Esse post eu publiquei originalmente no @MobilizacaoBR e resolvi trazer pra cá. 🙂

(essa foto não foi tirada ontem a tarde. pode não parecer, mas essa ilustração é uma montagem)

Ah, a internet! Essa maravilha que se popularizou no século XXI. Com este advento hoje qualquer um pode ter voz, opinião. Não dependeriamos de um “formador” para sermos representados. Aqueles velhos dias de cão de grito entalado na garganta acabaram desde a explosão das redes sociais. Isso é ótimo para nós. Dá abertura ao debate. Um milhão de ideias por segundo! É tanta informação que a gente não sabe o que fazer com ela. E com isso, não se informa de absolutamente nada e volta a estaca zero, esperando os bálsamos dos formadores de opinião. Já dizia Mark Bauerlein que nossa geração louva o uso incessante dos dispositivos digitais, o que criou um “casulo” em torno dos jovens, que só se relacionam entre si, 24 horas por dia, sete dias por semana. “A falta de contato com os adultos impede os jovens de crescer.”, afirma Bauerlein.

Primeiro eu me preocupei bastante com a questão do politicamente correto voltar a baila. Depois da ditadura formalizou-se que tudo era permitido e a gente andou bem tolerante (se é que podemos usar essa palavra) com quase tudo. Humor era humor e informação era informação. Fim. O que não era pra ser levado a sério não tinha relevância. Daí tudo se complicou, porque tudo era piada. Inclusive coisas sérias. Então começaram os movimentos sociais a reinvidicar, cobertos de razão, um pouco mais de respeito. Isso deu caminho para uma série de ataques a qualquer coisa. Tudo é racismo, tudo é homofobia, tudo é intolerância religiosa. Calma, não é bem assim. Nesse passo estamos caminhando para uma ditadura moral. Existe tudo isso, mas não nessa proporção galopante. Ou não existia. Até 2011.

Desfeito o mito do politicamente correto o povo desembestou a falar as maiores barbaridades em nome da “liberdade de expressão”, ignorando completamente o conceito de que a minha liberdade termina quando a do outro começa, como vovó já dizia. Por sinal, duvido que vovó tivesse tantos problemas com aquilo que falam. Parece que em 1930 minha avó era bem mais moderna que os jovens de hoje. Todo mundo sabia o que era polido e o que era imbecil. A gente se imbecilizou. E os imbecis, por serem numerosos, dominaram o mundo, como previa Nelson Rodrigues. Hoje as pessoas não prezam mais pelo respeito, pela vida em comunidade, pela vida do outro. Nossos pais queriam mudar o mundo e nossa geração quer que o mundo se mude para nós. Se continuar assim, prefiro me mudar do mundo.

O povo brasileiro que sempre foi aplaudido no mundo por ser uma gente que respeita e trabalha se acomodou com esse status e tudo agora dá abertura para jogar pedra na Geni. Quando Dilma Rousseff foi eleita presidenta tivemos um exemplo puro de ódio com Mayara Petruso convocando paulistas a matarem um nordestino por dia para “fazer um favor” ao país. Dia desses vi uma reportagem de um grupo de Skinheads orgulhosos de materem e espancarem homossexuais, não obstante as declarações de figuras como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano contra a igualdade de direitos. Durante a eliminação do Flamengo pelo Ceará, milhares de mensagens contra nordestinos pipocaram o Twitter. Dia desses um jornalista esportivo decidiu sair em defesa da homofobia por conta de um jogo de vôlei. Em meio a tragédia de Realengo todos acusaram o assassino de ligações com o Islã sem qualquer referência. Temos notícias frequentes de que o racismo está crescendo no Brasil e o machismo parece que virou uma virtude. Essa semana um rapaz foi assassinado em Santa Catarina porque flertou com uma moça que não quis sair com o assassino. E como cereja deste bolo, temos dois humoristas (sendo um deles “a arroba mais influente do twitter”) brincando com coisas como estupro e holocausto. Voltamos ao século XV? Nossa mentalidade regrediu desta forma porque raios? Nem nosso pior pesadelo de “Circo dos Horrores” seria tão grotesco.

A gente (quando digo “a gente” me refiro a todo o BraZil) se desacostumou com o diferente. E aqui não tem movimento político partidário que explique esse movimento. É meramente comodismo e reduzir o mundo a um computador. Negros, muçulmanos, judeus, gays, mulheres, nordestinos, idosos, deficientes, enfermos… todo mundo agora é fora da órbita que uma superioridade espera. E se você está fora deste padrão branco-cristão-hetero-macho-(não homem, macho) -jovem-saudável-bonito-classe média, você merece ser ofendido, ter seus direitos negados e, com a sorte de um novo Deus que surge em nossa televisão, ser espancado até a morte.

O momento se tornou tão crítico do ódio àquilo que é diferente que não existe mais espaço/razão pra se protestar contra a homofobia, ou contra o machismo, ou contra o racismo, ou qualquer expressão específica de ódio. O pavor se generalizou. Chegou ao ponto de acharem que matar animais por prazer ou estilo é aceitável. E quem é contra merece ser apunhalado. A internet tornou-se o antro da livre opinião, desde que seja a mesma, senão o sangue escorre.

Proponho, com isso, que nosso foco seja a diferença. Que exaltemos nossas diferenças. O ódio cria o medo e o medo nos calará muito em breve. E com isso, a democracia foi pro espaço. A beleza do mundo está em nossas diferenças e isso nos faz evoluir. A diversidade faz que não fiquemos inertes e compreender o outro. O estrangeiro ao nosso mundo é sempre mais fascinante que nosso casulo. #vivaadiferenca. Vamos emplacar?

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Comentários em: "Voltamos ao século XV ou é impressão minha? #vivaadiferenca" (6)

  1. Exatamente isso.
    Às vezes me acho uma estranha no ninho por ter respeito pelas pessoas, por não achar “normal” a violência e por não aceitar tantas outras coisas que se tornaram toleráveis pra tanta gente. E #vivaadiferença

  2. “Hoje as pessoas não prezam mais pelo respeito, pela vida em comunidade, pela vida do outro”

    Disse tudo.

  3. o primeiro beijo gay rolou ontem, João, já é bacana tbm!
    http://bit.ly/kDZ7eD

  4. muito bom o texto!

  5. […] este post começo indicando um texto do colega João Márcio, que você poderá ler na íntegra aqui (extraído originalmente de eusoqueriaestudar.com). Concordo em grande parte com a opinião do […]

  6. Ulysses disse:

    eu queria poder citar um ponto do texto que gostei muito, mas foram muitos e teria que copiar todo seu texto no comentário.
    parabéns pelo texto!!

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