Arquivo para junho, 2011

42 anos de orgulho

Eu não poderia deixar passar os 42 anos do Orgulho LGBT em brancas nuvens. Desde Stonewall Inn, em 28 de junho de 1969, quando a polícia invadiu o bar e massacrou um grupo de homossexuais e transgêneros, muito foi conquistado. A exemplo no Brasil temos a recente decisão do STF sobre a união homoafetiva, os milhões de cidadãos que se movem contra o preconceito em marchas e manifestações a favor da diversidade sexual em todo o país, o reconhecimento da ex-companheira de Cássia Eller como mãe de seu filho, os avanços na mídia e no debate sobre a homofobia e, obviamente, o primeiro casamento civil homoafetivo, realizado hoje no interior de São Paulo. De 1969 pra cá muita coisa mudou para melhor, apesar dos pesares, estamos remando adiante, lentamente, mas colhendo um mundo mais justo não só para nós, mas abrindo a mente e dando voz a outras minorias. Muitos podem dizer que face ao conservadorismo protagonizado por Bolsonaros, Malafaias e, agora, Myrians, não temos o que comemorar. Mas acho que eles comemoram conosco, afinal, não teriam de onde tirar verba se não fosse pela nossa luta.

Vivemos num país onde é bonito ver dois homens brigando, mas hediondo ver dois homens se amando. Existe muito o que lutar e não podemos nos anular nos outros dias do ano. O homossexual sofre preconceito diariamente e as questões afirmativas são fundamentais para um mundo mais justo. Sonho com o dia que não teremos mais a necessidade de marchas, leis e didatismos para acolher as minorias como gays, negros, mulheres e outros. Enquanto vivermos com o pé no passado, teremos medo de buscar o que é nosso por direito no presente e pior, passaremos uma guilhotina no pescoço do futuro.

Não há religião, cultura, lei, localização ou proibição que vá impedir um homossexual de existir. Não existe essa história de “ele é gay pelas influências”. Se fosse assim, todo mundo seria heterossexual, afinal, estamos numa cultura heteronormativa e, em grande maioria, os pais são heterossexuais. Ninguém escolhe ser gay, bem como não escolhe ser hétero. Não existe uma enquete em dado momento da sua vida que você escolheu com quem transar e quem amar.

Os opositores dizem que as minorias visam criar um nicho de super-cidadãos, inabaláveis e incriticáveis. É muito confortável dizer isso quando se está inserido em uma maioria dominante. A péssima notícia que eu tenho a dar é que a vida não é justa. Para ninguém. E as minorias, independente de qual estamos tratando, tem uma carga histórica que precisa ser apagada. Não podemos menosprezar que negros não tem as mesmas oportunidades que brancos, que mulheres sofrem abusos diários por homens, que algumas religiões e culturas sofreram e ainda sofrem massacres culturais e que gays não tem os mesmos direitos que heterossexuais. Para um mundo mais justo é necessário olhar com abrangência a sociedade e atender as necessidades específicas dos movimentos sociais. As feministas queimaram sutiãs e hoje têm direitos iguais. Os negros exaltaram sua cultura e se inseriram. Os homossexuais não podem se anular por conta de um falso-moralismo.

Que todo dia 28 de junho seja dia de lembrarmos aqueles que morreram, aqueles que sobreviveram, aqueles que fizeram história, aqueles que fazem a sociedade. Que todo dia a gente possa conviver pacificamente, não importando com quem eu durmo ou quem eu amo. Eu quero ser feliz e ter minha cidadania plena e quero o mesmo para todos. Eu quero igualdade e não superioridade, nem dos gays e nem dos heteros. Não podemos viver num mundo de aceitações. Aceitar é apenas dar espaço a mostrar uma superioridade falsa. Quero viver num país onde meus filhos e seus filhos possam se confundir na multidão que constrói essa nação.

 

Pensamentos sobre a reação conservadora

Contribuição de Rafael Moreira (@pelotelefone) para o Dia do Orgulho LGBT

Em meio a tanta confusão, e muita bobagem dita por Bolsonaros, Malafaias e Myrians, achei que valia a pena fazer alguns apontamentos sobre as bobagens que vem sendo ditas e repetidas, especialmente pela bancada autodenominada evangélica.


Sobre a decisão do STF

Muito tem se falado sobre a decisão, o Malafa vociferando que é inconstitucional e vem a cereja do bolo com o projeto do Deputado João Campos de um decreto legislativo que tem por objetivo sustar os efeitos da ADIn. Mas vamos por partes.
Como o direito não faz parte da educação do brasileiro (o que é uma pena e tema para outros textos), somente quem se aventurou nesse curso consegue (ou deveria conseguir) entender o alcance da decisão. A tal decisão, diga-se, unânime, se baseou no artigo primeiro da Constituição. Isto é (basta ler lá) um FUNDAMENTO da República brasileira, no caso a dignidade da pessoa humana (é redundante, mas tá escrito lá, fazer o que). Não foi com base no art. 226, que trata da família. Assim, o STF, a quem cabe defender a Constituição, entendeu que não é possível que um Estado que defenda a dignidade negar direito aos casais homoafetivos. Em outras palavras, é uma decorrência direta dos valores de base do país reconhecer que cidadãos homossexuais são tão cidadãos quanto os demais. Parece óbvio, e realmente é, mas os ranços de preconceito forçaram a tal ADIn.
Aí me vem um tal Deputado João Campos que, segundo consta, é delegado de polícia e bacharel em Direito (assim diz ele) e apresenta um projeto de decreto legislativo para sustar os efeitos da decisão do STF. Bom, acho que ele ficou na constituição de 1967 e não leu a de 1988. Isso porque o art. 56 da Constituição, que prevê o decreto legislativo, fala que ele poderá ser usado para sustar efeitos de atos normativos do Poder Executivo, não fala nada de Judiciário. Antes, os artigos 100 e 101 deixam bem claro que a palavra do STF é final e não é contestável ou anulável pelos outros poderes. O STF é sim nosso órgão máximo.
Ou seja: o tal projeto do Deputado João Campos NÃO EXISTE JURIDICAMENTE. O máximo que poderia acontecer, num caso raríssimo de surto coletivo, é o próprio STF declarar o ato inexistente (o que até seria lindo).
Além disso, como a decisão foi com base no art. 1º, nenhum projeto, mesmo que de emenda à Constituição, poderá mudar seus efeitos, pois a dignidade humana não pode ser riscada da Constituição.
Portanto, a não ser que os ditos evangélicos resolvam dar um golpe de Estado, pode correr e oficializar no cartório a sua união porque ela vai valer, por mais que o Malafaia não queira (talvez eu não devesse ter dado a idéia do golpe).
E esse post ta muito grande e eu só comecei. Mal de advogado, tenham paciência.

Sobre o PL 122
Aí começa mais um festival de bobagem, que chega a dar aflição a qualquer pessoa alfabetizada e que seja capaz de um mínimo de raciocínio abstrato. Não vou nem perder meu tempo (e o seu, querido leitor) sobre a óbvia constitucionalidade do projeto. Vou me remeter apenas a uma questão e deixar a conclusão pra vocês: A lei vigente, que ficou conhecida como Lei do Racismo (Lei 7.71/89) mas pode ser melhor chamada de lei contra a discriminação, prevê as seguintes condutas como crime:

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”
Acompanhe comigo: uma das condutas criminosas é induzir ou incitar a discriminação ou preconceito contra RELIGIÃO. Olha, quem conhece um evangélico, um pastor ou já perdeu seu tempo ligando a TV nas madrugadas da televisão sabe muito bem que um dos esportes preferidos dos pastores evangélicos é divulgar os males das religiões espíritas ou de origem africanas, agregando todas sob a estigmatizada alcunha de macumba (que são também minorias religiosas). E mais, não sou poucos aqueles que incitam a chamada “guerra espiritual” contra pais de santo. E, no entanto, eu nunca vi nem ouvi que um pastor sequer tenha sido denunciado por incitar a discriminação contra o candomblé, por exemplo. Ninguém tem dúvidas de que isso diz respeito à profissão de fé deles.
Então, eu não consigo entender o medo que está sendo propagado pelas lideranças evangélicas que eles serão perseguidos (mentira que entendo sim, mas vamos fingir que não). Se ainda levarmos em conta que a recente emenda incluída no projeto pela Marta Suplicy, realmente não há como entender que dizer que ser gay é pecado viraria crime. Sabendo que provavelmente nem o Malafa leu o projeto, tirem suas conclusões.

Notinha sobre a Myrian
Bom, e o assunto da vez é a Myrian Rios que abriu o esgoto e saiu falando todo tipo de bobagem no plenário da Assembléia do Rio. Acho até engraçado, Myrian defendendo o direito de discriminar. Saibam que a babá lésbica dela poderia entrar com uma ação de dados morais na Justiça do Trabalho, onde conseguiria até a reintegração no emprego, tendo em vista que sua demissão foi motivada por discriminação.

Enfim, gente, votem melhor, por favor. É muita perda de tempo com gente burra.
(e procurem as leis no site do Planalto ou do Senado)

Eu penso e fico paranóico

Contribuição do Abel Be para o Dia do Orgulho LGBT

Eu penso e fico paranóico. Então, sou gay? Pergunta sem remetente, hermética. Ninguém podia pensar, imaginar, sonhar… muito menos me ouvir. Responder já seria recibo de “viado”. Mas, os outros sabiam, eu sabia. Falavam que eu era “bichinha”, “gay”, enfim, crianças sabem ser cruéis, adultos também.

Hoje, 28 de junho, é dia do orgulho LGBT. Pergunto quantos, quantas, ainda não podem se orgulhar por medo, vergonha, próprio preconceito. Essa dicotomia “Orgulho X Armário” pauta a vida de homossexuais, ou pautou, com raras exceções, cada vez mais comuns, mas ainda assim escassas.

Neste contexto, celebrar a homoafetividade não é só para gays, mas para todo que pretendem construir uma sociedade melhor. Ou alguém defende que algum ser humano deva ocupar um lugar exótico eterno, como atração em um circo de horrores ininterrupto? Isso não é um projeto de vida, muito menos de felicidade. Tal posição é a ocupada por gays, já foi pior. Mudar o imaginário social não é simples, é um desafio. Não trata-se de um artifício retórico, é desafio mesmo, cravado.

Sem maiores digressões, ao longo da história gays serviram ao gozo do outro, tendo de se submeter ao sadismo alheio, fetichizado, enquanto alvos preferenciais e constantes de ódio. Emerge a questão: por quê? Arrisco afirmar que essa destrutividade só interessa ao recalque de quem não aceita a própria homossexualidade e precisa xingar, humilhar, diminuir, praticamente aniquilar o que nega em si mesmo.

Há um medo enorme em não ser aceito por fugir a norma, por ser diferente, medo esse não extirpado após tantas revoluções sociais. A questão, então, é subjetiva? Em parte sim. No entanto, se você tem problemas íntimos esta autorizado a cometer crimes em nome deles? A transgredir pactos sociais? Não, não esta. Esse é o ponto: gays foram vistos como criminosos, como transgressores dos acordos, códigos, interditos sociais vigentes de modo tão radical que lhes coube todo tipo de sanção. Afinal, ousaram fazer algo vetado a todos. Que tipo de pessoas especiais são essas? Que tipo de pessoas? O pior tipo, claro. Bem, fica fácil entender de onde parte a comparação com pedófilos, promíscuos, desonestos em geral etc A aliança entre o recalque, a culpa e o medo em aceitar a vontade de fazer o que esses seres desviantes também fazem é perturbadora, não era de se esperar que não fosse.

Quem não ficaria paranóico descobrindo-se gay diante disso?

Romper este ciclo é um desafio por conta dessa complicação toda, pois não se trata de algo consciente, controlável. É antes de tudo inconsciente. O Orgulho LGBT, portanto, é necessário. É um grito que rompe com essa visão deturpada que iguala gays a humanos torpes, no mesmo nível dos vilões de qualquer filme de terror. Parece bobagem, mas ouça os discursos homofóbicos: são discursos de medo, desespero. Não estou, é bom esclarecer, defendendo ou sendo condescendente com homofobia, mas alguém dúvida que esse preconceito seja medo de se ver em uma bela manhã gay? Surpreendido por um desejo incontrolável de não ser mais hetéro? Pois é.

O Orgulho LGBT é a luta pelo reconhecimento social, sem o qual não há respaldo para nenhum sujeito. Sem o qual gays serão sempre destinados ao exílio, ao circo de horrores ou a destruição pura e simples. Esse dia é por um mundo em que gays se descobrem gays como possibilidade e não como maldição. É, sobretudo, tanto para gays, heteros, quanto bi, ou o que for, um dia para viver sem medo. A sociedade não irá ruir se incluir a homoafetividade, não somos criminosos e sim gente.

Myrian Rios, PEC 23 e Pedofilia

DE-PU-TA-DA

Teoricamente vivemos em um Estado Laico. Teoricamente. Durante o fim de semana rodou um vídeo onde a ex-atriz e atual apresentadora e deputada estadual Myrian Rios (PDT-RJ) se manifesta contra a PEC 23, que visa acrescentar orientação sexual no rol das vedações a discriminação da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, bem como o racismo e a intolerância religiosa. A deputada diz-se não-homofóbica, porém, diz claramente que não gostaria de empregar um funcionário homossexual. Vale ressaltar que Myrian Rios, eleita pelo excesso de votos do também apresentador Wagner Montes, é missionária e fervorosa integrante do movimento da Renovação Carismática. Palavras de Myrian Rios:

Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um homossexual como meu empregado, eventualmente. Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é lésbica. Se a minha orientação sexual for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser lésbica, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada”, disse. “Se eu contrato um motorista homossexual, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha orientação sexual é outra”, completou, sem esquecer de citar passagens bíblicas e pedir que o Espírito Santo de Deus jogue fogo santo naquela câmara laica.

Ironia é uma integrante da Igreja Católica, onde registramos os mais hediondos casos de pedofilia, generalizar os homossexuais como pedófilos latentes. E, partindo do princípio Myrian Rios de lógica, eu posso, caso queira, não contratar e não receber em minha casa negros ou religiosos, por exemplo, afinal, eles poderiam eventualmente ensinar coisas que não quero aos meus filhos. O perigo que seria eu contratar uma babá católica, por exemplo. Ela ensinaria aos meus filhos coisas que eu não concordo e eu acho que tenho o direito de ser preguiçoso e não explicar certas coisas aos meus filhos e culpar sempre a babá por isso. Eu também tenho o direito de negar emprego a um negro. Não tenho um motivo claro, mas se Myrian Rios acredita estar no direito de demitir ou não contratar um homossexual pelo simples fato de não ser da mesma orientação sexual que a sua, eu posso barrar um negro por ser de uma etnia diferente da minha, não? E como os direitos devem ser iguais para todos, não deve existir qualquer problema em agredir uma mulher fisicamente, afinal, ela é uma pessoa como qualquer outra e essa Lei Maria da Penha vai contra a constituição. Por que deveriamos proteger uma minoria?

A igreja católica e seus praticantes dizem-se contra a prostituição, mas a partir do momento que acreditam ser justificável demitir um funcionário ou não empregar alguém por sua sexualidade, abrem as portas para tal prestação de serviços. Uma grande parcela de travestis e transexuais enveredam pela prostituição não pelo prazer, mas pelo preconceito, por ser a última alternativa de sobrevivência com o mínimo de dignidade. Enquanto deixarmos que religiões interfiram no Estado, estaremos presos ao século XV e jamais seremos um país que valoriza os direitos humanos. Associar a pedofilia, uma prática abominável e criminosa a qualquer forma de sexualidade é algo que nos remete a quão retrógrada está a mentalidade dos nossos representantes. Em um ano em que a ONU coloca a homofobia como uma das bandeiras a serem combatidas no mundo o Brasil vai na contra-mão da sociedade e massacra novamente uma parcela da sociedade, como fez tantas outras vezes. Se for por estastísticas, senhora Myrian Rios, existe muito mais risco de um heterossexual ser pedófilo do que um homossexual, face que quase 80% dos casos de pedofilia no mundo são praticados por pessoas exclusivamente heterossexuais. Julgar uma pessoa unicamente pela sua sexualidade seria o mesmo que menosprezar um funcionário por ser negro ou oriental, desqualificando totalmente o seu currículo. O que queremos é uma sociedade justa para todos. Um mundo sem diferenças. Por que um evangélico pode denunciar abusos contra sua fé (algo que ele escolheu, pois sim, religião é um escolha diferentemente da sexualidade que não importando qual seja, é algo inerente ao ser humano, ou seja, nasceu assim)? Com linhas de racionício tão ultrapassadas muito em breve o negro não terá mais alma, a mulher deverá voltar a submissão e o diferente será queimado em nome de Cristo. Cristo este que hoje deve estar pensando: vocês estão fazendo tudo errado. Exatamente o contrário do que preguei.

Qual o tamanho do Orgulho?

Hoje acontece a décima quinta Parada do Orgulho LGBT em São Paulo, um dos eventos mais lucrativos e representativos da maior cidade do país. Seria clichê demais eu colocar como tudo se tornou comercial demais e como virou muito mais um carnaval do que um manifesto político. Isso todo mundo sabe e é bastante evidente. O meu questionamento da parada é o orgulho. Não existe orgulho dentro da parada.

Acredito que os organizadores do evento estão sim engajados com a luta política e promovem o evento como maneira de protestar, pedir os direitos e exaltar a diversidade sexual. É magnifico você pensar que todo ano mais de 3 milhões de pessoas lotam a principal avenida do país por um objetivo tão nobre, expondo que o mundo vai além do que o pensamento médio pretende mostrar. Lógico que a Associação da Parada LGBT de São Paulo lucra com o evento, afinal, nada além das ervas daninhas se sustenta de luz do sol e boa vontade. Vivemos em uma sociedade capitalista e somos garotas materialistas.

A caravana passa, os carros da parada passam, as pessoas se conhecem, se beijam, as drags dublam, alguns mais empolgados fazem coisas inapropriadas para o horário e para o local, a festa suja a cidade, as pessoas saem com a sensação de dever cumprido, a noite cai e as coisas voltam ao normal. Como Cinderela o Orgulho Gay vira abóbora. O dia muda e a única evidência daquele orgulho é a ressaca e meia dúzia de telefones trocados. Grande parte se re-enfurna em seu armário e se anula por conta do preconceito. Esquecem que a primeira luta contra o preconceito é quebrar o próprio tabu. Se as mulheres não se afirmassem diariamente, ainda estariam limpando cueca suja de marido e apenas isso.

O Orgulho LGBT que a parada propõe, em verdade, não existe. Um único dia em 365 para ser gay não  significa orgulho. É apenas aproveitar uma festa. É apenas pegar um recorte da cultura LGBT. O verdadeiro significado do orgulho é não se esconder, é não se transmutar em algo que você não é no resto do ano. Orgulho de verdade é não ter medo de expôr quem você realmente é, por mais que as pessoas não gostem disso.

Gay Supernova

Eu tinha 9 anos. Me sentia o menino mais legal do mundo por poder ir pra escola sozinho.Minha mãe me ensinou como se pegava ônibus e desde então gostava de pensar que eu era totalmente independente. Num desses dias, atravessando a rua, vi uma cena que me chocou demais. Absurdamente. Era um homem. Ponto. Apenas um homem. Mas eu, com nove anos, tinha achado-0 interessante. Aquilo foi o que me chocou. Eu, com nove anos, me sentindo atraído por um outro homem. Assim como muitos moleques da minha idade babavam pela Luma de Oliveira, eu senti o mesmo ao ver aquele cara passando de carro. Foram segundos, mas fiquei o dia inteiro me martirizando por aquilo.  Comecei a pensar “ah, que isso, tá errado, eu sou menino. Não posso nem achar um homem bonito. Isso é errado!”. E aquele sentimento do erro ficou me martelando por anos. Por mais que eu tivesse absoluta certeza que me interessava bem mais por homens do que por mulheres, eu tinha em mente que aquilo era errado e que ninguém gostaria de mim daquele jeito. Não sabia porque, mas sabia que era assim que o mundo funcionava.

No ano seguinte conheci Alex, meu novo professor de natação. Ele era lindo. Minha mãe babava por ele e lembro que minha tia fazia questão de me acompanhar até o clube só para ver Alex de sunga na beira da piscina. E lembro da primeira vez que ele entrou no vestiário e foi tomar banho e se vestir para sair do clube. Pela primeira vez eu vi um homem nu e eu ficava intrigado porque gostava tanto de olhar para aquele corpo. Eu tinha 10 anos, gente! Por mais proibido que fosse, eu gostava de olhar aquilo, mas lutava contra. Me reprimia por conta daquilo.

Com doze anos as boybands estouravam no país e lembro que minhas amigas (sempre me dei melhor com elas) gostavam de alguns modelos e cantores da época e eu me segurava para não mostrar meu interesse nas fotos que elas colecionavam. Me punia severamente por isso. Não por me controlar, mas por gostar de ver aquilo. O tempo passou e todos os meus amigos de escola, em seus 15 anos, gostavam de pegar as menininhas e eu ficava bem no meu canto, estudando, sem muito contato. Até que eu era bastante popular no colégio, agora público, mas não me agradava a ideia de beijar uma menina. Eu não sentia nada com relação a elas, então não existia razão para isso. Lembro que um amigo, ao saber que eu era totalmente virgem, falou que eu deveria ser “frígido”, por que não sentia atração sexual por absolutamente ninguém. Na verdade, eu gostava de um menino da turma, achava lindo, mas nunca ia contar isso pra ninguém. Não ia querer ir para o nimbo social. Contive minha vida, novamente.

Fui criado num lar de valores cristãos, família evangélica e muito bem estruturada, obrigado. Nunca vi meus pais brigarem e eu seria injusto caso dissesse que algo me faltou em termos de afeto durante a infância. Tive pai e mãe bem presentes. Sou o filho mais velho, nunca fui mimado, meus pais são casados até hoje e vários outros fatores que sempre culpam a homossexualidade eu nunca tive. Nunca passei por experiências sexuais frustradas e nunca, graças a Deus, sofri qualquer abuso. Não via, pela educação forçada à sociedade heteronormativa, uma justificativa para meu interesse por garotos. Aos 16 anos, quando todos os meus amigos de escola contavam suas experiências sexuais, eu preferia mentir sobre minha vida do que experimentar aquilo que eu sabia que realmente desejava. Na mesma época conheci um cara e decidi que queria ficar com ele e ali foi minha primeira experiência e minha negação. Nasci numa cidade pequena e achava que a qualquer momento as pessoas poderiam descobrir que eu já tinha beijado um outro homem. Não sabia o porquê, mas gostei da experiência e odiei conviver com aquele segredo.

O tempo passou. Fui pra faculdade, em outra cidade, e tentei, com todas as forças, ter uma namorada. Até beijei algumas meninas, mas não era tão interessante quanto o beijo que eu tinha trocado aos 16. Então, em uma trama digna de novela das oito, conheci um cara que realmente mexeu comigo. Eu gostava de estar com ele, queria a presença dele o tempo inteiro e, não sabia bem por que, mas queria estar sempre ao lado dele. Tudo nele era lindo e eu falava a todos o quanto eu tinha gostado de conhecer aquele cara. Ele tinha uma história bem parecida comigo e vi um refúgio ali. Quando percebemos, os dois estavam apaixonados. E ali descobri o que era e como era bom gostar de alguém. Naquele momento, mesmo lutando contra mim, não me aceitando completamente, e colocando sempre os pés pelas mãos, decidi que ia tentar ser feliz, enfim. Já tinha perdido tempo demais não me aceitando e lutando contra tudo aquilo que eu queria e lutando contra aquilo que eu era. Então, após muito sofrimento, tive meu primeiro namorado. O romance não durou muito. E depois daquele cara outros vieram, como qualquer jovem sadio. A diferença é que depois que eu entendi o que eu era e como eu era, o mundo se tornou mais suave de engolir.

O pior momento da vida de qualquer homossexual é a negação. Tentamos lutar contra aquilo que somos. Nos cobramos de coisas que a sociedade supostamente nos cobraria. Temos milhões de vezes mais super-ego que qualquer outro e, com o objetivo de entrar numa “normalidade”, muitas vezes nos anulamos. Temos medo. Medo do mundo, medo da família, medo do que nos poderá acontecer. Lembro que quando contei a minha mãe que sou homossexual, ela não me ofendeu e nem ficou se questionando onde errou e porque Deus “fez isso logo com ela’. Ela apenas tinha medo. Medo do que o futuro me reservava e medo do que o preconceito no mundo poderia me tornar. Medo da homofobia. Ela nem sabia exatamente o que era isso. Mas ela tinha medo. E eu também. E confesso que até hoje tenho.

Não obstante viver sob a égide do medo, como se fosse fácil você precisar se anular por anos para agradar meia dúzia de gente que realmente não liga para você, hoje a gente vive como uma sub-classe, como alguém que precisa de atenção especial. Não há nada no mundo que possa nos contar como a vida é cruel ou que nos conte como a vida pode ser bacana. Temos que lutar contra tudo, contra todos e contra nós mesmos. Vejo muitos gays dizendo que se pudessem escolher, escolheriam não ser homossexuais. Por medo do preconceito. Eu, se pudesse escolher, escolheria não existir tanto tabu no mundo. Prefiro que cada um possa ser o que quiser sem a obrigatoriedade de agradar a todos o tempo todo. Prefiro que cada um seja o que realmente é sem precisar se anular e, principalmente, que cada um seja muito mais do que aquilo que faz ou deixa de fazer na cama, ou sua forma física, ou sua origem ou qualquer outro detalhe ínfimo que nada domina no caráter.

Até hoje tem gente que diz que homossexualidade é promiscuidade, pouca vergonha, doença, vontade de aparecer, necessidade de atenção ou falta de Deus no coração. Eu ainda acho que homossexualidade é apenas um detalhe.

Pink money, aham, sei…

Algo que impõe respeito em qualquer sociedade é o dinheiro. Não importa seu caráter, sua história, suas escolhas ou qualquer outro fator determinante quando você tem dinheiro. Não digo isso por mim. Dinheiro é bom, principalmente quando ele é meu escravo. Quando eu me tornar escravo do dinheiro será altamente nocivo. E hoje a sociedade em geral é escrava das contas bancárias. E essa é a maneira errada que o público gay está ganhando respeito no país.

O chamado Pink Money é um dos mais valorizados hoje em dia por motivos óbvios: gays são notoriamente conhecidos por gostarem de produtos e serviços mais refinados, não têm filhos para sustentar e sua renda voltada ao entretenimento é muito maior que dos heterossexuais. Isso generalizando bem. Hoje mesmo algumas matérias sobre como a Parada do Orgulho LGBT em São Paulo esquentam a economia da cidade, sendo um evento muito mais lucrativo pra cidade que o Dia dos Namorados, por exemplo.

Não acho ruim uma série de serviços e produtos que sejam dedicados ao público LGBT, afinal, hoje o mercado tem espaço pra criação de marcas dedicadas a determinados setores da sociedade como roupas pra nerds, pacotes de viagem para idosos e livros religiosos que vão além das escrituras sagradas. O que não acho benéfico é conquistarmos respeito por conta do dinheiro. Eu vejo bem isso porque a bichinha pobre continua sendo escárnio da sociedade, enquanto o gay de elite é respeitado. Viado é quem tem dinheiro. Se você pode me oferecer algo, você é homossexual. Mas isso é apenas uma situação face a face, pois muitas vezes o preconceito só muda de ocasião. O dinheiro é bem vindo, mas os comentários maldosos aparecem quando o cidadão passa pela porta repleto de sacolinhas lotadas.

Dentro do Pink Money nós temos uma dose abusiva de preconceito, a começar pelo louvor a uma pessoa unicamente pela sua orientação sexual relacionando-a ao dinheiro. Isso é algo patológico. Dinheiro não sabe o que é orientação sexual. Além disso, temos a questão de rotular as finanças de uma determinada parte da sociedade, de maneira tremendamente preconceituosa, diga-se de passagem, como um “dinheiro rosa”, colocando o gay como um ser delicado e ao mesmo tempo excluindo as lésbicas como possiveis compradoras. Em resumo: está tudo errado. Impor respeito através de uma volumosa conta corrente não é o ideal. O que devemos é construir diariamente a imagem de que somos cidadãos, com o sem dinheiro.

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