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Mas que bela bosta, hein seu Rica?!

Ontem seu Rica Perrone, que até então era um ilustre anônimo pra mim, fez uma beleza de texto que tinha tudo pra ser ótimo, se não fosse uma bosta.

Rica Perrone é jornalista, ou quase isso, e tem uma coluna na Globo.com sobre esportes. Aí, como entende tudo de esportes, bom jornalistão que é, decidiu falar sobre o caso do Volei Futuro onde o jogador (homossexual) foi ofendido em quadra. A torcida adversária ofendeu o rapaz e resolveram multar o time. Uma prática até normal hoje em dia, pra ver se a torcida consegue se comportar feito gente dentro em competições. A idéia de texto do Rica não era ruim e eu quase cheguei a defender o moço nos primeiros paragrafos. Entendi o que ele quis dizer sobre hostilidade em competições, que isso sempre existiu e sempre existirá, não importa o tanto de multa que seja aplicada. Mas quando eu percebi descaso, aí eu vi o conteúdo homofobico do texto.

Entenda que homofobia não é apenas sair metendo porrada num homossexual na rua. O ato homofóbico, até impensado do Seu Rica Perrone, foi tratar a homossexualidade como uma questão menor e, com isso, soltar umas frases bem infelizes. Primeiramente eu concordo com Rica que sempre existirá ofensa em qualquer competição. Até porque o brasileiro curte xingar e é de uma cultura machista e sempre vai ofender com coisas sexuais, menosprezando quem não faz parte do ideal de Macho-Alfa-Brasilis, vide homossexuais, prostitutas e mulheres em geral. Desde criança, quando um menino chora, vem um pra dizer que você está se comportando como um viadinho ou uma mulherzinha, como se chorar fizesse você menor e não respeitar seu falo que foi criado para guiar o resto do seu corpo rumo a um buraco vaginal opulento. Brasileiro é sexista e ponto. Tirando isso, o texto do Seu Rica vai piorando mais e mais a cada parágrafo. Recortei essas frases aqui para a gente analisar:


“Ser gay, que no meu conceito é 100% diferente de ser viado, é uma OPÇÃO SEXUAL. Viado é uma “opção pra aparecer”. Assim sendo, é opcional ser gótico, Emo, pagodeiro, roqueiro, palmeirense, flamenguista, etc. Você escolhe o que quer ser e como quer viver. E isso gera grupos que se afastam ou se aproximam de você.”

“São escolhas, e não ofendendo, não menosprezando, é tão direito seu andar de rosa quanto meu andar do outro lado da rua. Qualé?”

“Eu não sou gay, nunca destratei um gay, não sou homofobico, mas não quero ter um filho gay”

“Sejam gays. A gente aceita. Só não forcem pra ser “exemplo”. Se querem igualdade, taí. O que querem, agora, é tratamento VIP. Já nos obrigaram, com razão, a respeitar. Não tentem nos obrigar a gostar.”

Primeira dicona, Seu Rica: ninguém aqui escolheu ser gay ou optou em ser hétero. Você teve esse direiro de escolha na infância? Até onde sei, quando nascemos temos apenas o teste do pézinho. Não assinamos nenhum termo de garantia que seu pipi não entrará em nenhum popô. Bem como não preenchemos um formulário indicando nossa sexualidade futura. As coisas vão se desenvolvendo naturalmente, pois percebemos que já nascemos assim (podem parar de achar que isso aqui é Born This Way, ok?).

Segundo o Seu Rica, existe uma diferença entre ser gay e ser viado. Ser gay é gostar de outro cara e ser viado é gostar de outro cara e ser afeminado. Eu fiz um gráfico pra tentar entender como é essa questão.

Ficou claro? Gay é quem dubla Britney Spears no banheiro de casa. Viado é quem duba Britney Spears na rua.

Aí, perae, então ser gay é uma escolha, igual ser palmeirense, ou ser roqueiro. A gente acorda um belo dia, assiste um clipe da Lady Gaga e fala: porra, taí, vou começar a dar a bunda. Deve ser maneiro apanhar na rua.

Sim, Seu Rica, você, enquanto heterossexual, tem todo direito de andar do outro lado da rua quando um homossexual está passando. Até porque, sei lá, vai que esse negócio de homossexualidade passa, é contagioso. Até agora não desenvolveram nenhum remédio pra combater essa pouca vergonha. Inclusive, seguindo essa linha de pensamento, eu que sou branco, deveria atravessar a rua quando um negro passar, afinal, meu direito não dividir a calçada com um negro, né? Totalmente normal e aceitável. (contém ironia)

Nunca destratou um gay, mas não gostaria de ter um filho gay. Olha, meu querido, pra começar que você nem está preparado pra ser pai com uma linha de raciocínio. Você acha que seu pai sonhou pra você o destino de ser blogueiro? Não, né? Mas ele te ama da mesma forma. Sem contar que você falando que não gostaria de ter um filho gay é uma das piores formas de destratar um homossexual. Se você soubesse 10% do que um homossexual passa internamente para assumir pra si a sua sexualidade num mundo onde tudo coverge a heterossexualidade e você fica se sentindo um estranho no ninho, você pouparia a todos dessas palavras. E eu espero que você tenha um filho homossexual para ele te ensinar a evoluir. Mas a gente sabe como é o mundo e você vai ter um filho homossexual, anote aí. Todo pai consevador como você acaba tendo um filho gay. É uma das coisas que me faz acreditar em karma. Ele vem ao mundo pra te fazer aprender a rever seus conceitos. E acredite, essa é uma das coisas mais bonitas que você pode fazer na sua vida.

Somos gays e você não aceita. Se aceitasse, jamais faria um texto tão repleto de ódio como esse. Queremos igualdade sim, e ela não está aí. Ou melhor, existe igualdade sim: na hora de pagar impostos. Mas só até aí. Por que na hora dos direitos, pelo menos 78 são negados. Se quiser saber um pouco mais, confira seu lindo: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/07/450310.shtml

Não queremos tratamento VIP, queremos aquele tratamento que vocês tem. Queremos os mesmos direitos, assim como temos as mesmas obrigações desde sempre. Pedir que homossexuais sejam tratados com respeito é um tratamento VIP? Não, né? Se alguém da sua família for ofendido ou agredido e você pedir justiça por isso será um tratamento VIP ou será apenas o respeito que todo ser humano merece, independente de qualquer coisa? E ninguém obriga ninguém a gostar, mas estamos longe de ter respeito por aqui.

O engraçado é que há algumas semanas, num amistoso da seleção brasileira, um torcedor jogou uma banana pro Neymar por ele ser negro e todo mundo achou um absurdo. Ou seja, tratar um negro de forma ofensiva é ruim. Tratar um homossexual de maneira ofensiva é tranquilo? Porque essa diferenciação? Todos humanos, não? Todos nasceram assim e sofrem diariamente com preconceito, não? Alguém aí escolheu ser negro ou branco? Não. (salvo Michael Jackson, mas ele não está aqui pra se defender)

Então vamos parar com esses bolsonarismos de que gays querem ser superiores, porque o que rola aqui é um discurso de igualdade. Tudo que você, seu Rica, faz, eu também quero e posso fazer. A constituição prevê igualdade de direitos. Queremos apenas que isso se aplique.

Beijo

Obrigado pela atenção.

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