Posts marcados ‘bissexual’

Muito além da capa da Trip

Senhoras e senhores, esta é a capa da Trip de outubro. Um especial sobre diversidade sexual. Há uns dois meses uma amiga me falou sobre esse tema e até pediu umas sugestões de pauta e enviei. Assim que esbarrar pela revista, vou comprar. Pelos temas que vi na capa, eles fugiram do lugar comum, o que muito me agrada.

Assim que a publicação divulgou sua capa vi muita gente dizendo “nossa, que tapa na cara da sociedade, parabéns Trip” ou então “A Trip fez o que a Globo até hoje não teve coragem de fazer”. Sinceramente, acho que a Trip não deu um tapa na cara da sociedade e muito menos fez o que a Globo nunca teve coragem de fazer. A Trip deu um soco no estômago de todos os gays e fez o que poucos gays tiveram coragem de fazer. Essa edição não é só pra falar com a sociedade heteronormativa, mas pra dar uma bela voadora em tudo aquilo que a massa média LGBT anda fazendo.

O público LGBT hoje conta com duas grandes publicações: a G Magazine e a Junior. A primeira, de conteúdo majoritariamente sexista, com homens de pouca roupa ou nenhuma. Essa publicação tem 13 anos e está sempre por aí desnudando famosos e anônimos, como a Playboy faz para o mundo há anos. A Junior, com poucos anos de banca, é uma revista mais comportada, voltada a um soft porn no máximo e com o enfoque mais jovem, uma espécie de Capricho Gay. Agora pegue todas as publicações. Veja quantas das 33 capas da Junior ou das 163 da G Magazine figuraram um beijo entre dois homens. Vou economizar seu tempo na busca: nenhuma. A G Magazine até publicou um ensaio com Alexandre Frota beijando um rapaz, mas essa foto foi pro interior da revista. É bem mais rotineiro ver trigêmeos nus, ou uma “trilogia do prazer” escancarada do que um beijo como fez a Trip. A Trip não precisou apelar pro sexismo. Não precisou reforçar a ideia do homossexual promíscuo guiado pela libido. A Trip sim respeitou o homossexual. As outras publicações só chumbaram a ideia de sexo-gueto-sexo-diva-sexo-sexo-consumo-diva-sexo.

Você diz que a Trip fez o que a Globo não teve coragem de fazer, mas quantas vezes você já deu um beijo no seu namorado no meio da rua? Nada adianta cobrar uma postura da TV que você não se dispõe a mostrar a sociedade. Quantas vezes você já deu a mão pro seu namorado num restaurante ou tentou não se esconder? A televisão, hoje pelo menos, apesar de todos os chavões em seus humoristicos, coloca o gay numa posição de mínimo respeito em sua teledramaturgia. E você? Se respeita? Respeita a diversidade sexual como um todo? Ou fica com o pensamento que “bissexual não existe, é coisa de homem que não sabe o que quer” ou exclui travestis e transexuais do seu convívio? Sim, porque isso existe no meio LGBT. Então, caros amigos (opa, revista errada), que tal olharmos um pouco mais pro nosso lindo rabinho antes de jogar bosta no ventilador?

Além da beleza da foto, a Trip é corajosa e bate na cara de todos os gays por não colocar esteriótipos ou fetiches. São dois homens. Eles se beijam. E isso basta. Passa a mensagem. A Trip ensina em outubro muito mais do que dizem suas chamadas. Ensina a todo mundo se misturar a população e parar com o pensamento segregado e de coitadismo. Ser gay é um mero detalhe. Ser gay, na verdade, não significa nada. Você é bem mais que com quem você transa ou deixa de transar.

Parabéns a Trip. Parabéns pelo questionamento. Parabéns pela coragem de expor que nós homossexuais não temos a coragem necessária pra mudar tudo. Parabéns por inserir o homossexual no universo. Parabéns por esse soco na boca do meu estômago.

PS: caso algum revoltoso não tenha percebido, uma dica: eu também sou homossexual. A diferença é que não forço uma barra pra me camuflar. Tampouco acho necessário alardear com quem eu transo. Antes de ser gay, sou um monte de outras coisas legais e mais uma cacetada de coisas babacas. E todo mundo é assim. Inclusive os heterossexuais.

 

 

 

Anúncios

42 anos de orgulho

Eu não poderia deixar passar os 42 anos do Orgulho LGBT em brancas nuvens. Desde Stonewall Inn, em 28 de junho de 1969, quando a polícia invadiu o bar e massacrou um grupo de homossexuais e transgêneros, muito foi conquistado. A exemplo no Brasil temos a recente decisão do STF sobre a união homoafetiva, os milhões de cidadãos que se movem contra o preconceito em marchas e manifestações a favor da diversidade sexual em todo o país, o reconhecimento da ex-companheira de Cássia Eller como mãe de seu filho, os avanços na mídia e no debate sobre a homofobia e, obviamente, o primeiro casamento civil homoafetivo, realizado hoje no interior de São Paulo. De 1969 pra cá muita coisa mudou para melhor, apesar dos pesares, estamos remando adiante, lentamente, mas colhendo um mundo mais justo não só para nós, mas abrindo a mente e dando voz a outras minorias. Muitos podem dizer que face ao conservadorismo protagonizado por Bolsonaros, Malafaias e, agora, Myrians, não temos o que comemorar. Mas acho que eles comemoram conosco, afinal, não teriam de onde tirar verba se não fosse pela nossa luta.

Vivemos num país onde é bonito ver dois homens brigando, mas hediondo ver dois homens se amando. Existe muito o que lutar e não podemos nos anular nos outros dias do ano. O homossexual sofre preconceito diariamente e as questões afirmativas são fundamentais para um mundo mais justo. Sonho com o dia que não teremos mais a necessidade de marchas, leis e didatismos para acolher as minorias como gays, negros, mulheres e outros. Enquanto vivermos com o pé no passado, teremos medo de buscar o que é nosso por direito no presente e pior, passaremos uma guilhotina no pescoço do futuro.

Não há religião, cultura, lei, localização ou proibição que vá impedir um homossexual de existir. Não existe essa história de “ele é gay pelas influências”. Se fosse assim, todo mundo seria heterossexual, afinal, estamos numa cultura heteronormativa e, em grande maioria, os pais são heterossexuais. Ninguém escolhe ser gay, bem como não escolhe ser hétero. Não existe uma enquete em dado momento da sua vida que você escolheu com quem transar e quem amar.

Os opositores dizem que as minorias visam criar um nicho de super-cidadãos, inabaláveis e incriticáveis. É muito confortável dizer isso quando se está inserido em uma maioria dominante. A péssima notícia que eu tenho a dar é que a vida não é justa. Para ninguém. E as minorias, independente de qual estamos tratando, tem uma carga histórica que precisa ser apagada. Não podemos menosprezar que negros não tem as mesmas oportunidades que brancos, que mulheres sofrem abusos diários por homens, que algumas religiões e culturas sofreram e ainda sofrem massacres culturais e que gays não tem os mesmos direitos que heterossexuais. Para um mundo mais justo é necessário olhar com abrangência a sociedade e atender as necessidades específicas dos movimentos sociais. As feministas queimaram sutiãs e hoje têm direitos iguais. Os negros exaltaram sua cultura e se inseriram. Os homossexuais não podem se anular por conta de um falso-moralismo.

Que todo dia 28 de junho seja dia de lembrarmos aqueles que morreram, aqueles que sobreviveram, aqueles que fizeram história, aqueles que fazem a sociedade. Que todo dia a gente possa conviver pacificamente, não importando com quem eu durmo ou quem eu amo. Eu quero ser feliz e ter minha cidadania plena e quero o mesmo para todos. Eu quero igualdade e não superioridade, nem dos gays e nem dos heteros. Não podemos viver num mundo de aceitações. Aceitar é apenas dar espaço a mostrar uma superioridade falsa. Quero viver num país onde meus filhos e seus filhos possam se confundir na multidão que constrói essa nação.

 

Pensamentos sobre a reação conservadora

Contribuição de Rafael Moreira (@pelotelefone) para o Dia do Orgulho LGBT

Em meio a tanta confusão, e muita bobagem dita por Bolsonaros, Malafaias e Myrians, achei que valia a pena fazer alguns apontamentos sobre as bobagens que vem sendo ditas e repetidas, especialmente pela bancada autodenominada evangélica.


