Arquivo para maio, 2011

E disse Jesus: o diabo é o pai da mentira (João 8:44)

Sou de criação evangélica, toda minha família é batista e tenho um primo teólogo, pastor, formado e doutrinado pela fé cristã batista. Curiosamente, sou gay (se vocês ainda não perceberam). A igreja não me permite manifestar minha fé e meu amor ao mesmo tempo, tão logo, manifesto minha fé de outras maneiras, baseado naquilo que acredito. E acredito, muito fortemente, que Jesus Cristo era um cara bem legal e veio a Terra pra dar tapa na cara da sociedade hipócrita que existia na época. Bem parecida com a que temos hoje. A diferença é que a lucratividade na época era com o próprio Cara lá de cima, e não com o Filho Dele. Ele veio a Terra, nos ensinou um monte de coisas e, em geral, a galera não se esforçou a aprender as suas maiores lições: amor e verdade. Para aqueles que acreditam na Bíblia, como os 15% de evangélicos que existem nesta pátria mãe gentil, esses ensinamentos deveriam se tornar uma constante. Mas não é bem assim que a banda toca.

Evangélicos até bem pouco tempo eram uma minoria da população. Ou melhor, continuam sendo, afinal, 15% não denotam uma maioria. Porém, há uns vinte ou trinta anos esse contingente era ainda menor. Com uma sociedade mais voraz, a religião se tornou uma excelente válvula de escape para muitos aflitos. Algo que se diz sempre em igrejas evangélicas é “todo crente é ex-alguma coisa”. E pode observar. É uma verdade. Todo evangélico é ex-alguma coisa. Ex-drogado, ex-bandido, ex-bígamo, ex-enfermo… A religião (incluo todas aqui, não apenas as igrejas evangélicas) funciona como um alento a um coração ferido. Lá ele sempre vai encontrar perdão àquilo que seu super-ego julga ser absolutamente cruel. É uma never ending terapia, sem a supervisão de especialistas e médicos. Os tarjas pretas são substituídos pelas capas pretas dos livros sagrados (bíblia, torá, corão, etc). É teoricamente mais barato e dura toda uma vida, com promessa de alta do tratamento após a morte. E se você pensar, em qualquer momento, abandonar o tratamento, prepare-se para todo o terror psicológico. Eu conheço bem como tudo isso funciona. Não precisa vir aqui me explicar.

Com o crescimento das igrejas e como os fiéis levam a sério a questão de FIEL, a fidelidade fica até na hora do voto e temos hoje 72 deputados federais que compõem a “frente parlamentar evangélica”, que não tem nenhuma ideologia política, apenas religiosa. São deputados de diversos partidos, esquerda, direita, centro, situação, oposição… Todos unidos por um único motivo: o amor de cristo. Vamos a parte que nos cabe nesse latifúndio: partindo da ideia que Jesus é verdade e amor, tão logo, os cristãos deste país deveriam prezar por esses sentimentos. E não é bem isso que tem acontecido por aí. Em meio a tudo aquilo que aconteceu ontem, com a bancada evangélica fazendo chantagem (que eu não sei se é pecado ou não, mas certamente é crime) tanto com ruralistas, quanto com a Presidenta Dilma, foi apresentado o material didático para o kit anti-homofobia, que automaticamente foi descartado e derrubado pela presidenta. Pois bem, agora vem o momento em que deveriamos aplicar o que diz João 8:44, onde aprendemos que o diabo é o pai da mentira. O kit apresentado pela bancada, liderada pelo senhor Anthony Garotinho (aquele que tem um monte de processos nas costas), era FALSO. Utilizaram o material de prevenção a DSTs destinado a transexuais e travestis como se fosse o kit-anti-homofobia que seria distribuído nas escolas. Criaram um factóide para prejudicar uma população que já é massacrada todos os dias. Lógico que a presidenta não é inocente na história, afinal, ela aceitou as condições da bancada como moeda de troca pelo fim do buzz que acontecia.

Aí paramos pra pensar: onde está a ética e inclusive tudo aquilo que foi ensinado na bíblia a essa gente quando estamos tratando de quebrar as barreiras do preconceito e tornando a sociedade algo mais igualitário? Em discurso liderado pelo tucano João Campos, a bancada afirmou defender os interesses de 50 milhões de brasileiros (correção ao deputado, 15% de 200 milhões = 30 milhões) e que uma minoria não poderia se sobressair sobre uma maioria. Ok, e os outros 150 milhões de brasileiros? Como ficam? Sem representação? A maioria não tem direito representatividade para a bancada? Não é do interesse dos deputados abrir o diálogo e ver aquilo que é interessante para toda a nação, sem esquecer de dar atenção às minorias como negros, mulheres, religiosos obviamente, LGBTs, deficientes e tantas outras que se misturam e formam a cultura brasileira? Ou será que a eleição só é válida para atender ao Senhor? Não seria mais fácil, então, continuar na Igreja e pregando o evangelho?

Um questionamento muito forte que tenho a todas as religiões e seus líderes religiosos: vocês sabem a origem do dinheiro de vocês? Podem comprovar a origem lícita de cada doação? Todas as igrejas, templos e outras denominações devem sim pagar impostos, como qualquer outro estabelecimento (uma vez que centros religiosos têm renda e empregam muita gente) e listar o CPF/CNPJ de seus colaboradores. Muitas igrejas são utilizadas hoje pelo tráfico para lavagem de dinheiro. Perceba que não estou falando de todas. Existem sim igrejas que são financiadas pelo tráfico. E enquanto a gente não criar mecanismos pra impedir o avanço do tráfico de nada adianta fazer campanha bonitinha. Você sabia que com pouco mais de 400 reais você abre uma igreja em cinco dias? Deus demorou seis dias pra construir o mundo. Você só precisa de cinco pra construir a sua igreja! Totalmente livre de impostos satânicos como IOF, IPTU, ITR, IPVA, ISS, Imposto de Renda e ICMS. Para a criação da igreja, você sequer precisa estudar história ou teologia, nem ter seguidores. Basta registrar uma assembléia de fundação e o estatuto social em um cartório e pagar as taxas que contabilizam o astronômico valor de R$418,42. E o governo não pode lhe negar esse “benefício”. O primeiro parágrafo do artigo 44 do Código Civil é bastante claro no que se refere a isso: “São livres a criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento das organizações religiosas, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento ou registro dos atos constitutivos e necessários ao seu funcionamento“. E há pastor que diga que os homossexuais querem se tornar “uma raça superior”. Eu não tenho essas vantagens por amar outro homem. Pelo contrário. Só tenho prejuízo. Não tenho os mesmos direitos e muito menos essa facilidade ao abrir uma micro-empresa.

Acho curiosa a questão do porquê as igrejas gostarem tanto de agredir os homossexuais. Com tanta coisa acontecendo no mundo, transar com alguém do mesmo sexo é a maior mácula da humanidade? Se estamos falando em preservação da família, porque os nobres senhores deputados e os nobres senhores líderes religiosos não passam a utilizar o tempo e dinheiro que lhes são empregados no combate a violência doméstica, ou as drogas que desestruturam tantas famílias, ou até mesmo um pedido a todos os fiéis que doem órgãos e sangue para ajudar a família do próximo, ou quem sabe ainda pedir CPI (já que a galera gosta disso) das fronteiras, para saber de onde e como tanta droga e arma entra nesse país. Brigar na câmara por mais saúde e melhor educação, ampliação dos sistemas de ensino superior. Poderia passar um bom tempo dando sugestões do que fazer em favor da família, já que a intenção central da bancada evangélica é “proteger a família brasileira”. Mas automaticamente lembro que isso não seria tão interessante, pq uma vez que resolvemos educação, saúde, violência, trafico, problemas sociais, todos aqueles “ex-alguma coisa” que citei lá em cima deixariam de existir. Taí, prejuízo a longo prazo. Melhor nem tocar nesses assuntos.

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Kit anti-homofobia: tem, mas acabou.

Sou eleitor da Presidenta Dilma. Tenho bastante orgulho de ter transformado uma torturada pela ditadura militar na primeira presidenta do Brasil. Foi bonito ver a história se construindo e ver como o retrocesso filosófico representado por José Serra caiu por terra. Votei em Dilma, primeiramente, por ela representar a continuidade de um projeto que estava (e está) dando certo. O Brasil melhorou – e muito – nos últimos oito anos. Não adianta bater na tecla de “mas o governo é corrupto”, por que o governo FHC, Itamar, Collor, Sarney etc também sofreram seus duros golpes de maracutaia. Não seria o governo petista que passaria incólume a esse momento desagradável para a democracia. Reconheço o trabalho do governo Lula, continuado por Dilma. Não poderia ser egoísta e votar unicamente pensando nos meus interesses. Sei o quanto é importante para tantos as evoluções que tivemos e isso me faz muito orgulhoso de ter votado em Dilma Vana Rousseff. Duas vezes.

Óbvio que política é a arte de fazer alianças e ceder quando necessário. Não se governa sozinho e a campanha presidencial de 2010 foi uma das mais sujas de todas. Quando temos como tema principal durante a campanha a legalização do aborto (ou sua descriminalização) e o principal cabo eleitoral se torna Deus, alguma acontece no coração desse lindo Estado que se diz laico. Pois bem. Os dois candidatos assinaram acordos com evangélicos, católicos, espíritas, judeus blablabla de religiões e todo mundo firmou aquela amizade bonita. Quem tem o mínimo de visão sabia, de longe, que isso não daria muito certo.

Voltemos para 2011 (o ano que a Terra parou). Em menos de vinte e quatro horas tivemos dois episódios deprimentes em Brasilia: primeiro a bancada evangélica (ou “frente parlamentar evangélica”, como se auto-intitulam) decidiu fazer um acordo com a bancada ruralista na câmara dos deputados para, quem sabe assim, conseguirem a derrubada da PLC 122 (criminalização da homofobia). Resultado favorável aos ruralistas, todos aqueles que cometeram crimes ambientais serão anistiados e uma série de reformas questionaveis numa sociedade que cada vez mais busca a sustentabilidade foram aprovadas. One step back. Ou seja: 72 deputados, para manter o discurso deturpado sobre a PLC 122, reclamando a liberdade de expressão, como se o texto não tivesse sido revisitado propondo alterações favoráveis ao fundamentalismo cristão, decidiram que era hora que é queima de estoque de florestas e mananciais. BORA GASTAIRE GALERA! Ando sonhando com o dia que a Ricardo Eletro vá fazer uma liquidação de bom senso pra ver se essa gente compra algum. Vender o país em nome da fé. Great!

Em seguida, em meio a ressaca da porrada que o governo federal (contrário a reforma florestal), alguns deputados aproveitaram a fragilidade que vive o Governo Federal nas últimas semanas para chantagear a Presidenta Dilma. Ou ela boicotava o kit anti-homofobia*, ou a câmara dos deputados convocaria uma CPI para investigar o enriquecimento de Antônio Palocci, ministro da Casa Civil. Observem o grau de gravidade disso:

1) Palocci pode ter envolvimento com algo ilícito, porém nada ainda foi provado. Por mais que existam motivos para desconfiança, ninguém se pronunciou. Nem mesmo o governo, que erroneamente está se blindando para encobrir o caso e proteger a imagem. O mais certo seria um pronunciamento oficial sobre o caso. Porém, nada disso foi feito;

2) A bancada evangélica, que prega a moral e os bons costumes na terra, abre mão de investigar um suposto roubo (lembrando que “não roubarás” é um dos 10 mandamentos) em prol de manter milhares de homossexuais e transgêneros sofrendo bullying nas escolas;

3) Torna-se preferivel atender as chantagens de um grupo representante de uma minoria (porém barulhenta) face a omissão de uma investigação necessária para acalmar os nervos da população;

4) Ou seja, só se trabalha em prol do país, visando questões vitais como meio ambiente e contas públicas, quando temos o artifício da chantagem e da troca de favores. Se for pra ser assim, vamos dissolver a câmara e instituir um regime teocentrista como acontece no Oriente Médio;

4) Ir em desacordo com um material desenvolvido e aprovado com ajuda da UNESCO em prol dos direitos humanos é absolutamente normal. Ruim é ensinar a igualdade nas escolas;

5) Ignorar completamente o discurso de posse e de candidatura, onde os direitos humanos seriam privilegiados.

É algo tão incabível, que eu poderia passar meu dia listando os absurdos. Pois bem, além de tudo isso, uma questão importante a ser levantada é: o Brasil hoje vive uma cruzada anti-bullying. Um trabalho árduo e louvável. Por que a homofobia, uma das formas mais perversas de bullying, não deve ser tratada nas escolas? Tratar da questão da homofobia não exclui o bullying racial, de recorte de gênero, social, físico ou qualquer outro. Apenas complementa. O material desenvolvido pelo MEC, com auxílio de ONGs e orientado e aprovado pela UNESCO, visa a qualificação dos profissionais de ensino público no Brasil. O material é sério e não uma série de filmes pornôs só para baixinhos. É educar primeiramente os professores sobre as questões de sexualidade. Nesse ramo entra muito mais que educação. É algo de saúde pública que está sendo abandonado. Quantos jovens homossexuais e transgêneros se suicidam neste país por não aguentarem a pressão do bullying nas escolas? Você sabia que 90% do público transgênero abandona a escola, o que incide diretamente na prostituição (muitas vezes, infantil)? O intuito do kit-anti-homofobia não é aliciar menores ou fazer apologia a homossexualidade. É uma muleta aos profissionais para termos uma educação mais igualitária e social. O material foi desenvolvido para o ensino médio, o antigo segundo-grau. Não para crianças. Estamos falando de/com uma geração extremamente sexualizada desde muito cedo e essa geração deve saber com clareza sobre sexo, não importante sua orientação sexual. Concordo que os vídeos são péssimos. As produções são precárias (salvo o filme lésbico, que achei sutil, delicado e pontual). Não gosto dos roteiros e da estética. Não pela agressividade ou ousadia. Por achar que infantiliza, no sentido de tornar débil, uma questão que é mais madura e voltada a uma outra idade. Porém esses vídeos produzidos pelas ONGs a pedido do MEC não são para exibição para crianças de sete anos de idade. São mais uma muleta ao professor. Em caso de algum incidente de homofobia, temos um material a ser trabalhado.

Caso a Presidenta falasse para rever algum ponto do material que ela estaria em desacordo, como pronunciaram sobre seu futuro veto a reforma do código florestal, eu concordaria. Deve existir debate. Tanto na agenda ambientalista quanto dos direitos humanos. Mas utilizar gente como moeda de troca de favores? Não, né Presidenta? Por favor, me faça continuar orgulhoso do meu voto.

* Para entender melhor sobre o kit anti-homofobia, colo aqui a explicação da Carta Capital sobre o assunto, colocando meus comentários em cinza nos parenteses ao lado:

Destinado ao Ensino Médio, (ou seja, não estamos tratando de crianças, mas de adolescentes com mais de 14 anos) o kit é composto de caderno, pôster, carta ao gestor da escola, seis boletins (boleshs) e cinco vídeos. “É um material para a promoção dos direitos humanos, com o objetivo de fazer da escola um espaço de todas as pessoas, onde se possa aprender a conviver com a diversidade”, justifica Maria Helena Franco, uma das coordenadoras de criação do kit de material educativo. Considerado peça-chave do kit, o caderno é um livro de 165 páginas, no qual o educador (vale repetir: o educador, não o aluno) encontra referências teóricas, conceitos e sugestões de atividades e oficinas para se trabalhar o tema da diversidade sexual nas escolas. “O caderno ensina como fazer um projeto político-pedagógico a ser assumido pela escola como um todo sobre esse enfrentamento da violência homofóbica”, conta Maria Helena. Escritos em linguagem jovem e acessível, os boletins seriam distribuídos entre os estudantes e também tratam da temática da diversidade sexual, com jogos, depoimentos e sugestões de filmes (ou seja, atividades escolares, como temos atividades que tangem ao racismo, a misoginia, a intolerância religiosa e tantos outros temas).

Entretanto, o objeto de maior polêmica é a parte audiovisual do kit, que inclui três pequenos vídeos produzidos especialmente pela ONG Ecos, que trabalha com o tema desde 1989. Produzidos com diferentes estéticas – teledramaturgia tradicional, animação de fotos e desenhos – os vídeos abordam de forma coloquial temas específicos como lesbianidade, transexualidade e bissexualidade. “São temas muito estigmatizados e pouco compreendidos”, explica Vera Lúcia Simonetti Racy, uma das coordenadoras da criação do kit do material educativo.

Criado por uma equipe multidisciplinar, o kit completo levou cerca de dois anos para ser pesquisado, construído e validado. Apenas o roteiro de um dos filmes, sobre o namoro de duas meninas, demorou oito meses para ser aprovado.

Ousada e polêmica, a proposta do material educativo atende a uma demanda das entidades que lutam pelos direitos LGBTs e também dos educadores – que não encontravam subsídios para trabalhar o tema em aula – além de estar articulada com políticas públicas de combate à homofobia de maneira geral. “O que a gente quer é que o professor esteja atento a essa situação de homofobia. A escola precisa ser um espaço de respeito e de formação cidadã.”, conclui Carlos Laudari, presidente da ONG Pathfinder.

Pequeno manual de verbetes LGBT para você jornalista lindo nunca mais falar O TRANSEXUAL ROBERTA CLOSE.

Olá lindas e lindos, hoje vou ensinar em poucas lições como redigir um texto sem ofender a comunidade LGBT e explicar o porque do uso destes termos. O objetivo desse post não é, em absoluto, ofender a classe jornalistica, mas elucidar algumas questões que ficam pendentes sobre os termos a serem utilizados. Assim como negros, judeus, mulheres e outras minorias pedem alterações de alguns termos para se sentirem contemplados (e hoje muitos deles foram aderidos), com o debate sobre os direitos LGBTs em polvorosa achei interessante pôr em pratos limpos algumas expressões para que nossos textos sejam mais coerentes com todos.

ORIENTAÇÃO SEXUAL, POR FAVOR.

Lindos, nunca usem o termo “opção sexual“. Ofende profundamente o movimento LGBT. Uma vez que não fazemos escolhas sobre nosso desejo sexual (ou alguém se lembra quando escolheu ser hetero?), o termo “opção” torna-se pejorativo quando falamos sobre lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. O termo correto para falar sobre sexualidade é “orientação sexual”, uma vez que desejo sexual nos orienta a essa ou aquela forma.

LGBT IS THE NEW GLS

Algumas pessoas ainda usam o termo “GLS”, datado da década de 70, quando não existia um questionamento mais profundo sobre os direitos homoafetivos. O termo LGBT contempla lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Outros preferem utilizar LGBTT para dar voz a travestis e transexuais separadamente e não @s aglomerando num grupo “transgênero”. A ordem L-G-B-T é em respeito ao movimento feminista, uma das bases do movimento LGBT, portanto, além de homenagear as mulheres que lutaram pelos seus direitos, a sigla L vem a frente por questões de visibilidade lésbica. E lembre-se: GLS pode ser usada apenas para fins comerciais, como lojas, hotéis, boates, bares e clubes chamados “gay friendly”. Em geral o termo tem caído em desuso, mas sua conotação hoje é muito mais comercial do que política.

HOMOSSEXUALIDADE SIM, HOMOSSEXUALISMO NUNCA.

Judeus lutaram por muito tempo para o desuso da palavra “judiar”, que era algo que tornava ofensivo para os praticantes de tal religião. O mesmo se aplica a expressão “homossexualismo”, que remete coisas terríveis aos LGBTs. O termo “homossexualismo” foi criado durante o nazismo para denotar que o comportamento pederasta era uma doença. Em 1990, quando a OMS retirou a homoafetividade do seu catálogo de doenças, entendendo que é uma expressão da sexualidade, passou-se a usar o termo “homossexualidade”, uma vez que todo ser humano tem uma sexualidade, sendo ela homo, hetero, bi, pan ou assexuada. Então, em respeito a todos os homossexuais que sofreram por conta do nazismo, abortou-se o sufixo “ismo” e adotou-se “homossexualidade”, ou “homoafetividade”, ou em outros casos, “homoerótico”.

TRAVESTIS E TRANSEXUAIS NÃO SÃO HOMOSSEXUAIS

Essa parte parece complicada, mas não é. A sexualidade humana não é dada pelo sexo biológico (aquele que você nasceu), mas pela identidade de gênero (como você se identifica sexualmente). Ou seja, se você nasceu homem, se identifica como homem e tem atração por mulheres, você é heterossexual. Se você é mulher, se identifica como mulher, mas sente atração sexual por outras mulheres, você é homossexual. No caso de uma travesti que nasceu homem, mas se identifica como mulher e tem atração por homens ela é considerada heterossexual. Como a identificação dela é feminina, então ela é hetero. Inclusive se você conversar com muitas travestis, elas não se identificam como gays, simplesmente por que não são. São mulheres que nasceram em corpos masculinos. Porém, se a travesti (nascida homem e com identidade de gênero feminina) se envolve afetivo/sexualmente com outra travesti ou uma mulher, aí sim ela é homossexual. Pode parecer impossível, mas sim, existem travestis e transexuais homossexuais.

O TRAVESTI E A TRAVESTI SÃO BEM DIFERENTES

Um ponto que fere profundamente o movimento transgenero é a questão do recorte de gênero, como elas e eles são tratad@s. Bem, se é uma travesti/transexual MTF (male to female, ou seja, nasceu homem e identifica-se como mulher), sempre a trataremos no feminino. A travesti Luisa Marilac, por exemplo. Ou a transexual Ariadna Arantes (para citar as mais recentes). Utilizamos o gênero masculino em casos de transgeneros FTM (female to male, tão logo, mulheres que se identificam como homens), como por exemplo o filho da cantora Cher. Por uma questão, primeiramente, de respeito, devemos utilizar o tratamento correto. É agressivo demais a uma travesti ser chamada pelo nome de registro e ser tratada o tempo todo no masculino. Causa constrangimento e tristeza.

HERMAFRODITAS NÃO EXISTEM

Muita gente exemplifica Roberta Close como hermafrodita. Péssima notícia: não existem hermafroditas na espécie humana. Para um animal ser considerado hermafrodita deve ter em sua estrutura tanto o sistema reprodutivo feminino quanto masculino. Exemplo disso são as minhocas. O mesmo se aplicaria a espécie humana. Até hoje não foi registrado nenhum caso parecido na literatura médica. O que existe em nossa espécie é a “intersexualidade”, ou seja, pessoas que nascem com os dois sexos, mas sem a capacidade reprodutiva de ambos. Normalmente são crianças com um micro-pênis e uma vulva formada. Porém não podemos determinar na hora do parto se é evidentemente um homem ou uma mulher, e registra-se a criança com um dos dois sexos e num futuro descobre-se, como no caso de Roberta Close, que houve um erro. A estrutura física, psicológica e emocional é toda voltada pro feminino e seu registo é masculino. Além disso, o micro-pênis (que em muitas vezes não é capaz de ficar ereto, devido aos hormonios femininos) incomoda profundamente a intersexual.

TRAVESTI É UMA COISA, TRANSEXUAL É OUTRA

Travestis e transexuais são diferentes. Travestis e transexuais têm em comum a inversão de identidade de gênero (sentem-se como o sexo oposto), mas apenas as transexuais tem ojeriza ao próprio órgão genital ou sofrem do distúrbio de identidade de gênero. Em geral as transexuais tem um processo de aceitação interna muito mais doloroso e para isso enfrentam todo o processo da mudança de sexo. As transexuais podem realizar a vaginoplastia para acabar com o pesadelo do corpo errado, enquanto as travestis não sentem-se incomodadas com o sexo que nasceram. Por conta dos problemas de aceitação, muitas transexuais cometem suicídio por se sentirem aprisionadas num corpo que não as pertence. A cirurgia de mudança de sexo feminino para masculino ainda é bastante experimental e de efeito meramente estético, enquanto a transexualização masculina para feminina é um procedimento relativamente comum e mantém estrutura complexa para que a transexual tenha prazer em suas relações futuras. Como qualquer outra cirurgia podem haver falhas e a operada não sentir mais prazer com a penetração, mas não é uma regra. Muitas transexuais sentem muito mais prazer após a cirurgia.

A PALAVRA É: HOMOFOBIA

A palavra está na moda, mas muita gente não sabe exatamente o que significa. Identifica-se como homofobia o tratamento hostil, agressivo, chulo, discriminatório, preconceituoso, antipático e/ou aversivo a homossexuais, bissexuais e transgêneros (esses, em alguns casos, pedindo o uso do termo transfobia, por não se sentirem contempladas no termo homofobia, como expliquei lá em cima sobre a identidade de gênero trans). Em suma, é o mesmo que o racismo, porém com LGBTs. Por isso o apelo ao fim da homofobia no Brasil e a aprovação de leis, como aquelas criadas em prol dos negros, para criminalização da homofobia. No Brasil a cada dois dias um homossexual é assassinado. Segundo levantamento feito em abril de 2011, 60% das empresas não gostariam de ter funcionários homossexuais em seu quadro. Em escolas de todo o país, mais da metade dos alunos dizem-se não ser favoravel a homossexuais e transgêneros dentro de salas de aulas. No Brasil mais de 90% dos transgêneros evadem das escolas por conta da transfobia. A homofobia, assim como o racismo, é uma forma de bullying ainda muito recorrente no Brasil. Não é considerado homofobia a pregação religiosa sobre a homossexualidade que algumas religiões praticam, porém, caso o discurso tenha cunho agressivo e incitação a violência, pode-se considerar homofobia. O projeto de lei complementar que criminaliza a homofobia no Brasil (PL 122), prevê que agressores de homossexuais poderão ser presos com penas de até 5 anos. O mesmo projeto de lei, revisitado recentemente, deixa bem claro que a liberdade religiosa não poderá ser afetada mediante tal projeto de lei.

Espero ter contribuído com todos para revisões e esclarecimentos. Acredito que muitos redatores e jornalistas usam os termos errados não por preconceito, mas por pura falta de conhecimento no assunto. Não é má vontade. É pura desorganização do movimento LGBT em deixar claras as questões que nos atingem. Qualquer dúvida, podem deixar comentários que vou atualizando o post. 🙂

Voltamos ao século XV ou é impressão minha? #vivaadiferenca

Esse post eu publiquei originalmente no @MobilizacaoBR e resolvi trazer pra cá. 🙂

(essa foto não foi tirada ontem a tarde. pode não parecer, mas essa ilustração é uma montagem)

Ah, a internet! Essa maravilha que se popularizou no século XXI. Com este advento hoje qualquer um pode ter voz, opinião. Não dependeriamos de um “formador” para sermos representados. Aqueles velhos dias de cão de grito entalado na garganta acabaram desde a explosão das redes sociais. Isso é ótimo para nós. Dá abertura ao debate. Um milhão de ideias por segundo! É tanta informação que a gente não sabe o que fazer com ela. E com isso, não se informa de absolutamente nada e volta a estaca zero, esperando os bálsamos dos formadores de opinião. Já dizia Mark Bauerlein que nossa geração louva o uso incessante dos dispositivos digitais, o que criou um “casulo” em torno dos jovens, que só se relacionam entre si, 24 horas por dia, sete dias por semana. “A falta de contato com os adultos impede os jovens de crescer.”, afirma Bauerlein.

Primeiro eu me preocupei bastante com a questão do politicamente correto voltar a baila. Depois da ditadura formalizou-se que tudo era permitido e a gente andou bem tolerante (se é que podemos usar essa palavra) com quase tudo. Humor era humor e informação era informação. Fim. O que não era pra ser levado a sério não tinha relevância. Daí tudo se complicou, porque tudo era piada. Inclusive coisas sérias. Então começaram os movimentos sociais a reinvidicar, cobertos de razão, um pouco mais de respeito. Isso deu caminho para uma série de ataques a qualquer coisa. Tudo é racismo, tudo é homofobia, tudo é intolerância religiosa. Calma, não é bem assim. Nesse passo estamos caminhando para uma ditadura moral. Existe tudo isso, mas não nessa proporção galopante. Ou não existia. Até 2011.

Desfeito o mito do politicamente correto o povo desembestou a falar as maiores barbaridades em nome da “liberdade de expressão”, ignorando completamente o conceito de que a minha liberdade termina quando a do outro começa, como vovó já dizia. Por sinal, duvido que vovó tivesse tantos problemas com aquilo que falam. Parece que em 1930 minha avó era bem mais moderna que os jovens de hoje. Todo mundo sabia o que era polido e o que era imbecil. A gente se imbecilizou. E os imbecis, por serem numerosos, dominaram o mundo, como previa Nelson Rodrigues. Hoje as pessoas não prezam mais pelo respeito, pela vida em comunidade, pela vida do outro. Nossos pais queriam mudar o mundo e nossa geração quer que o mundo se mude para nós. Se continuar assim, prefiro me mudar do mundo.

O povo brasileiro que sempre foi aplaudido no mundo por ser uma gente que respeita e trabalha se acomodou com esse status e tudo agora dá abertura para jogar pedra na Geni. Quando Dilma Rousseff foi eleita presidenta tivemos um exemplo puro de ódio com Mayara Petruso convocando paulistas a matarem um nordestino por dia para “fazer um favor” ao país. Dia desses vi uma reportagem de um grupo de Skinheads orgulhosos de materem e espancarem homossexuais, não obstante as declarações de figuras como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano contra a igualdade de direitos. Durante a eliminação do Flamengo pelo Ceará, milhares de mensagens contra nordestinos pipocaram o Twitter. Dia desses um jornalista esportivo decidiu sair em defesa da homofobia por conta de um jogo de vôlei. Em meio a tragédia de Realengo todos acusaram o assassino de ligações com o Islã sem qualquer referência. Temos notícias frequentes de que o racismo está crescendo no Brasil e o machismo parece que virou uma virtude. Essa semana um rapaz foi assassinado em Santa Catarina porque flertou com uma moça que não quis sair com o assassino. E como cereja deste bolo, temos dois humoristas (sendo um deles “a arroba mais influente do twitter”) brincando com coisas como estupro e holocausto. Voltamos ao século XV? Nossa mentalidade regrediu desta forma porque raios? Nem nosso pior pesadelo de “Circo dos Horrores” seria tão grotesco.

A gente (quando digo “a gente” me refiro a todo o BraZil) se desacostumou com o diferente. E aqui não tem movimento político partidário que explique esse movimento. É meramente comodismo e reduzir o mundo a um computador. Negros, muçulmanos, judeus, gays, mulheres, nordestinos, idosos, deficientes, enfermos… todo mundo agora é fora da órbita que uma superioridade espera. E se você está fora deste padrão branco-cristão-hetero-macho-(não homem, macho) -jovem-saudável-bonito-classe média, você merece ser ofendido, ter seus direitos negados e, com a sorte de um novo Deus que surge em nossa televisão, ser espancado até a morte.

O momento se tornou tão crítico do ódio àquilo que é diferente que não existe mais espaço/razão pra se protestar contra a homofobia, ou contra o machismo, ou contra o racismo, ou qualquer expressão específica de ódio. O pavor se generalizou. Chegou ao ponto de acharem que matar animais por prazer ou estilo é aceitável. E quem é contra merece ser apunhalado. A internet tornou-se o antro da livre opinião, desde que seja a mesma, senão o sangue escorre.

Proponho, com isso, que nosso foco seja a diferença. Que exaltemos nossas diferenças. O ódio cria o medo e o medo nos calará muito em breve. E com isso, a democracia foi pro espaço. A beleza do mundo está em nossas diferenças e isso nos faz evoluir. A diversidade faz que não fiquemos inertes e compreender o outro. O estrangeiro ao nosso mundo é sempre mais fascinante que nosso casulo. #vivaadiferenca. Vamos emplacar?

Deus é o mesmo: hoje, ontem e sempre. Só que ao contrário.

Enfim, após anos de luta, a união homoafetiva foi reconhecida como legítima pela justiça brasileira. Tudo graças a um pedido do Governador Sérgio Cabral e uma ação de inconstitucionalidade do artigo 266. Tudo muito bonito, tudo muito feliz. Para os homossexuais é um avanço. Para os heterossexuais não significa absolutamente nada. É meramente o reconhecimento que a constituição é igual para todos e, se gays e lésbicas pagam os mesmos impostos, têm que existir a contemplação dos mesmos direitos. Obvio que em meio a isso tudo alguns religiosos xiitas decidiram atacar homossexuais baseando sua defesa na bíblia, ignorando que esta é uma votação jurídica. O principal argumento é a passagem bíblica Levíticos 18:22 e que, com isso, Deus é o mesmo ontem, hoje, amanhã e sempre. Partindo deste princípio, a imutalidade de Deus, vamos a algumas considerações que gostaria que todos os cristãos dessem 10 minutos de atenção:

1) Devo hoje manter um altar em casa para o sacrifício de touros, uma vez que o aroma da fumaça agrada ao Senhor, segundo Levíticos 1:9?

2) Minhas amigas frequentemente menstruam, afinal, é da natureza delas. Baseado em Levíticos 15:19-24. Não poderia eu ter qualquer contato com elas. Nem sequer com minha mãe. Como explico para elas que elas são inferiores e sujas?

3) Em Levíticos 25:44 sou permitido ter escravos, sendo homens ou mulheres, desde que sejam de países vizinhos. Gostaria de saber, num país continental como o Brasil, se devo comprar argentinos, paraguaios, uruguaios ou colombianos. São muitas opções, então não sei como escolher.

4) A bíblia, em Êxodo 21:7 diz que poderei vender minhas filhas como escravas. Achei genial essa idéia. Caso possível, posso inscreve-las em sites de compras coletivas para facilitar a vontade de Deus?

5) Êxodo 35:2 diz que aquele que trabalha aos sábados deve morrer. Eu concordo, afinal, é um dia sagrado e deve ser bem aproveitado na praia. A questão é: devo matar os vendedores das praias com apedrejamento ou chibatadas serão satisfatórias aos olhos de Deus?

6) Fiquei sabendo através da Bíblia que não posso tocar pele de porco morta, segundo Levíticos 11:6-8. Isso quer dizer que todos aqueles que comem um torresminho devem ser exterminados? E aqueles que comem moluscos, que pela passagem Levíticos 11:10 é uma abominação, assim como a homossexualidade? Estou um pouco confuso.

7) Atualmente tenho 0,75 de miopia e astigmatismo. Caso compre óculos poderei voltar a olhar para o Altar do Santíssimo ou devo obedecer Levíticos 21:20 e não olhar para tal lugar caso minha visão não esteja 100%?

8) Por Levíticos 19:27 aprendemos que homens não podem aparar sua barba e muito menos o cabelo das têmporas. Tenho deixado minha barba o máximo de tempo possível intocável, mas dia desses aparei com uma gillette. Eu poderei ser apedrejado por isso ou Deus é amor e me perdoará por tamanha barbárie?

9) Minha mãe tem uma hortinha em casa e plantou, na mesma propriedade, duas sementes diferentes. Lendo Levíticos 19:19 descobri que isso é pecado. Devo espancá-la?

10) De vez em quando vejo algumas pessoas, quando algo de ruim acontece, falarem alguns palavrões e blasfemarem bastante. Como faço para convocar toda a cidade para apedrejar essa gente pagã, conforme orienta Levíticos 24:10-16?

11) Muita gente usa carteira de couro, roupas de algodão e peças íntimas com lycra. Segundo Levíticos 19:19,  isso é pecado, uma vez que não podemos utilizar dois ou mais tipos de tecido ao mesmo tempo. Devo queimar todas as minhas cuecas?

Fica a dúvida, frente a essas passagens bíblicas: Deus é o mesmo hoje, ontem, amanhã e sempre? Ou ele se adapta a sociedade, ou melhor, os interessados o adaptam aos novos interesses? Já expliquei uma vez, mas vale a pena reforçar: Jesus Cristo em nenhum dos quatro evangelhos se mostra contra a homossexualidade. A Igreja (que não foi fundada por Cristo, ela só nasceu alguns séculos depois) é contra a homossexualidade unicamente por questões financeiras. Homossexuais teoricamente não podem ter filhos (adoção e fertilização in vitro estão aí pra provar o contrário), tão logo representam menos doações futuras. O que todas as religiões fazem questão de esquecer é que existe um caso homossexual na bíblia entre Jonatas e Davi. E com a interpretação integral da bíblia, como cristãos xiitas gostam de fazer, o incesto é permitido por Deus, basta ver os casos de Ló e Adão e Eva.

Por último, mas não menos importante: CHUPA MALAFAIA!

UPDATE: um dos comentários me alertou que já existe um texto parecido com esse circulando pela internet. Bem, eu tenho esses links de contradições bíblicas desde 2008 guardado no meu email, de quando eu trabalhava no projeto “Brasil sem homofobia” do Governo Federal. Apenas os apliquei a um texto. Quem quiser ler o texto, pelo que entendi, anterior ao meu, e sem sombra de dúvidas, muito melhor, basta clicar aqui 🙂

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