Gay Supernova

Eu tinha 9 anos. Me sentia o menino mais legal do mundo por poder ir pra escola sozinho.Minha mãe me ensinou como se pegava ônibus e desde então gostava de pensar que eu era totalmente independente. Num desses dias, atravessando a rua, vi uma cena que me chocou demais. Absurdamente. Era um homem. Ponto. Apenas um homem. Mas eu, com nove anos, tinha achado-0 interessante. Aquilo foi o que me chocou. Eu, com nove anos, me sentindo atraído por um outro homem. Assim como muitos moleques da minha idade babavam pela Luma de Oliveira, eu senti o mesmo ao ver aquele cara passando de carro. Foram segundos, mas fiquei o dia inteiro me martirizando por aquilo.  Comecei a pensar “ah, que isso, tá errado, eu sou menino. Não posso nem achar um homem bonito. Isso é errado!”. E aquele sentimento do erro ficou me martelando por anos. Por mais que eu tivesse absoluta certeza que me interessava bem mais por homens do que por mulheres, eu tinha em mente que aquilo era errado e que ninguém gostaria de mim daquele jeito. Não sabia porque, mas sabia que era assim que o mundo funcionava.

No ano seguinte conheci Alex, meu novo professor de natação. Ele era lindo. Minha mãe babava por ele e lembro que minha tia fazia questão de me acompanhar até o clube só para ver Alex de sunga na beira da piscina. E lembro da primeira vez que ele entrou no vestiário e foi tomar banho e se vestir para sair do clube. Pela primeira vez eu vi um homem nu e eu ficava intrigado porque gostava tanto de olhar para aquele corpo. Eu tinha 10 anos, gente! Por mais proibido que fosse, eu gostava de olhar aquilo, mas lutava contra. Me reprimia por conta daquilo.

Com doze anos as boybands estouravam no país e lembro que minhas amigas (sempre me dei melhor com elas) gostavam de alguns modelos e cantores da época e eu me segurava para não mostrar meu interesse nas fotos que elas colecionavam. Me punia severamente por isso. Não por me controlar, mas por gostar de ver aquilo. O tempo passou e todos os meus amigos de escola, em seus 15 anos, gostavam de pegar as menininhas e eu ficava bem no meu canto, estudando, sem muito contato. Até que eu era bastante popular no colégio, agora público, mas não me agradava a ideia de beijar uma menina. Eu não sentia nada com relação a elas, então não existia razão para isso. Lembro que um amigo, ao saber que eu era totalmente virgem, falou que eu deveria ser “frígido”, por que não sentia atração sexual por absolutamente ninguém. Na verdade, eu gostava de um menino da turma, achava lindo, mas nunca ia contar isso pra ninguém. Não ia querer ir para o nimbo social. Contive minha vida, novamente.

Fui criado num lar de valores cristãos, família evangélica e muito bem estruturada, obrigado. Nunca vi meus pais brigarem e eu seria injusto caso dissesse que algo me faltou em termos de afeto durante a infância. Tive pai e mãe bem presentes. Sou o filho mais velho, nunca fui mimado, meus pais são casados até hoje e vários outros fatores que sempre culpam a homossexualidade eu nunca tive. Nunca passei por experiências sexuais frustradas e nunca, graças a Deus, sofri qualquer abuso. Não via, pela educação forçada à sociedade heteronormativa, uma justificativa para meu interesse por garotos. Aos 16 anos, quando todos os meus amigos de escola contavam suas experiências sexuais, eu preferia mentir sobre minha vida do que experimentar aquilo que eu sabia que realmente desejava. Na mesma época conheci um cara e decidi que queria ficar com ele e ali foi minha primeira experiência e minha negação. Nasci numa cidade pequena e achava que a qualquer momento as pessoas poderiam descobrir que eu já tinha beijado um outro homem. Não sabia o porquê, mas gostei da experiência e odiei conviver com aquele segredo.

O tempo passou. Fui pra faculdade, em outra cidade, e tentei, com todas as forças, ter uma namorada. Até beijei algumas meninas, mas não era tão interessante quanto o beijo que eu tinha trocado aos 16. Então, em uma trama digna de novela das oito, conheci um cara que realmente mexeu comigo. Eu gostava de estar com ele, queria a presença dele o tempo inteiro e, não sabia bem por que, mas queria estar sempre ao lado dele. Tudo nele era lindo e eu falava a todos o quanto eu tinha gostado de conhecer aquele cara. Ele tinha uma história bem parecida comigo e vi um refúgio ali. Quando percebemos, os dois estavam apaixonados. E ali descobri o que era e como era bom gostar de alguém. Naquele momento, mesmo lutando contra mim, não me aceitando completamente, e colocando sempre os pés pelas mãos, decidi que ia tentar ser feliz, enfim. Já tinha perdido tempo demais não me aceitando e lutando contra tudo aquilo que eu queria e lutando contra aquilo que eu era. Então, após muito sofrimento, tive meu primeiro namorado. O romance não durou muito. E depois daquele cara outros vieram, como qualquer jovem sadio. A diferença é que depois que eu entendi o que eu era e como eu era, o mundo se tornou mais suave de engolir.

O pior momento da vida de qualquer homossexual é a negação. Tentamos lutar contra aquilo que somos. Nos cobramos de coisas que a sociedade supostamente nos cobraria. Temos milhões de vezes mais super-ego que qualquer outro e, com o objetivo de entrar numa “normalidade”, muitas vezes nos anulamos. Temos medo. Medo do mundo, medo da família, medo do que nos poderá acontecer. Lembro que quando contei a minha mãe que sou homossexual, ela não me ofendeu e nem ficou se questionando onde errou e porque Deus “fez isso logo com ela’. Ela apenas tinha medo. Medo do que o futuro me reservava e medo do que o preconceito no mundo poderia me tornar. Medo da homofobia. Ela nem sabia exatamente o que era isso. Mas ela tinha medo. E eu também. E confesso que até hoje tenho.

Não obstante viver sob a égide do medo, como se fosse fácil você precisar se anular por anos para agradar meia dúzia de gente que realmente não liga para você, hoje a gente vive como uma sub-classe, como alguém que precisa de atenção especial. Não há nada no mundo que possa nos contar como a vida é cruel ou que nos conte como a vida pode ser bacana. Temos que lutar contra tudo, contra todos e contra nós mesmos. Vejo muitos gays dizendo que se pudessem escolher, escolheriam não ser homossexuais. Por medo do preconceito. Eu, se pudesse escolher, escolheria não existir tanto tabu no mundo. Prefiro que cada um possa ser o que quiser sem a obrigatoriedade de agradar a todos o tempo todo. Prefiro que cada um seja o que realmente é sem precisar se anular e, principalmente, que cada um seja muito mais do que aquilo que faz ou deixa de fazer na cama, ou sua forma física, ou sua origem ou qualquer outro detalhe ínfimo que nada domina no caráter.

Até hoje tem gente que diz que homossexualidade é promiscuidade, pouca vergonha, doença, vontade de aparecer, necessidade de atenção ou falta de Deus no coração. Eu ainda acho que homossexualidade é apenas um detalhe.

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Comentários em: "Gay Supernova" (5)

  1. Daniela Seabra disse:

    Te admiro, João.
    Não por ser ou não homossexual, mas pela sua postura.
    Homossexualidade é sim, um tabu, e como vc bem disse, não deveria ser.

  2. Laila disse:

    É..Infelizmente as coisas não mudaram tanto quanto imaginamos…Se as pessoas tomassem conta de suas prórias vidas já seria um avanço colossal!!!!

  3. Olá, João.
    Adorei o blog, só queria deixar registrado que independente de ser homo ou hetero temos necessidades de se encaixar na sociedade. Muita gente tem necessidade em agradar os outros o tempo todo. Sejam pais, amigos, namorados, família, chefes enfim…
    Parabéns! Você escreve muito bem.

  4. Liliane disse:

    Acho que precisamos parar de ver opção sexual como um problema. Na realidade o que temos que procurar é não julgar o proximo por ser diferente, seja por crer por escolher ou por ser algo que não estamos esperando. O importante é que cada um tem a sua opção de escolher e ser feliz com esta escolha!! Adorei o post e adorei ainda poder saber que mesmo apesar de todos os obstáculos vc ainda encontrou forças para correr atrás do que era melhor pra vc! Espero que todos tenham força para fazer o mesmo!

  5. Genial teu texto, João. Tua forma de escrever é leve, fluída. Me sinto identificado com o conteúdo, tratado de forma lúcida, profunda e responsável. Continue!

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