Arquivo para outubro, 2011

E você? Que tal ir se tratar?

Todo mundo já sabe que Lula tem um tumor. A grande mobilização para que Luiz Inácio trate de sua doença no SUS tomou conta da internet no fim de semana. Eu concordo! Acho que Lula deveria se tratar no SUS. Mas a escolha é dele e de sua família. Onde ele vai se tratar não me compete. Mas acho que o ideal mesmo seria Lula se tratar no SUS. Afinal, não é qualquer rede de saúde que tem 98% de aprovação, como o Instituno Nacional do Câncer. Seria uma excelente oportunidade de ver Lula bem muito em breve. 80% dos casos de câncer no Brasil são tratados pelo INCA, que, para os bem informados, é integrante do Sistema Único de Saúde.

O que eu não aguento é ver gente pseudo-politizada repetindo um mantra de “morra logo” ou “castigo divino” sem um pingo de senso crítico. Como se não fosse impactante e doloroso o bastante uma pessoa ter um tumor, ainda ter que se deparar com a pior face do comportamento humano é no mínimo para se perder a fé nas pessoas.

Vocês se julgam os mais politizados do mundo ao ordenarem Lula buscar a cura pro seu tumor no SUS. E o argumento é tão e somente esse. Não existe desenvolvimento. Pois bem, alguém me explica qual o motivo de não terem feito o mesmo quando Itamar Franco, ex-Presidente do Brasil tal qual Lula, não ter recebido o mesmo ‘manifesto’; ou Ruth Cardoso, ex-primeira dama do Brasil; não ter sofrido o mesmo tratamento antes de morrer? Ainda temos o exemplo de José Alencar, que era vice-presidente enquanto tratou de um câncer por anos.

A questão é: se Lula se tratar numa rede particular será criticado por “não acreditar no SUS”. Caso ele resolva seguir o conselho de vocês, será criticado porque “tem dinheiro, poderia muito bem se tratar num hospital particular e não tirar a vaga de um pobre”. Por um acaso vocês esquecem que Lula já foi bem mais pobre que qualquer um de vocês que hoje (em boa parte, graças a ele) podem fazer essa piadinha maquiada de manifesto?

Sou eleitor de Lula. Tenho muito orgulho de ter feito um operário nosso Presidente. E o melhor presidente que esse país já viu. E por duas vezes. Justamente por isso, tenho criticas severas ao seu governo. Mas o momento não é de pisar na dor de alguém por ambições políticas e joguetes de interesse. Acho uma imbecilidade retumbante utilizar disso como muleta política. Ainda mais para quem acha que sabedoria política é meramente trocar avatar no Facebook e dar “Sim, eu vou” em eventos como ‘manifesto virtual contra sei lá o que’.

E no fim disso tudo, eu tenho certeza que esse tumor do Lula vai ser só uma marolinha pra aquele que, num país que não tem sistema efetivamente público de saúde, foi chamado de “o cara”.

 

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Merdas não se anulam. Apenas acumulam.

Relutei bastante pra falar sobre o caso Rafinha x Wanessa porque acho uma palhaçada tão grande que bateu uma preguiça absurda. Rafinha é um tiozão que faz piada sem graça, se orgulha de ofender, mas não tem culhão pra aguentar as consequências. Wanessa é casada com um homem rico, está grávida e, por conta disso, vai ficar um tempo de molho e precisa garantir seu nome na mídia com um CD recém-lançado (após muito adiamento). Rafinha manda umas entrevistas “polêmicas”, uns vídeos com seu eterno humor ruim, Wanessa abre um processo em nome do seu feto e daqui a pouco vai parir e sorrir na capa da Caras. Resumo da obra: são duas Attention Whores querendo mais cinco minutos de holofote. Próximo, por favor!

Sinceramente, eu comeria Rafinha Bastos e Wanessa. Com batatas. O bebê eu deixaria pra lá, afinal, ele pode me processar. Mas Rafinha e Wanessa? Ah! Comeria mesmo! Só pra não ter mais que digerir aos poucos essa história. Teria no máximo uma indigestão, tomaria meu Eno e vamos lavar a louça, porque isso sim está em falta no Brasil. Mas como o canibalismo é considerado um crime, e acredito que ambos não sejam tão saborosos quanto minha atual dieta de poucas calorias, vamos deixar os dois se esbofeteando. Vamos ao assunto que me trouxe aqui: a transformação de um babaca em mártir por julgarem seu crime ser menor.

Está rodando uma corrente, num desses “eventos políticos” do Facebook (até quando?), pelos RTs do Twitter e as imagens rebloggadas do Tumblr um manifesto muito coerente [/ironia] dizendo que o Brasil é o país onde “os humoristas são levados a sério e os políticos na palhaçada”, e sugerindo que os usuários dessas redes troquem seus avatares por fotos do Rafinha Bastos como um manifesto a censura do Brasil e contra a corrupção. Eu não sei por onde começar a vergonha que sinto ao ver isso. A imagem mote da campanha expõe Rafinha Bastos como mártir e José Sarney como vilão nacional e contemporizando: por que Sarney e Maluf estão soltos enquanto as pessoas correm atrás do pobre Rafinha Bastos, pobre coitado, com tochas? Olha, uma coisa não anula a outra. Sarney e Maluf são criminosos? Sim. Rafinha Bastos é criminoso? Também. Não é porque uma pessoa fez uma cagada que a outra passa impunemente. Cada um paga por aquilo que fez. Esse discurso de “enquanto tem tanto bandido solto por ai e vocês querendo processar fulano” é tão eloquente quanto “vocês falam sobre direitos humanos enquanto tem tanta criança passando fome”.  Um problema não anula o outro, eles se acumulam. E devemos debater todos. Não é porque eu estou falando sobre determinado assunto que eu vou tentar inserir outra questão no meio. Isso seria oportunismo (além de um bocado de DDA).

Se os políticos do Brasil são levados na brincadeira, a culpa e é única e exclusiva de quem os elege, no caso, você. O mesmo cara que acha engraçado Rafinha Bastos dizer que “mulher estuprada deveria agradecer ao estuprador, pq ele está fazendo um favor” é o que vota em Tiririca como “voto de protesto” e depois reclama que a política nacional está num cenário insustentável. Não que eu ache Tiririca a pior coisa que já apareceu nesse país. Foi eleito democraticamente, não está fazendo um mandato ruim (por enquanto) e temos coisas bem piores infiltradas em Brasília, como Jair Bolsonaro, por exemplo. Tão logo, se você é um revoltadinho com a política nacional, faça por onde: vote direito.

“Ah, mas o humor não pode ter censura”. Concordo. Bem na verdade, nada pode sofrer censura. Um Estado democrático não se faz calando. Porém, é necessário se fazer entender que certas “brincadeiras” ferem a dignidade do outro. Você acha bacana chamar uma criança com Síndrome de Down de “retardada”, “imbecil” e/ou “mongolóide”? Ou ainda é cabível chamar um negro de “macaco”? Isso é censura? Não. É ter noção de que por mais que você esteja brincando, você carrega nessa brincadeira uma carga histórica que fere a vida do outro e não a faz por respeito. É difícil entender que da mesma forma que um negro se sente ofendido por ser chamado de “macaco”, um homossexual vai se ofender se for chamado de “veado” e por aí vai toda a mistura de fauna e minorias que existem com o único objetivo de minimizar o ser humano?

Que tal pensar por outro foco: parar de dar importância a esse quiprocó em busca de popularidade entre Wanessa e Rafinha e começar a se importar com a política, parando com o velho discurso brasileiro orgulhoso do “ah, eu odeio política, acho que ninguém presta, nem gosto de conversar sobre isso”, como se fosse algo bom e louvável. Os que não gostam de política, são governados pelos que gostam, já disse bem Platão. Vamos parar de alimentar esses monstrinhos como Sarneys, Malufs, Rafinhas e Wanessas. Ou melhor, não vamos não. Afinal, todo mundo precisa alguém pra ser odiado. Inclusive eu, que odeio todos vocês que requentam futrica como se fosse notícia.

Muito além da capa da Trip

Senhoras e senhores, esta é a capa da Trip de outubro. Um especial sobre diversidade sexual. Há uns dois meses uma amiga me falou sobre esse tema e até pediu umas sugestões de pauta e enviei. Assim que esbarrar pela revista, vou comprar. Pelos temas que vi na capa, eles fugiram do lugar comum, o que muito me agrada.

Assim que a publicação divulgou sua capa vi muita gente dizendo “nossa, que tapa na cara da sociedade, parabéns Trip” ou então “A Trip fez o que a Globo até hoje não teve coragem de fazer”. Sinceramente, acho que a Trip não deu um tapa na cara da sociedade e muito menos fez o que a Globo nunca teve coragem de fazer. A Trip deu um soco no estômago de todos os gays e fez o que poucos gays tiveram coragem de fazer. Essa edição não é só pra falar com a sociedade heteronormativa, mas pra dar uma bela voadora em tudo aquilo que a massa média LGBT anda fazendo.

O público LGBT hoje conta com duas grandes publicações: a G Magazine e a Junior. A primeira, de conteúdo majoritariamente sexista, com homens de pouca roupa ou nenhuma. Essa publicação tem 13 anos e está sempre por aí desnudando famosos e anônimos, como a Playboy faz para o mundo há anos. A Junior, com poucos anos de banca, é uma revista mais comportada, voltada a um soft porn no máximo e com o enfoque mais jovem, uma espécie de Capricho Gay. Agora pegue todas as publicações. Veja quantas das 33 capas da Junior ou das 163 da G Magazine figuraram um beijo entre dois homens. Vou economizar seu tempo na busca: nenhuma. A G Magazine até publicou um ensaio com Alexandre Frota beijando um rapaz, mas essa foto foi pro interior da revista. É bem mais rotineiro ver trigêmeos nus, ou uma “trilogia do prazer” escancarada do que um beijo como fez a Trip. A Trip não precisou apelar pro sexismo. Não precisou reforçar a ideia do homossexual promíscuo guiado pela libido. A Trip sim respeitou o homossexual. As outras publicações só chumbaram a ideia de sexo-gueto-sexo-diva-sexo-sexo-consumo-diva-sexo.

Você diz que a Trip fez o que a Globo não teve coragem de fazer, mas quantas vezes você já deu um beijo no seu namorado no meio da rua? Nada adianta cobrar uma postura da TV que você não se dispõe a mostrar a sociedade. Quantas vezes você já deu a mão pro seu namorado num restaurante ou tentou não se esconder? A televisão, hoje pelo menos, apesar de todos os chavões em seus humoristicos, coloca o gay numa posição de mínimo respeito em sua teledramaturgia. E você? Se respeita? Respeita a diversidade sexual como um todo? Ou fica com o pensamento que “bissexual não existe, é coisa de homem que não sabe o que quer” ou exclui travestis e transexuais do seu convívio? Sim, porque isso existe no meio LGBT. Então, caros amigos (opa, revista errada), que tal olharmos um pouco mais pro nosso lindo rabinho antes de jogar bosta no ventilador?

Além da beleza da foto, a Trip é corajosa e bate na cara de todos os gays por não colocar esteriótipos ou fetiches. São dois homens. Eles se beijam. E isso basta. Passa a mensagem. A Trip ensina em outubro muito mais do que dizem suas chamadas. Ensina a todo mundo se misturar a população e parar com o pensamento segregado e de coitadismo. Ser gay é um mero detalhe. Ser gay, na verdade, não significa nada. Você é bem mais que com quem você transa ou deixa de transar.

Parabéns a Trip. Parabéns pelo questionamento. Parabéns pela coragem de expor que nós homossexuais não temos a coragem necessária pra mudar tudo. Parabéns por inserir o homossexual no universo. Parabéns por esse soco na boca do meu estômago.

PS: caso algum revoltoso não tenha percebido, uma dica: eu também sou homossexual. A diferença é que não forço uma barra pra me camuflar. Tampouco acho necessário alardear com quem eu transo. Antes de ser gay, sou um monte de outras coisas legais e mais uma cacetada de coisas babacas. E todo mundo é assim. Inclusive os heterossexuais.

 

 

 

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