Posts marcados ‘globo’

Muito além da capa da Trip

Senhoras e senhores, esta é a capa da Trip de outubro. Um especial sobre diversidade sexual. Há uns dois meses uma amiga me falou sobre esse tema e até pediu umas sugestões de pauta e enviei. Assim que esbarrar pela revista, vou comprar. Pelos temas que vi na capa, eles fugiram do lugar comum, o que muito me agrada.

Assim que a publicação divulgou sua capa vi muita gente dizendo “nossa, que tapa na cara da sociedade, parabéns Trip” ou então “A Trip fez o que a Globo até hoje não teve coragem de fazer”. Sinceramente, acho que a Trip não deu um tapa na cara da sociedade e muito menos fez o que a Globo nunca teve coragem de fazer. A Trip deu um soco no estômago de todos os gays e fez o que poucos gays tiveram coragem de fazer. Essa edição não é só pra falar com a sociedade heteronormativa, mas pra dar uma bela voadora em tudo aquilo que a massa média LGBT anda fazendo.

O público LGBT hoje conta com duas grandes publicações: a G Magazine e a Junior. A primeira, de conteúdo majoritariamente sexista, com homens de pouca roupa ou nenhuma. Essa publicação tem 13 anos e está sempre por aí desnudando famosos e anônimos, como a Playboy faz para o mundo há anos. A Junior, com poucos anos de banca, é uma revista mais comportada, voltada a um soft porn no máximo e com o enfoque mais jovem, uma espécie de Capricho Gay. Agora pegue todas as publicações. Veja quantas das 33 capas da Junior ou das 163 da G Magazine figuraram um beijo entre dois homens. Vou economizar seu tempo na busca: nenhuma. A G Magazine até publicou um ensaio com Alexandre Frota beijando um rapaz, mas essa foto foi pro interior da revista. É bem mais rotineiro ver trigêmeos nus, ou uma “trilogia do prazer” escancarada do que um beijo como fez a Trip. A Trip não precisou apelar pro sexismo. Não precisou reforçar a ideia do homossexual promíscuo guiado pela libido. A Trip sim respeitou o homossexual. As outras publicações só chumbaram a ideia de sexo-gueto-sexo-diva-sexo-sexo-consumo-diva-sexo.

Você diz que a Trip fez o que a Globo não teve coragem de fazer, mas quantas vezes você já deu um beijo no seu namorado no meio da rua? Nada adianta cobrar uma postura da TV que você não se dispõe a mostrar a sociedade. Quantas vezes você já deu a mão pro seu namorado num restaurante ou tentou não se esconder? A televisão, hoje pelo menos, apesar de todos os chavões em seus humoristicos, coloca o gay numa posição de mínimo respeito em sua teledramaturgia. E você? Se respeita? Respeita a diversidade sexual como um todo? Ou fica com o pensamento que “bissexual não existe, é coisa de homem que não sabe o que quer” ou exclui travestis e transexuais do seu convívio? Sim, porque isso existe no meio LGBT. Então, caros amigos (opa, revista errada), que tal olharmos um pouco mais pro nosso lindo rabinho antes de jogar bosta no ventilador?

Além da beleza da foto, a Trip é corajosa e bate na cara de todos os gays por não colocar esteriótipos ou fetiches. São dois homens. Eles se beijam. E isso basta. Passa a mensagem. A Trip ensina em outubro muito mais do que dizem suas chamadas. Ensina a todo mundo se misturar a população e parar com o pensamento segregado e de coitadismo. Ser gay é um mero detalhe. Ser gay, na verdade, não significa nada. Você é bem mais que com quem você transa ou deixa de transar.

Parabéns a Trip. Parabéns pelo questionamento. Parabéns pela coragem de expor que nós homossexuais não temos a coragem necessária pra mudar tudo. Parabéns por inserir o homossexual no universo. Parabéns por esse soco na boca do meu estômago.

