Hoje a Folha de São Paulo divulgou a noticia que o Nordeste cresceu e hoje sua renda se aproxima bastante da renda de São Paulo. Isso é fantástico. Em 10 anos o Brasil se tornou um país mais justo e as oportunidades estão em todos os estados. Não dependemos mais daquele eldorado que por anos corremos atrás. Hoje você pode nascer, crescer e viver no estado que nasceu, sem depender de um sub-emprego em outro lugar com o sonho de “vou pra outro canto ganhar a vida”. Essa marginalização do restante do país está perto de acabar. Pelo menos financeiramente, porque ideologicamente, está bem longe.

Algo que gosto bastante de fazer, principalmente em sites como Veja e Folha, é ver os comentários extremamente reacionários de seus leitores. Destaquei um comentário da matéria da Folha para análise:

Confesso que tal comentário não me chocou. Antes desse post  infeliz alguns usuários criticavam o governo por conta de bolsas assistencialistas, dizendo que isso não é benéfico pro Brasil e blablabla. Qualquer país que se diz democrático deve investir em programas de distribuição de renda. Países como a França, Espanha, Noruega, Estados Unidos e outras tantas potências que gostamos de usar como exemplo de Estado com E maiúsculo utilizam do recurso de bolsas sociais para sua população. Não se constrói um país forte se não dermos oportunidades. Eu já acreditei muito fortemente que as bolsas sociais eram algo nocivo, mas após bolsa isso, bolsa aquilo compreendi que existe sim a necessidade do governo distribuir renda. Isso fortalece a economia de maneira assustadora. Todos gostam de criticar o governo por dar dinheiro aos mais pobres, mas todos agradecem enormemente quando tal dinheiro dado aos necessitados se converte em compras em seus estabelecimentos.  Concordo que é necessário um maior investimento em educação e que não se vive de bolsa. Os programas sociais vão muito além de dar dinheiro por dar dinheiro. Existe uma estrutura muito maior, mas preferimos atacar e reclamar que meu dinheiro está indo para um bando de vagabundos. Esse é o pensamento do brasileiro-classe-média-neo-elitista. Esquece-se que Brasil não seria hoje destaque mundial se não tivessemos políticas voltadas ao social. E esquecem que não existem milagres. Tudo é muito lento. Não podemos acordar um belo dia e todos os problemas estão resolvidos. Economia é algo amplo demais para termos visão tão simplista.

Voltando ao comentário em destaque, reafirmo que isso não me choca nem um pouco. Conheço muitos (grifa-se o muitos) moradores do Rio, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e outras regiões historicamente mais desenvolvidas que acreditam que o êxodo de nordestinos para suas terras são mazelas, como se nascer fosse uma prisão e o país não necessitasse de sua harmonia de estados para sobrevivência. Já muito paulista afirmando que nordestino sai da pobreza para roubar os empregos do sul. Pois bem, se não fossem os emigrantes nossos estados mais desenvolvidos hoje não seriam o que são. Não existe um brasileiro hoje que não tenha qualquer vínculo com o Nordeste. E uma triste notícia para todos: o Brasil ainda é um país livre e todos os seus habitantes tem o direito de ir e vir, constituir suas vidas onde bem entenderem. Se você pode desfilar com seu lindo carro pelas engarrafadas avenidas de sua cidade, tenha certeza que pelo menos um “indesejado nordestino” colocou as mãos nele para sua produção.

Existem aqueles mais puristas, que beiram o neo-nazismo, que alegam que os nordestinos deveriam voltar a sua terra natal, como no comentário destacado. São Paulo Para Os Paulistanos, por exemplo, é um desses movimentos que ganham força. Existem ainda aqueles que acham justo desmembrar esse ou aquele estado do resto do país e ainda alegam com um sorriso “quero ver o Brasil se virar sem isso aqui”. Péssima notícia, meu caro: eu quero ver o Brasil se virar sem o Nordeste. Hoje o Nordeste é a região que impulsiona o crescimento do Brasil e se você tem o que comer dentro de casa agradeça a tal parte do país. Um estado como São Paulo ou Rio Grande do Sul, onde esses movimentos separatistas são mais evidentes, jamais sobreviveriam ao baque de serem desmembrados.  Existe sim a necessidade simbiótica de todos os estados da federação. Não se pode pensar hoje no Brasil e suas complexas formas com um estado a menos. Da cama que você dorme ao champagne que você toma no alto de seu pedantismo existem 26 estados e um distrito federal agindo fortemente. O que seria do seu churrasco do fim de semana sem o Mato Grosso do Sul, ou seu cafezinho sem o açúcar Alagoano e os grãos de café de Minas e Espirito Santo? E poderia passar o dia mostrando como nenhum estado brasileiro é auto-sustentavel em absolutamente nada e dependemos sim do amiguinho para não passar fome.

O mais engraçado nisso tudo é que acha-se um absurdo um nordestino chegando em São Paulo, por exemplo, mas é louvável um português oferecendo sub-empregos a brasileiros dentro do Brasil. Ninguém se opõe a chegada de mais e mais chineses abrindo lavanderias e pastelarias. Mas ao estrangeiro tudo, ao próprio brasileiro nada. Abrimos nossas casas aos estrangeirismos, mas açoitamos nossos conterrâneos como cães sarnentos. Só queria uma explicação lógica para isso.

Ainda acho que esse levante de preconceito a quem é tão brasileiro quanto eu e você é o recalque. Puro e sincero recalque de quem sempre teve tudo, todas as oportunidades e acha que o mundo funciona da maneira em que foi criado e ignora que a vida nem sempre é justa e algumas pessoas precisam sim de auxílio para igualdade, e obviamente a igualdade destronará a superioridade daqueles que sempre tiveram a vida fácil demais. Ah, se ele pode se dar bem, eu tenho que me dar bem também. Não somos um país igual? Então! Opa, eu tenho que me dar mal por que fulano tá se dando mal? Que absurdo! Não pode ser assim!

Ai ai, Brasil…

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Comentários em: "Meu pirão primeiro" (3)

  1. é um resquício do diferencial evolutivo do ser humano. não justifica, eu sei. mas o fato é que a maldade, de uma maneira geral, é fruto do deslocamento da cognição de si próprio para o outro, na medida em que perceber que a morte (ou a exclusão) do outro significa a eliminação da possibilidade de concretização da intenção do outro (presumida da partir da minha própria) de se apropriar do que é meu.
    claro, a gente não é mais bicho, e não precisa mais discriminar pra evoluir. mas boa parte da humanidade ainda não chegou nesse ponto, ainda não consegue abstrair a individualidade e perceber que junto é melhor que separado.
    hoje é o povo do sul-sudeste contra os “intrusos” do norte-nordeste, mas já foram tantos outros contra tantos outros… talvez a gente não veja o ponto ideal chegar, talvez 2012 chegue antes do ponto ideal. enquanto isso, só nos resta mesmo educar ambos os lados e torcer.

  2. Daniela Seabra disse:

    João, eu sabia que por trás dos seus posts no Tuíte havia um cidadão consciente do seu papel na sociedade (by @faustao).
    Belo artigo!

  3. João M. C. disse:

    Paulistas …

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