Sobre a decisão do STF

Muito tem se falado sobre a decisão, o Malafa vociferando que é inconstitucional e vem a cereja do bolo com o projeto do Deputado João Campos de um decreto legislativo que tem por objetivo sustar os efeitos da ADIn. Mas vamos por partes.
Como o direito não faz parte da educação do brasileiro (o que é uma pena e tema para outros textos), somente quem se aventurou nesse curso consegue (ou deveria conseguir) entender o alcance da decisão. A tal decisão, diga-se, unânime, se baseou no artigo primeiro da Constituição. Isto é (basta ler lá) um FUNDAMENTO da República brasileira, no caso a dignidade da pessoa humana (é redundante, mas tá escrito lá, fazer o que). Não foi com base no art. 226, que trata da família. Assim, o STF, a quem cabe defender a Constituição, entendeu que não é possível que um Estado que defenda a dignidade negar direito aos casais homoafetivos. Em outras palavras, é uma decorrência direta dos valores de base do país reconhecer que cidadãos homossexuais são tão cidadãos quanto os demais. Parece óbvio, e realmente é, mas os ranços de preconceito forçaram a tal ADIn.
Aí me vem um tal Deputado João Campos que, segundo consta, é delegado de polícia e bacharel em Direito (assim diz ele) e apresenta um projeto de decreto legislativo para sustar os efeitos da decisão do STF. Bom, acho que ele ficou na constituição de 1967 e não leu a de 1988. Isso porque o art. 56 da Constituição, que prevê o decreto legislativo, fala que ele poderá ser usado para sustar efeitos de atos normativos do Poder Executivo, não fala nada de Judiciário. Antes, os artigos 100 e 101 deixam bem claro que a palavra do STF é final e não é contestável ou anulável pelos outros poderes. O STF é sim nosso órgão máximo.
Ou seja: o tal projeto do Deputado João Campos NÃO EXISTE JURIDICAMENTE. O máximo que poderia acontecer, num caso raríssimo de surto coletivo, é o próprio STF declarar o ato inexistente (o que até seria lindo).
Além disso, como a decisão foi com base no art. 1º, nenhum projeto, mesmo que de emenda à Constituição, poderá mudar seus efeitos, pois a dignidade humana não pode ser riscada da Constituição.
Portanto, a não ser que os ditos evangélicos resolvam dar um golpe de Estado, pode correr e oficializar no cartório a sua união porque ela vai valer, por mais que o Malafaia não queira (talvez eu não devesse ter dado a idéia do golpe).
E esse post ta muito grande e eu só comecei. Mal de advogado, tenham paciência.

Sobre o PL 122
Aí começa mais um festival de bobagem, que chega a dar aflição a qualquer pessoa alfabetizada e que seja capaz de um mínimo de raciocínio abstrato. Não vou nem perder meu tempo (e o seu, querido leitor) sobre a óbvia constitucionalidade do projeto. Vou me remeter apenas a uma questão e deixar a conclusão pra vocês: A lei vigente, que ficou conhecida como Lei do Racismo (Lei 7.71/89) mas pode ser melhor chamada de lei contra a discriminação, prevê as seguintes condutas como crime:

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”
Acompanhe comigo: uma das condutas criminosas é induzir ou incitar a discriminação ou preconceito contra RELIGIÃO. Olha, quem conhece um evangélico, um pastor ou já perdeu seu tempo ligando a TV nas madrugadas da televisão sabe muito bem que um dos esportes preferidos dos pastores evangélicos é divulgar os males das religiões espíritas ou de origem africanas, agregando todas sob a estigmatizada alcunha de macumba (que são também minorias religiosas). E mais, não sou poucos aqueles que incitam a chamada “guerra espiritual” contra pais de santo. E, no entanto, eu nunca vi nem ouvi que um pastor sequer tenha sido denunciado por incitar a discriminação contra o candomblé, por exemplo. Ninguém tem dúvidas de que isso diz respeito à profissão de fé deles.
Então, eu não consigo entender o medo que está sendo propagado pelas lideranças evangélicas que eles serão perseguidos (mentira que entendo sim, mas vamos fingir que não). Se ainda levarmos em conta que a recente emenda incluída no projeto pela Marta Suplicy, realmente não há como entender que dizer que ser gay é pecado viraria crime. Sabendo que provavelmente nem o Malafa leu o projeto, tirem suas conclusões.

Notinha sobre a Myrian
Bom, e o assunto da vez é a Myrian Rios que abriu o esgoto e saiu falando todo tipo de bobagem no plenário da Assembléia do Rio. Acho até engraçado, Myrian defendendo o direito de discriminar. Saibam que a babá lésbica dela poderia entrar com uma ação de dados morais na Justiça do Trabalho, onde conseguiria até a reintegração no emprego, tendo em vista que sua demissão foi motivada por discriminação.

Enfim, gente, votem melhor, por favor. É muita perda de tempo com gente burra.
(e procurem as leis no site do Planalto ou do Senado)

Eu penso e fico paranóico

Contribuição do Abel Be para o Dia do Orgulho LGBT

Eu penso e fico paranóico. Então, sou gay? Pergunta sem remetente, hermética. Ninguém podia pensar, imaginar, sonhar… muito menos me ouvir. Responder já seria recibo de “viado”. Mas, os outros sabiam, eu sabia. Falavam que eu era “bichinha”, “gay”, enfim, crianças sabem ser cruéis, adultos também.

Hoje, 28 de junho, é dia do orgulho LGBT. Pergunto quantos, quantas, ainda não podem se orgulhar por medo, vergonha, próprio preconceito. Essa dicotomia “Orgulho X Armário” pauta a vida de homossexuais, ou pautou, com raras exceções, cada vez mais comuns, mas ainda assim escassas.

Neste contexto, celebrar a homoafetividade não é só para gays, mas para todo que pretendem construir uma sociedade melhor. Ou alguém defende que algum ser humano deva ocupar um lugar exótico eterno, como atração em um circo de horrores ininterrupto? Isso não é um projeto de vida, muito menos de felicidade. Tal posição é a ocupada por gays, já foi pior. Mudar o imaginário social não é simples, é um desafio. Não trata-se de um artifício retórico, é desafio mesmo, cravado.

Sem maiores digressões, ao longo da história gays serviram ao gozo do outro, tendo de se submeter ao sadismo alheio, fetichizado, enquanto alvos preferenciais e constantes de ódio. Emerge a questão: por quê? Arrisco afirmar que essa destrutividade só interessa ao recalque de quem não aceita a própria homossexualidade e precisa xingar, humilhar, diminuir, praticamente aniquilar o que nega em si mesmo.

Há um medo enorme em não ser aceito por fugir a norma, por ser diferente, medo esse não extirpado após tantas revoluções sociais. A questão, então, é subjetiva? Em parte sim. No entanto, se você tem problemas íntimos esta autorizado a cometer crimes em nome deles? A transgredir pactos sociais? Não, não esta. Esse é o ponto: gays foram vistos como criminosos, como transgressores dos acordos, códigos, interditos sociais vigentes de modo tão radical que lhes coube todo tipo de sanção. Afinal, ousaram fazer algo vetado a todos. Que tipo de pessoas especiais são essas? Que tipo de pessoas? O pior tipo, claro. Bem, fica fácil entender de onde parte a comparação com pedófilos, promíscuos, desonestos em geral etc A aliança entre o recalque, a culpa e o medo em aceitar a vontade de fazer o que esses seres desviantes também fazem é perturbadora, não era de se esperar que não fosse.

Quem não ficaria paranóico descobrindo-se gay diante disso?

Romper este ciclo é um desafio por conta dessa complicação toda, pois não se trata de algo consciente, controlável. É antes de tudo inconsciente. O Orgulho LGBT, portanto, é necessário. É um grito que rompe com essa visão deturpada que iguala gays a humanos torpes, no mesmo nível dos vilões de qualquer filme de terror. Parece bobagem, mas ouça os discursos homofóbicos: são discursos de medo, desespero. Não estou, é bom esclarecer, defendendo ou sendo condescendente com homofobia, mas alguém dúvida que esse preconceito seja medo de se ver em uma bela manhã gay? Surpreendido por um desejo incontrolável de não ser mais hetéro? Pois é.

O Orgulho LGBT é a luta pelo reconhecimento social, sem o qual não há respaldo para nenhum sujeito. Sem o qual gays serão sempre destinados ao exílio, ao circo de horrores ou a destruição pura e simples. Esse dia é por um mundo em que gays se descobrem gays como possibilidade e não como maldição. É, sobretudo, tanto para gays, heteros, quanto bi, ou o que for, um dia para viver sem medo. A sociedade não irá ruir se incluir a homoafetividade, não somos criminosos e sim gente.

Pequeno manual de verbetes LGBT para você jornalista lindo nunca mais falar O TRANSEXUAL ROBERTA CLOSE.

Olá lindas e lindos, hoje vou ensinar em poucas lições como redigir um texto sem ofender a comunidade LGBT e explicar o porque do uso destes termos. O objetivo desse post não é, em absoluto, ofender a classe jornalistica, mas elucidar algumas questões que ficam pendentes sobre os termos a serem utilizados. Assim como negros, judeus, mulheres e outras minorias pedem alterações de alguns termos para se sentirem contemplados (e hoje muitos deles foram aderidos), com o debate sobre os direitos LGBTs em polvorosa achei interessante pôr em pratos limpos algumas expressões para que nossos textos sejam mais coerentes com todos.

ORIENTAÇÃO SEXUAL, POR FAVOR.

Lindos, nunca usem o termo “opção sexual“. Ofende profundamente o movimento LGBT. Uma vez que não fazemos escolhas sobre nosso desejo sexual (ou alguém se lembra quando escolheu ser hetero?), o termo “opção” torna-se pejorativo quando falamos sobre lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. O termo correto para falar sobre sexualidade é “orientação sexual”, uma vez que desejo sexual nos orienta a essa ou aquela forma.

LGBT IS THE NEW GLS

Algumas pessoas ainda usam o termo “GLS”, datado da década de 70, quando não existia um questionamento mais profundo sobre os direitos homoafetivos. O termo LGBT contempla lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Outros preferem utilizar LGBTT para dar voz a travestis e transexuais separadamente e não @s aglomerando num grupo “transgênero”. A ordem L-G-B-T é em respeito ao movimento feminista, uma das bases do movimento LGBT, portanto, além de homenagear as mulheres que lutaram pelos seus direitos, a sigla L vem a frente por questões de visibilidade lésbica. E lembre-se: GLS pode ser usada apenas para fins comerciais, como lojas, hotéis, boates, bares e clubes chamados “gay friendly”. Em geral o termo tem caído em desuso, mas sua conotação hoje é muito mais comercial do que política.

HOMOSSEXUALIDADE SIM, HOMOSSEXUALISMO NUNCA.

Judeus lutaram por muito tempo para o desuso da palavra “judiar”, que era algo que tornava ofensivo para os praticantes de tal religião. O mesmo se aplica a expressão “homossexualismo”, que remete coisas terríveis aos LGBTs. O termo “homossexualismo” foi criado durante o nazismo para denotar que o comportamento pederasta era uma doença. Em 1990, quando a OMS retirou a homoafetividade do seu catálogo de doenças, entendendo que é uma expressão da sexualidade, passou-se a usar o termo “homossexualidade”, uma vez que todo ser humano tem uma sexualidade, sendo ela homo, hetero, bi, pan ou assexuada. Então, em respeito a todos os homossexuais que sofreram por conta do nazismo, abortou-se o sufixo “ismo” e adotou-se “homossexualidade”, ou “homoafetividade”, ou em outros casos, “homoerótico”.

TRAVESTIS E TRANSEXUAIS NÃO SÃO HOMOSSEXUAIS

Essa parte parece complicada, mas não é. A sexualidade humana não é dada pelo sexo biológico (aquele que você nasceu), mas pela identidade de gênero (como você se identifica sexualmente). Ou seja, se você nasceu homem, se identifica como homem e tem atração por mulheres, você é heterossexual. Se você é mulher, se identifica como mulher, mas sente atração sexual por outras mulheres, você é homossexual. No caso de uma travesti que nasceu homem, mas se identifica como mulher e tem atração por homens ela é considerada heterossexual. Como a identificação dela é feminina, então ela é hetero. Inclusive se você conversar com muitas travestis, elas não se identificam como gays, simplesmente por que não são. São mulheres que nasceram em corpos masculinos. Porém, se a travesti (nascida homem e com identidade de gênero feminina) se envolve afetivo/sexualmente com outra travesti ou uma mulher, aí sim ela é homossexual. Pode parecer impossível, mas sim, existem travestis e transexuais homossexuais.

O TRAVESTI E A TRAVESTI SÃO BEM DIFERENTES

Um ponto que fere profundamente o movimento transgenero é a questão do recorte de gênero, como elas e eles são tratad@s. Bem, se é uma travesti/transexual MTF (male to female, ou seja, nasceu homem e identifica-se como mulher), sempre a trataremos no feminino. A travesti Luisa Marilac, por exemplo. Ou a transexual Ariadna Arantes (para citar as mais recentes). Utilizamos o gênero masculino em casos de transgeneros FTM (female to male, tão logo, mulheres que se identificam como homens), como por exemplo o filho da cantora Cher. Por uma questão, primeiramente, de respeito, devemos utilizar o tratamento correto. É agressivo demais a uma travesti ser chamada pelo nome de registro e ser tratada o tempo todo no masculino. Causa constrangimento e tristeza.

HERMAFRODITAS NÃO EXISTEM

Muita gente exemplifica Roberta Close como hermafrodita. Péssima notícia: não existem hermafroditas na espécie humana. Para um animal ser considerado hermafrodita deve ter em sua estrutura tanto o sistema reprodutivo feminino quanto masculino. Exemplo disso são as minhocas. O mesmo se aplicaria a espécie humana. Até hoje não foi registrado nenhum caso parecido na literatura médica. O que existe em nossa espécie é a “intersexualidade”, ou seja, pessoas que nascem com os dois sexos, mas sem a capacidade reprodutiva de ambos. Normalmente são crianças com um micro-pênis e uma vulva formada. Porém não podemos determinar na hora do parto se é evidentemente um homem ou uma mulher, e registra-se a criança com um dos dois sexos e num futuro descobre-se, como no caso de Roberta Close, que houve um erro. A estrutura física, psicológica e emocional é toda voltada pro feminino e seu registo é masculino. Além disso, o micro-pênis (que em muitas vezes não é capaz de ficar ereto, devido aos hormonios femininos) incomoda profundamente a intersexual.

TRAVESTI É UMA COISA, TRANSEXUAL É OUTRA

Travestis e transexuais são diferentes. Travestis e transexuais têm em comum a inversão de identidade de gênero (sentem-se como o sexo oposto), mas apenas as transexuais tem ojeriza ao próprio órgão genital ou sofrem do distúrbio de identidade de gênero. Em geral as transexuais tem um processo de aceitação interna muito mais doloroso e para isso enfrentam todo o processo da mudança de sexo. As transexuais podem realizar a vaginoplastia para acabar com o pesadelo do corpo errado, enquanto as travestis não sentem-se incomodadas com o sexo que nasceram. Por conta dos problemas de aceitação, muitas transexuais cometem suicídio por se sentirem aprisionadas num corpo que não as pertence. A cirurgia de mudança de sexo feminino para masculino ainda é bastante experimental e de efeito meramente estético, enquanto a transexualização masculina para feminina é um procedimento relativamente comum e mantém estrutura complexa para que a transexual tenha prazer em suas relações futuras. Como qualquer outra cirurgia podem haver falhas e a operada não sentir mais prazer com a penetração, mas não é uma regra. Muitas transexuais sentem muito mais prazer após a cirurgia.

A PALAVRA É: HOMOFOBIA

A palavra está na moda, mas muita gente não sabe exatamente o que significa. Identifica-se como homofobia o tratamento hostil, agressivo, chulo, discriminatório, preconceituoso, antipático e/ou aversivo a homossexuais, bissexuais e transgêneros (esses, em alguns casos, pedindo o uso do termo transfobia, por não se sentirem contempladas no termo homofobia, como expliquei lá em cima sobre a identidade de gênero trans). Em suma, é o mesmo que o racismo, porém com LGBTs. Por isso o apelo ao fim da homofobia no Brasil e a aprovação de leis, como aquelas criadas em prol dos negros, para criminalização da homofobia. No Brasil a cada dois dias um homossexual é assassinado. Segundo levantamento feito em abril de 2011, 60% das empresas não gostariam de ter funcionários homossexuais em seu quadro. Em escolas de todo o país, mais da metade dos alunos dizem-se não ser favoravel a homossexuais e transgêneros dentro de salas de aulas. No Brasil mais de 90% dos transgêneros evadem das escolas por conta da transfobia. A homofobia, assim como o racismo, é uma forma de bullying ainda muito recorrente no Brasil. Não é considerado homofobia a pregação religiosa sobre a homossexualidade que algumas religiões praticam, porém, caso o discurso tenha cunho agressivo e incitação a violência, pode-se considerar homofobia. O projeto de lei complementar que criminaliza a homofobia no Brasil (PL 122), prevê que agressores de homossexuais poderão ser presos com penas de até 5 anos. O mesmo projeto de lei, revisitado recentemente, deixa bem claro que a liberdade religiosa não poderá ser afetada mediante tal projeto de lei.

Espero ter contribuído com todos para revisões e esclarecimentos. Acredito que muitos redatores e jornalistas usam os termos errados não por preconceito, mas por pura falta de conhecimento no assunto. Não é má vontade. É pura desorganização do movimento LGBT em deixar claras as questões que nos atingem. Qualquer dúvida, podem deixar comentários que vou atualizando o post. 🙂

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: