Olá lindas e lindos, hoje vou ensinar em poucas lições como redigir um texto sem ofender a comunidade LGBT e explicar o porque do uso destes termos. O objetivo desse post não é, em absoluto, ofender a classe jornalistica, mas elucidar algumas questões que ficam pendentes sobre os termos a serem utilizados. Assim como negros, judeus, mulheres e outras minorias pedem alterações de alguns termos para se sentirem contemplados (e hoje muitos deles foram aderidos), com o debate sobre os direitos LGBTs em polvorosa achei interessante pôr em pratos limpos algumas expressões para que nossos textos sejam mais coerentes com todos.

ORIENTAÇÃO SEXUAL, POR FAVOR.

Lindos, nunca usem o termo “opção sexual“. Ofende profundamente o movimento LGBT. Uma vez que não fazemos escolhas sobre nosso desejo sexual (ou alguém se lembra quando escolheu ser hetero?), o termo “opção” torna-se pejorativo quando falamos sobre lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. O termo correto para falar sobre sexualidade é “orientação sexual”, uma vez que desejo sexual nos orienta a essa ou aquela forma.

LGBT IS THE NEW GLS

Algumas pessoas ainda usam o termo “GLS”, datado da década de 70, quando não existia um questionamento mais profundo sobre os direitos homoafetivos. O termo LGBT contempla lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Outros preferem utilizar LGBTT para dar voz a travestis e transexuais separadamente e não @s aglomerando num grupo “transgênero”. A ordem L-G-B-T é em respeito ao movimento feminista, uma das bases do movimento LGBT, portanto, além de homenagear as mulheres que lutaram pelos seus direitos, a sigla L vem a frente por questões de visibilidade lésbica. E lembre-se: GLS pode ser usada apenas para fins comerciais, como lojas, hotéis, boates, bares e clubes chamados “gay friendly”. Em geral o termo tem caído em desuso, mas sua conotação hoje é muito mais comercial do que política.

HOMOSSEXUALIDADE SIM, HOMOSSEXUALISMO NUNCA.

Judeus lutaram por muito tempo para o desuso da palavra “judiar”, que era algo que tornava ofensivo para os praticantes de tal religião. O mesmo se aplica a expressão “homossexualismo”, que remete coisas terríveis aos LGBTs. O termo “homossexualismo” foi criado durante o nazismo para denotar que o comportamento pederasta era uma doença. Em 1990, quando a OMS retirou a homoafetividade do seu catálogo de doenças, entendendo que é uma expressão da sexualidade, passou-se a usar o termo “homossexualidade”, uma vez que todo ser humano tem uma sexualidade, sendo ela homo, hetero, bi, pan ou assexuada. Então, em respeito a todos os homossexuais que sofreram por conta do nazismo, abortou-se o sufixo “ismo” e adotou-se “homossexualidade”, ou “homoafetividade”, ou em outros casos, “homoerótico”.

TRAVESTIS E TRANSEXUAIS NÃO SÃO HOMOSSEXUAIS

Essa parte parece complicada, mas não é. A sexualidade humana não é dada pelo sexo biológico (aquele que você nasceu), mas pela identidade de gênero (como você se identifica sexualmente). Ou seja, se você nasceu homem, se identifica como homem e tem atração por mulheres, você é heterossexual. Se você é mulher, se identifica como mulher, mas sente atração sexual por outras mulheres, você é homossexual. No caso de uma travesti que nasceu homem, mas se identifica como mulher e tem atração por homens ela é considerada heterossexual. Como a identificação dela é feminina, então ela é hetero. Inclusive se você conversar com muitas travestis, elas não se identificam como gays, simplesmente por que não são. São mulheres que nasceram em corpos masculinos. Porém, se a travesti (nascida homem e com identidade de gênero feminina) se envolve afetivo/sexualmente com outra travesti ou uma mulher, aí sim ela é homossexual. Pode parecer impossível, mas sim, existem travestis e transexuais homossexuais.

O TRAVESTI E A TRAVESTI SÃO BEM DIFERENTES

Um ponto que fere profundamente o movimento transgenero é a questão do recorte de gênero, como elas e eles são tratad@s. Bem, se é uma travesti/transexual MTF (male to female, ou seja, nasceu homem e identifica-se como mulher), sempre a trataremos no feminino. A travesti Luisa Marilac, por exemplo. Ou a transexual Ariadna Arantes (para citar as mais recentes). Utilizamos o gênero masculino em casos de transgeneros FTM (female to male, tão logo, mulheres que se identificam como homens), como por exemplo o filho da cantora Cher. Por uma questão, primeiramente, de respeito, devemos utilizar o tratamento correto. É agressivo demais a uma travesti ser chamada pelo nome de registro e ser tratada o tempo todo no masculino. Causa constrangimento e tristeza.

HERMAFRODITAS NÃO EXISTEM

Muita gente exemplifica Roberta Close como hermafrodita. Péssima notícia: não existem hermafroditas na espécie humana. Para um animal ser considerado hermafrodita deve ter em sua estrutura tanto o sistema reprodutivo feminino quanto masculino. Exemplo disso são as minhocas. O mesmo se aplicaria a espécie humana. Até hoje não foi registrado nenhum caso parecido na literatura médica. O que existe em nossa espécie é a “intersexualidade”, ou seja, pessoas que nascem com os dois sexos, mas sem a capacidade reprodutiva de ambos. Normalmente são crianças com um micro-pênis e uma vulva formada. Porém não podemos determinar na hora do parto se é evidentemente um homem ou uma mulher, e registra-se a criança com um dos dois sexos e num futuro descobre-se, como no caso de Roberta Close, que houve um erro. A estrutura física, psicológica e emocional é toda voltada pro feminino e seu registo é masculino. Além disso, o micro-pênis (que em muitas vezes não é capaz de ficar ereto, devido aos hormonios femininos) incomoda profundamente a intersexual.

TRAVESTI É UMA COISA, TRANSEXUAL É OUTRA

Travestis e transexuais são diferentes. Travestis e transexuais têm em comum a inversão de identidade de gênero (sentem-se como o sexo oposto), mas apenas as transexuais tem ojeriza ao próprio órgão genital ou sofrem do distúrbio de identidade de gênero. Em geral as transexuais tem um processo de aceitação interna muito mais doloroso e para isso enfrentam todo o processo da mudança de sexo. As transexuais podem realizar a vaginoplastia para acabar com o pesadelo do corpo errado, enquanto as travestis não sentem-se incomodadas com o sexo que nasceram. Por conta dos problemas de aceitação, muitas transexuais cometem suicídio por se sentirem aprisionadas num corpo que não as pertence. A cirurgia de mudança de sexo feminino para masculino ainda é bastante experimental e de efeito meramente estético, enquanto a transexualização masculina para feminina é um procedimento relativamente comum e mantém estrutura complexa para que a transexual tenha prazer em suas relações futuras. Como qualquer outra cirurgia podem haver falhas e a operada não sentir mais prazer com a penetração, mas não é uma regra. Muitas transexuais sentem muito mais prazer após a cirurgia.

A PALAVRA É: HOMOFOBIA

A palavra está na moda, mas muita gente não sabe exatamente o que significa. Identifica-se como homofobia o tratamento hostil, agressivo, chulo, discriminatório, preconceituoso, antipático e/ou aversivo a homossexuais, bissexuais e transgêneros (esses, em alguns casos, pedindo o uso do termo transfobia, por não se sentirem contempladas no termo homofobia, como expliquei lá em cima sobre a identidade de gênero trans). Em suma, é o mesmo que o racismo, porém com LGBTs. Por isso o apelo ao fim da homofobia no Brasil e a aprovação de leis, como aquelas criadas em prol dos negros, para criminalização da homofobia. No Brasil a cada dois dias um homossexual é assassinado. Segundo levantamento feito em abril de 2011, 60% das empresas não gostariam de ter funcionários homossexuais em seu quadro. Em escolas de todo o país, mais da metade dos alunos dizem-se não ser favoravel a homossexuais e transgêneros dentro de salas de aulas. No Brasil mais de 90% dos transgêneros evadem das escolas por conta da transfobia. A homofobia, assim como o racismo, é uma forma de bullying ainda muito recorrente no Brasil. Não é considerado homofobia a pregação religiosa sobre a homossexualidade que algumas religiões praticam, porém, caso o discurso tenha cunho agressivo e incitação a violência, pode-se considerar homofobia. O projeto de lei complementar que criminaliza a homofobia no Brasil (PL 122), prevê que agressores de homossexuais poderão ser presos com penas de até 5 anos. O mesmo projeto de lei, revisitado recentemente, deixa bem claro que a liberdade religiosa não poderá ser afetada mediante tal projeto de lei.

Espero ter contribuído com todos para revisões e esclarecimentos. Acredito que muitos redatores e jornalistas usam os termos errados não por preconceito, mas por pura falta de conhecimento no assunto. Não é má vontade. É pura desorganização do movimento LGBT em deixar claras as questões que nos atingem. Qualquer dúvida, podem deixar comentários que vou atualizando o post. 🙂

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Comentários em: "Pequeno manual de verbetes LGBT para você jornalista lindo nunca mais falar O TRANSEXUAL ROBERTA CLOSE." (10)

  1. Ana Gabriela disse:

    Só digo uma coisa: ORGULHO.
    Parabéns, de verdade.

  2. Jacqueline disse:

    Esses dias em uma aula de redação do cursinho o professor perguntou o que a gente achava dessa lei, se o movimento LGBT não tava querendo tratamento especial (já que, por lei, nenhum ser humano pode ser agredido), e na verdade ele tem razão, não deveria existir uma lei própria pro mov. LGBT, contra o racismo… porque todas as pessoas (e animais, diga-se de passagem) merecem respeito. Mas a decisão de recorrer a uma lei “específica” é porque as que já existem não tem efeito – pergunta meio estúpida, eu vejo no jornal as agressões – mas qual seria a diferença do julgamento com essa lei aprovada? Eu imagino que essas agressões são denunciadas mas nada acontece

    • Jaque, assim como nos casos de racismo, misoginia, intolerância religiosa e outras formas de preconceito, o acusado pelo crime teria o agravante de homofobia. Atualmente caso uma pessoa seja presa por um ataque homofobico ele é julgado apenas por agressão física, uma vez que a lei não contempla casos de preconceito a homossexuais (levando em conta que criminalmente chamar um homossexual de “viado” não é crime). Além disso a PLC 122 também leva em consideração toda forma de discriminação contra homossexuais, como acontece hoje com o racismo. Um estabecimento não pode se recusar a atender um cliente por ser negro e não pode demitir ou negar vaga a um fincionário unicamente por sua origem etnica. O mesmo se aplicaria a homossexuais, que não poderiam sofrer a mesma discriminação. Mas que fique bem claro: assim como no caso nos negros, os homossexuais precisam provar que sofreram discriminação por sua orientação sexual. Não é bagunça. Muita gente diz que depois da PLC 122 os empregadores ficarão com medo de não contratar homossexuais ou não poderão dispensar seus funcionários homossexuais por outras questões. Não é assim. O funcionário terá que apresentar provas que sofreu discriminação em seu ambiente de trabalho, bem como o cliente homossexual precisará provar que foi rejeitado em um estabelecimento por conta de sua orientação sexual. Got it?

  3. Laila disse:

    Muito bom o texto,Caju!Com a sua permissão,vou compartilhá-lo no Facebook!

  4. João,
    Acabei de compartilhar o seu texto no blog que eu faço parte, o Ideia Nossa! Somos 4 autores fixos e uns 8 itinerários, discutimos política, meio ambiente, música, arte, sociedade, etc. 🙂
    Achei a informação super interessante, ninguém “ensina” essas coisas! Meus parabéns!

  5. Renan disse:

    Esperoque isso não seja sério…

  6. Luciana disse:

    Em tempos de tanta discussao absurda no Brasil quanto à PL122, seu texto é otimo por tratar de tantos preconceitos que as pessoas as vezes nem se dão conta de estarem perpetuando. Divulguei nas minhas redes sociais e tb em blogs de jornalistas odiosos como Reinaldo Azevedo. Parabens e continue na luta!!!

  7. Tathi disse:

    Ótimo texto João!!! Precisa esclarecer os termos para que ninguém ofenda e magoe as pessoas por falta de informação. Gostaria de entender melhor a PLC 122 no que diz respeito à religião. A Marta propôs uma mudança no projeto de lei que não criminaliza a pregação religiosa. Mas como ficam esses discursos ferozes dos fundamentalistas religiosos, eles não vão jogar na conta da liberdade religiosa toda sua homofobia? Queria ouvir sua opinião…

    P.S: Tendo o cu acento ou não, amo demais a pessoa que colou o cartaz no gabinete do Jair!!!!!

  8. João M. C. disse:

    “É agressivo demais a uma travesti ser chamada pelo nome de registro e ser tratada o tempo todo no masculino. ”
    Acho que todo mundo conhece essa: http://www.servidor.gov.br/legislacao/portarias/port_2010/100519_port_233.pdf

  9. Sou uma estudante do curso de direito e torço muito pela vitória do respeito entre as pessoas, entre os seres humanos. Na data em que o tema da união homoafetiva estava em votação no STF eu fiquei sabendo da maravilhosa decisão por um colega de classe. Primeiro eu tinha entendido que não tinha sido aprovado, fiquei decepcionada, porém quando ele continuou a conversa completando dizendo que era o fim das famílias, percebi que tinha entendido errado, então foi ai que a polemica começou. Tive que escutar que agora 1: “essas pessoas” teriam o direito de adotar crianças, que como essas crianças iam crescer sendo criadas assim.. 2: Que futuramente, daqui ha 20 anos teriamos uma enxurrada de processos nos quais essas crianças alegariam falta de amor de uma das partes(casa um casal de gays, processariam por falta de amor maternal)… 3: que como Freud já disse, precisa de um homem e uma mulher pra se ter um filho bem estruturado… 4: que essas crianças sofreriam preconceito na escola… e por aii vai os absurdos que escutei de uma única pessoa. Porém, todos esses absurdos foram rebatidos com argumentos simples, lógicos e principalmente humano por mim. 1: Essas crianças vão crescer muito bem. Vamos levar em conta somente o lado financeiro então. Os casais homo comprovadamente têm um nível de vida muito melhor que muitos casais heteros por aii, ou seja, boa educação, lazer, alimentação, conforto, essa criança teria de sobra, muito mais do que num abrigo ou orfanato. E sabe o que elas teriam muito mais? AMOR, CARINHO, AFETO, ATENÇÃO, UMA FAMÍLIA. 2: Oi?? Perguntei se realmente ele acreditava nisso no que ele tava falando. Ele confundiu os processos existentes por falta de amor ou atenção de filhos rejeitados por maioria os pais, mas essas crianças teriam isso tudo, então não haveria razão pra isso. 3: Sério, não querendo dismerecer Freud, mas ele me deu o exemplo de um cara que já morreu há anos para explicar os acontecimentos atuais, já já ele ia começar a falar que mulheres ‘disquitadas’ não prestam. Que pensamentinho mais atrasado esse. 4: Crianças são crueis independentemente dos pais que vc tenha, isso seria o de menos. Hj em dia as famílias são totalmente diversificadas, pai, mãe, madrasta, padrasto, irmão por parte de um, filho por parte de outro, mãe solteira, e por aii vai. Sério, não sou do tipo de discutir com alguém e muito menos gastar argumentos com pessoas que tenham pensamentos diferentes aos meus, mas quando isso implica a falta de respeito, a intolerencia, sinceramente, não consigo ficar calada antes de falar umas boas coisas. E acho mais absurdo pessoas que cursam direito pensarem e falerem com uma autoridade coisas assim.

    P.s. Desculpe-me pela tamanho do texto e peço perdão se não usei os termos adequados, pois acabei de ler seu artigo, que por sinal excelente e tratarei de me corrigir o mais rápido possível.

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