastante com o mensalão em sua época e o debate foi bastante amplo. Agora é hora de pedir o julgamento. Muitas das acusações não foram comprovadas, mas isso não faz o crime ser menos feio. Todo corrupto deve ser julgado e condenado, como todo brasileiro que comete qualquer tipo de crime. Inclusive o crime de racismo. Não é porque Jair Bolsonaro não tem envolvimento comprovado com algum esquema de corrupção que ele se torna invencível e digno de falar todo tipo de asneira. Como se roubar fosse um crime maior que matar. Pois preconceito mata. Basta ver as tantas manifestações de homofobia e racismo que temos nesse país onde jovens são assassinados brutalmente por outros jovens neo-nazistas que espancam até a morte unicamente porque fulano “é de cor” e beltrano “parece viado”. A quem interessa com quem eu durmo e/ou pretendo constituir familia? O que me torna superior a uma mulher negra? Ser preconceituso define tanto o caráter de alguém quanto ser ladrão. Ambos são criminosos.

É triste mesmo ver como a homossexualidade (nunca homossexualismo, tá bom, amor?) tem se tornado algo normal e aceitável. Acho mesmo um absurdo. Por que isso é completamente normal e aceitável e já deveria ter se tornado normal e aceitável há muito tempo. Ou melhor, não existe qualquer razão lógica para o amor entre duas pessoas ser considerado anormal e inaceitável. Não existe imposição quanto a aceitação da sexualidade alheia. É algo alheio a você. Você não precisa nem tomar conhecimento. Muito triste mesmo é ver uma pessoa se limitar a seu mundo umbilical.

Sorte da senhorita que não tenha filhos. E espero que não tenha. Não gostaria de ver sua filosofia ser propagada, mas como nada posso fazer para evitar, afinal existe aquele livre arbítrio que citei e a lei proposta por Bolsonaro para a esterilização ainda não foi aprovada, anuncio que existe uma enorme, gigantesca, nababesca probabilidade do seu filho fazer você rever seus conceitos arcaicos. A próxima geração vem pra quebrar conceitos da nossa geração. E todo turrão tem um “filho problema” para amargar a família. Você não fugirá a regra. Até seu ídolo tem a decepção da família pelo que andei apurando, mas não posso jogar bosta no ventilador por responsabilidade jurídica.

É um pensamento muito mesozóico qualificar o ser humano como macho e fêmea. Não somos bichos. O cristianismo prega que não viemos dos macacos, tão logo, não somos macho e fêmea. Somos racionais e não animais que fazem sexo unicamente pra reprodução. A maioria faz sexo por oportunidade (quanto tem uma oportunidade, vai lá e faz, sabe-se lá quando teremos outra, não é mesmo?). Se fossemos meramente macho e fêmea fariamos sexo pra reprodução e estariamos até hoje arrastando mulheres pelos cabelos. O conceito de amor é algo criado por nós. Acho impressionante alguém que diz que Deus é amor pregar contra o amor. É como lançar bombas pela paz. Você pode até basear sua homofobia em escrituras bíblicas, mas releia todos os testamentos (são quatro, não precisa de muito tempo pra ler) e você perceberá que Jesus Cristo, o filho de Deus, aquele que veio a Terra para nos salvar, em momento algum recrimina a homossexualidade. Todas as citações a homossexualidade vem em livros que não contam com esse feat. Jesus Christ. É lógico que a Igreja, seja ela qual for, jamais “permitirá” a homossexualidade. Não é lucrativo. Aprenda que gente é investimento a longo prazo. Quanto mais gente no mundo, mais renda qualquer instituição terá, seja uma igreja ou uma padaria. Se homossexuais teoricamente não podem ter filhos (como se adoção e inseminação artificial não fossem possiveis), tão logo não gerarão renda futura, e automaticamente, essa ou aquela instituição deixará de se enriquecer. Não parece óbvio? Este motivo também se aplica a métodos contraceptivos. Não é Deus no comando. É dinheiro.

Há algum tempo era impensável existir religião, em seguida tornou impensável que existisse mais de uma religião. Muitos países ainda vivem assim, sem o respeito a religião do outro. Basta ligar qualquer noticiário mequetrefe.  Acredite se puder, teve época que quem dissesse que a Terra é redonda ou que o Sol é o centro do universo custaria a vida. Houve período que o cristianismo matava em nome de Deus. Lembre-se que até algum tempo atrás, o que historicamente significa ontem a noite, negros não eram considerados sequer gente. Índios também não. Mulheres não tinham qualquer tipo de direito e eram tratadas como uma sub-espécie humana. Acredite, nos padrões de família que tinhamos, mulheres não trabalhavam, eram completamente submissas e nem sequer tinham direito ao voto. Esse liberalismo não tem limites mesmo, né? É o fim do mundo mesmo!

Obrigado pela visita ao meu blog, volte sempre e me dê mais pautas deliciosas como essa. Atenciosamente, a Gerência.

Carta aberta ao Deputado Jair Bolsonaro

Caro futuro ex-deputado Jair Bolsonaro,

Espero, sinceramente, que você leia esta carta e já esteja muito longe do poder.  Por isso me recuso a usar qualquer pronome de tratamento com você. Até porque, bem na verdade, o senhor não merece qualquer tipo de tratamento diferenciado, afinal, defende que não existam diferenças, uma vez que a constituição brasileira é igual para todos, não é?

Fere meu orgulho de ser brasileiro ver alguém como o senhor representando o meu estado do Rio de Janeiro em Brasília. Fere, primeiramente, por ver que o senhor está no poder há vinte anos sustentando o mesmo discurso nazi-fascista. O senhor, deputado, não defende os valores da família. O senhor defende tudo que há de mais errado na nossa sociedade. O senhor defende o preconceito, o desrespeito, o desprezo e a violência. São seis mandatos consecutivos propagando o ódio.

