Hoje acontece a décima quinta Parada do Orgulho LGBT em São Paulo, um dos eventos mais lucrativos e representativos da maior cidade do país. Seria clichê demais eu colocar como tudo se tornou comercial demais e como virou muito mais um carnaval do que um manifesto político. Isso todo mundo sabe e é bastante evidente. O meu questionamento da parada é o orgulho. Não existe orgulho dentro da parada.

Acredito que os organizadores do evento estão sim engajados com a luta política e promovem o evento como maneira de protestar, pedir os direitos e exaltar a diversidade sexual. É magnifico você pensar que todo ano mais de 3 milhões de pessoas lotam a principal avenida do país por um objetivo tão nobre, expondo que o mundo vai além do que o pensamento médio pretende mostrar. Lógico que a Associação da Parada LGBT de São Paulo lucra com o evento, afinal, nada além das ervas daninhas se sustenta de luz do sol e boa vontade. Vivemos em uma sociedade capitalista e somos garotas materialistas.

A caravana passa, os carros da parada passam, as pessoas se conhecem, se beijam, as drags dublam, alguns mais empolgados fazem coisas inapropriadas para o horário e para o local, a festa suja a cidade, as pessoas saem com a sensação de dever cumprido, a noite cai e as coisas voltam ao normal. Como Cinderela o Orgulho Gay vira abóbora. O dia muda e a única evidência daquele orgulho é a ressaca e meia dúzia de telefones trocados. Grande parte se re-enfurna em seu armário e se anula por conta do preconceito. Esquecem que a primeira luta contra o preconceito é quebrar o próprio tabu. Se as mulheres não se afirmassem diariamente, ainda estariam limpando cueca suja de marido e apenas isso.

O Orgulho LGBT que a parada propõe, em verdade, não existe. Um único dia em 365 para ser gay não  significa orgulho. É apenas aproveitar uma festa. É apenas pegar um recorte da cultura LGBT. O verdadeiro significado do orgulho é não se esconder, é não se transmutar em algo que você não é no resto do ano. Orgulho de verdade é não ter medo de expôr quem você realmente é, por mais que as pessoas não gostem disso.

Anúncios

Comentários em: "Qual o tamanho do Orgulho?" (4)

  1. João, riquíssimo texto… você critica o evento com muita propriedade e estou de total acordo com o que aqui foi colocado. Gostei do blog e espero voltar outras vezes. Abração!!!

  2. ronney argolo disse:

    acho seu blog bem legal. nunca comentei antes porque não tinha muito o que acrescentar a seus argumentos, elegantes e bem construídos. mas agora acho que tenho e minha primeira participação, ironicamente, será para discordar. primeiro, também acredito que mostrar o orgulho é um exercício diário. mas a parada, ao meu ver, não impede isso. pelo contrário, coloca uma lente de aumento. é uma oportunidade de levar este exercício a amplidão, de ecoar o grito de igualdade em milhões de bocas, corpos e cartazes ao mesmo tempo. de fazer barulho, de existir para a sociedade em todo o Brasil, talvez mundo, porque a mídia cobre isso e dissemina. outro ponto: não sei se a maioria das pessoas que vai para a parada volta e se tranca em armários. afinal, é um evento onde os jornais registram imagens e as divulgam ao infinito. ir para lá é dar a cara a tapa. mas, mesmo que todos voltem ao anonimato depois do evento, acho que isso não tira o mérito dele. apenas o faz mais necessário. quem não se sente forte para lutar sozinho se revigora quando vê seus iguais, não? também não acredito que os contornos de carnaval que a parada ganhou corroeram o manifesto político. as pessoas protestam como sabem, com as cores que têm. beijar e abraçar em público é um ato político. mostrar o rosto e dizer “eu sou gay, eu existo, eu quero direitos” é um ato político. exige coragem, não sisudez. não é preciso fechar a cara e sair de preto. se nossa manifestação é em prol das diferenças, acho natural que a parada faça política de um jeito diferente – o que não a desmerece.

  3. Seu blog já tá nos favoritos! Excelente! 🙂

  4. Weverton henrique da Silva disse:

    João, vc acertou em cheio.A parada gay apenas joga água no moinho do conservadorismo. Acredito que diante do modo de produção que rege a nossa sociedade, esse evento apenas contribui para que os grandes segmentos capitalistas lucrem em cima de um assunto tão sério. Na minha opinião, a parada gay consegue chocar muito bem com a moral burguesa e seus costumes. Mas o que na verdade precisa ser feito é chocar politicamente. Não sou contra a manifestação, sou a favor da pluralidade. Ainda acredito que há pessoas sérias por trás desse movimento. Portanto, é preciso uma ação política que consiga romper com os padrões de hegemonia da classe dominante que estão postos diante de nós. Sou a favor dos movimentos que militam por um país melhor. Sendo assim, apoio o movimento GLBT mas desde que haja uma articulação que vise brigar por direitos políticos e sociais e ainda consiga romper com o padrão burguês de pensar a sociedade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: