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Não é estupro se for na Globo

Há alguns meses a arroba mais influente do Twitter, como Rafinha Bastos gosta de ser chamado, foi duramente criticado por fazer uma piada sobre estupro dizendo que “mulher feia quando é estuprada deveria agradecer”. Além dos ataques no Twitter, o Ministério Público decidiu investigá-lo por conta da piadinha desrespeitosa e de péssimo gosto. Nada mais justo. Estupro ou qualquer outro tipo de abuso sexual é algo nojento e criminoso. Além disso, uma “piada” como essa fere a dignidade de quem já passou por essa situação e dos seus familiares. Eu tenho um caso de estupro na família e me sinto ofendido quando vejo alguém banalizando algo tão grave.

Paralelo a tudo isso, a nova sensação do sempre engraçadíssimo e inovador Zorra Total [/ironia] conta da história de uma transexual e sua amiga feia que andam em um metrô lotado e suas desventuras cotidianas. Tudo isso em meio a um bordão que se popularizou rapidamente: Ai, como eu tô bandida!

O roteiro do quadro não muda: Janete encontra Valéria, elas comentam sobre a cirurgia de mudança de sexo de Valéria, fazem uma brincadeira de “você gosta?” – “gosto” até o infinito que irrita o telespectador e a personagem, Valéria dá meia dúzia de patadas e apelidos em Janete e, por fim, alguém abusa sexualmente de Janete no vagão lotado. Neste momento Valéria, muito debochada, diz pra amiga aproveitar o momento porque não é sempre que uma mulher como ela tem esse tipo de sorte. Ou seja, em meio a todas as claques e clichês que imperam no programa de sábado, ensinamos semanalmente que a mulher não deve reagir ou se ofender caso seja sexualmente abusada, e caso venha a sofrer um estupro, deve se sentir sortuda, pois nenhum homem gostaria de se envolver com uma mulher feia. Percebam que é exatamente a mesma piada que saiu da boca de Rafinha Bastos e foi absurdamente pisoteada. Porém na Globo sua projeção é outra, torna-se benéfico. Ignora-se o fato do desrespeito a dignidade. O pior de tudo: tal quadro alcança hoje 25 pontos no Ibope. Todo sábado a noite o mesmo roteiro ensina às mesmas pessoas que estupros e abusos sexuais são bençãos, e não devem ser denunciados.

Fica a pergunta: Qual a diferença do estupro de Rafinha Bastos e do estupro de Valéria e Janete? Nenhuma, salvo o poder de penetração da mensagem. Enquanto Rafinha atende a um público mais “elitizado” socio-culturalmente (afinal, ele é defensor do tal ‘humor inteligente’, apesar dos quilos de preconceito), o Zorra Total vai de encontro com um povo que provavelmente não teve acesso a informação e que utiliza na maioria das vezes a televisão como seu quadro negro involuntário. Os quadros subsequentes colocam a mulher como unicamente uma fêmea, um objeto sexual, ridicularizam o fato Presidência do Brasil estar nas mãos de uma mulher e passam uma hora semanal fazendo o retrógrado humor da mulher de pouca roupa, erotizando o telespectador. Esse é o mesmo programa que ensina que estupro é o novo ‘casar e ter filhos’. É um humor machista e misógino. Eu sinceramente não acho a menor graça dessa bandidagem da Valéria.

Aos que não sabem: hoje no Brasil, 43% das mulheres brasileiras sofrem violência doméstica; uma mulher é violentada a cada 12 segundos; a cada duas horas uma mulher é assassinada. E você vai continuar rindo disso?

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Qual o tamanho do Orgulho?

Hoje acontece a décima quinta Parada do Orgulho LGBT em São Paulo, um dos eventos mais lucrativos e representativos da maior cidade do país. Seria clichê demais eu colocar como tudo se tornou comercial demais e como virou muito mais um carnaval do que um manifesto político. Isso todo mundo sabe e é bastante evidente. O meu questionamento da parada é o orgulho. Não existe orgulho dentro da parada.

Acredito que os organizadores do evento estão sim engajados com a luta política e promovem o evento como maneira de protestar, pedir os direitos e exaltar a diversidade sexual. É magnifico você pensar que todo ano mais de 3 milhões de pessoas lotam a principal avenida do país por um objetivo tão nobre, expondo que o mundo vai além do que o pensamento médio pretende mostrar. Lógico que a Associação da Parada LGBT de São Paulo lucra com o evento, afinal, nada além das ervas daninhas se sustenta de luz do sol e boa vontade. Vivemos em uma sociedade capitalista e somos garotas materialistas.

A caravana passa, os carros da parada passam, as pessoas se conhecem, se beijam, as drags dublam, alguns mais empolgados fazem coisas inapropriadas para o horário e para o local, a festa suja a cidade, as pessoas saem com a sensação de dever cumprido, a noite cai e as coisas voltam ao normal. Como Cinderela o Orgulho Gay vira abóbora. O dia muda e a única evidência daquele orgulho é a ressaca e meia dúzia de telefones trocados. Grande parte se re-enfurna em seu armário e se anula por conta do preconceito. Esquecem que a primeira luta contra o preconceito é quebrar o próprio tabu. Se as mulheres não se afirmassem diariamente, ainda estariam limpando cueca suja de marido e apenas isso.

O Orgulho LGBT que a parada propõe, em verdade, não existe. Um único dia em 365 para ser gay não  significa orgulho. É apenas aproveitar uma festa. É apenas pegar um recorte da cultura LGBT. O verdadeiro significado do orgulho é não se esconder, é não se transmutar em algo que você não é no resto do ano. Orgulho de verdade é não ter medo de expôr quem você realmente é, por mais que as pessoas não gostem disso.

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