É, no mínimo, revoltante ver que alguém como você, que está na Câmara dos Deputados representando o povo brasileiro, tenha esse tipo de discurso. Será que o povo brasileiro é um recorte do seu comportamento? Será que o povo brasileiro concorda em não entrar em um avião pilotado por um aluno cotista? Será que o povo brasileiro pediria ao médico, antes de qualquer procedimento, que desse uma prova de que não é cotista? O que o senhor, em vinte anos como deputado federal, fez para reverter a necessidade de cotas raciais ou sociais? Quanto o senhor já gastou de seu tempo modificando as políticas sociais do país e pedindo melhorias na educação? Acho que o senhor estava ocupado demais pescando com seus filhos e posando para seu site com um belo uniforme militar para se preocupar com suas reais obrigações com o país.

Jair, entenda, se hoje o Brasil está “desse jeito”, como o senhor reclama, a culpa é única  e exclusiva do processo ditatorial que passamos por anos nestas terras. Ou seja, se hoje existe o desrespeito a familia, e pessoas precisando “levar uma boa surra”, a culpa é sua. A culpa é do silêncio que seus amigos propagaram no país. Esse grito que fazemos todos os dias nada mais é que o trauma pelos desprezíveis anos que passamos sob o jugo da censura e da tortura.

O senhor diz que não tem filhos gays porque os deu uma boa educação e sempre esteve presente na infância deles. Ora, deputado, acredite, meu pai me deu uma educação exemplar. Coisa que muito me orgulho. E sempre foi presente. Sempre foi preocupado com minha educação e sempre esteve ao meu lado. Meus pais são casados até hoje, sempre vivi num lar de cultura hetero-normativa como o lar que o senhor propõe a toda familia brasileira, e curiosamente, sou homossexual. Talvez meu pai não tenha sido tão presente quanto o senhor. Talvez porque ele precisava ter dois empregos enquanto a ditadura estava no país. Talvez porque meu pai nunca ganhou pensão como militar, nunca ganhou décimo-quarto e décimo-quinto salários e outros benefícios. Talvez porque meu pai precisou esconder seus ideais quanto tinha a minha idade, pois teve centenas de amigos presos e torturados, muitos deles, desaparecidos até hoje, enquanto o senhor se esbaldava no manjar da ditadura militar. Perdão. Durante o governo militarista, fruto da heróica revolução de 1964. Saudades do Geisel, não?

Deputado, acredite, nós homossexuais não queremos ser “tolerados”. Tolerar é muito pouco. Queremos que o discurso do senhor, que a constituição é igual para todos, seja válido. Queremos ter os mesmos direitos que o senhor. Queremos poder casar, queremos nos divorciar, queremos ter direito a pensão, direito visitas íntimas quando um companheiro estiver preso, e tudo mais que o senhor desfruta hoje e eu não. Já disse Saramago: “Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdadade, mas de superioridade sobre o outro. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância”.

Não, Jair. A nação não ruirá com os valores familiares do séculos XIV caindo por terra. As estruturas familiares hoje vão muito além das aparências que o senhor sustenta. Hoje o Brasil conta com um incrível número de mães solteiras, casais divorciados e casais homossexuais, com seus filhos, e outras tantas estruturas familiares que vão muito além dos adesivos de familia feliz colados nos pára-choques de carros. Nem por isso nosso Estado está arruinado. Pelo contrário, aqueles que lutaram contra a ditadura que o senhor apoiou e brindou a morte de tantos, trouxeram um país muito mais próspero. A fase mais próspera da economia brasileira.

Dentre todas suas declarações, todas extremamente equivocadas, a que mais me choca é ver a sua opinião sobre ter uma nora negra. Receber uma mulher negra em sua família é um ato promíscuo? Em sua resposta a Preta Gil, filha de um exilado político da Ditadura, mulher e negra, o senhor desrespeitou, em uma única frase, três setores da sociedade. Qualificar a paixão como falta de educação foi um duro tapa na cara. Por mais que muitos tenham boa vontade e acreditem que o senhor não entendeu a pergunta, ou que a edição tenha prejudicado, eu acredito sim que o senhor acredite que uma mulher negra, filha de rebeldes da ditadura militar, seja uma promiscuidade. Isso é uma ofensa a todos aqueles que se solidarizam com as vítimas da ditadura, com todas as mulheres e todas e todos os negros deste país. Acredite, é bastante gente. Muito mais que os militares que o senhor defende. Muito mais que os míseros 120 mil eleitores que o senhor conquistou em 2010.

Não, Jair Bolsonaro. O senhor não me representa. O senhor representa apenas os equívocos que esse país já cometeu. Representa o retrocesso. Representa a necessidade de cotas, que o senhor tanto critica, representa a escravidão, o silêncio, as masmorras e todas as atrocidades já cometidas nesse país.

O senhor, futuro ex-deputado Jair Bolsonaro, representa tudo que o Brasil hoje mais abomina. E todos os 120 mil eleitores que o colocaram em seu sexto mandato são totalmente responsáveis por esse grotesco show de horrores protagonizado em nossa recente democracia. Irônico um ex-militar que apóia e se diz saudosista da ditadura depender tanto da democracia pra viver,  não?  São 120 mil pessoas que pregam o racismo, a homofobia e a misoginia. Espero, do fundo do meu coração, que o senhor leia isso. E não quero nada além de esclarecimento ao senhor. Jamais desejaria tortura ou a morte a alguém como você. Você merece a tortura pessoal e psicológica de ter um dia usar sua língua como seu chicote.

Atenciosamente

João Márcio Dias de Alencar.

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