PS: caso algum revoltoso não tenha percebido, uma dica: eu também sou homossexual. A diferença é que não forço uma barra pra me camuflar. Tampouco acho necessário alardear com quem eu transo. Antes de ser gay, sou um monte de outras coisas legais e mais uma cacetada de coisas babacas. E todo mundo é assim. Inclusive os heterossexuais.

 

 

 

Anúncios

Pode, não pode, phode

Segundo matéria de Keyla Jimenez, da coluna Outro Canal da Folha de São Paulo, as histórias dos personagens de Insensato Coração, Edu e Hugo, bem como toda a trama ao seu redor, como auto-aceitação, aceitação parental, homofobia e união homoafetiva, serão engavetados pela Rede Globo.

Destaque para três pontos que acredito serem fundamentais nessa novela:

1) A Rede Globo convocou uma reunião com Gilberto Braga, homossexual assumido, responsável pelos maiores sucessos de audiência do canal, e tão logo, um dos autores mais rentáveis da casa, para que ele não “carregue bandeira política” e não faça apologia a necessidade de uma lei que puna a homofobia. Por que tal exigência não foi feita a Manoel Carlos às vésperas da aprovação do Estatuto  do Idoso, uma vez que o Brasil é composto por uma maioria jovem? Quando o autor do Leblon inseriu os personagem Laura e Leopoldo, que seriam infernizados pela neta Dóris em Mulheres Apaixonadas, também existia uma bandeira política, não? Quando debatemos racismo (como em Da Cor do Pecado), saúde pública (em De Corpo e Alma), tráfico e consumo de drogas (em O Clone) ou não indo tão longe assim, e utilizando a própria Insensato Coração como exemplo, o caso de abuso sexual sofrido pela personagem Cecília, que tal? Também não são bandeiras políticas? E não merecem ser debatidas e expostas ao público? Onde foi parar aquele enorme e pomposo fascículo sobre Responsabilidade Social que a Rede Globo apresenta a seus patrocinadores na hora de angariar cotas para sua programação?

2) As cenas engraçadas do personagem Roni devem continuar. Ou seja, respeitar o ser humano e mostrar a sociedade que existe um setor fragilizado e que necessita de proteção do Estado não é bom para o Brasil, mas mostrar um personagem caricato que apenas reforça o preconceito, colocando-o como objeto de escárnio como acontece desde sempre na televisão brasileira, isso é totalmente aceitável.

3) A Globo alega que a TV é um veículo de massa e precisa contemplar todos os seus públicos. Os LGBTs não estão inseridos em seus públicos? Nós não assistimos seus programas? Então, uma vez que devemos contemplar TODOS os públicos na TV, por que então a existência de programas como a Santa Missa Em Seu Lar, uma vez que nem todos os brasileiros são católicos? E por que somos obrigados a conviver com o Auto-Esporte, já que nem todo mundo se interessa e/ou tem um carro. E por que não engavetar o Mais Você, já que uma parcela da sociedade não tem nem o que comer e é obrigada a assistir Ana Maria Braga preparando seus quitutes nas manhãs globais?

Curiosamente, no mesmo dia que a matéria é públicada pela Folha, temos dois destaques sobre homofobia no Brasil:

O primeiro caso relata de um pai e seu filho que estavam abraçados em uma festa popular no interior de São Paulo e foram brutalmente agredidos por um grupo de sete rapazes que acreditavam que eles eram um casal de homossexuais. O pai teve parte da sua orelha decepada por um objeto cortante. Caso não acredite, leia aqui. Em outro relato, descobrimos que a Bahia é o estado onde mais homossexuais morrem unicamente por serem homossexuais. E, além disso, revelamos o triste dado que o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo em seus crimes de ódio. E aí eu questiono: num país onde até heterossexuais são agredidos por conta da homofobia, não devemos levantar bandeira e mostrar a sociedade que existe a necessidade de respeito? E a televisão, que é o principal veículo para promoção de qualquer coisa nesse país, não tem a responsabilidade de alertar e informar seus telespectadores sobre isso?

Eu, pessoalmente, estou boicotando Insensato Coração. Forte abraço a todos os envolvidos.

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: