Gota D’água

O Movimento Gota D’Água é uma iniciativa que pede que o Governo gentilmente pare a idéia de construir a Usina Hidroelétrica de Belo Monte. Até aí, muito bonito. Não que eu ache DEVEMOS parar com Belo Monte. Não. A gente deve discutir melhor o impacto ambiental e social de tal construção. E isso não se faz de uma hora pra outra. Em um vídeo repleto de ironia e com estrelas duvidosas como Bruno Mazzeo, Letícia Sabatella e Maitê Proença.

Primeiramente observamos que vilanizam completamente a usina. Reafirmo que é necessário debate. Não é questão de ser contra Belo Monte ou a favor. Sou partidário do debate amplo sobre o assunto. Portanto, não há que se colocar mocinho ou bandido nessa história. Coloquemos na balança o que é bom e o que é ruim. Prós e contras. Existe impacto ambiental? Sim, bem como construir qualquer outra coisa nesse mundo gera, por menor que seja, algum tipo de impacto no meio ambiente.

Outro ponto que chama bastante atenção é a indignação da “classe artística” com o uso de dinheiro público para a construção de uma usina hidroelétrica. Pois bem, se o dinheiro arrecadado de maneira voraz pelos impostos no Brasil não serve para isso, para que ele serve? Pra financiar filme engraçadinho do Bruno Mazzeo? O dinheiro da arrecadação dos impostos, além de ser para investir em saúde, educação, segurança e transporte, também serve para investir no setor energético, bem como outros setores estratégicos. Ou você acha que quando a Bíblia conta que Deus ordenou que se fizesse a luz ela está falando da energia elétrica que liga seu lindo computador para que você leia esse texto?

Belo Monte vai destruir, vai sacudir, vai abalar? Vai. Então vamos ver outras formas de energia limpa e viáveis. Sugestões concretas? Bem, o vídeo fala sobre energia eólica e energia solar. Se existe a reclamação de gastar o dinheiro público na construção de uma usina na casa dos R$30 bilhões, ninguém vai reclamar dos custos de outras formas de energia? Saiba que as duas sugestões do vídeo (que não apresenta qualquer orçamento ou proposta) tornam o valor do kilowatt muito mais caro. Ou seja, primeiro argumento, sobre os valores, foi pro espaço.

Agora vamos ao impacto ambiental e todas as frases de efeito como “seria energia limpa se fosse construída no deserto”. Belíssimo texto, parabéns. Realmente Belo Monte causaria uma tragédia em seu projeto original e precisa ser modificado, como está sendo feito. O senhor e a senhora que compartilha tal vídeo e acha que “nossa, mudei o mundo, mereço até um abraço!”, já conferiu o impacto ambiental que faz todos os dias? O pacotinho de biscoito que você joga pela janela, ou o lixo que você não separa nem entre orgânico e inorgânico, ou o carro que usa pra ir de casa pro trabalho enquanto poderia usar metrô ou ônibus? Isso só como exemplos bem simples. É a velha história de todo mundo querer mudar o mundo, mas ninguém quer lavar a própria louça.

Sem contar que eu esperava um pouco mais de criatividade, né pessoal? Esse vídeo de vocês ficou bem parecido (pra não dizer plagiado) dessa campanha norte-americana de 2008 sobre as eleições.

Por fim, o que Dona Maitê Proença acha que vai mudar no mundo, além de me tirar a vontade de almoçar, ao tirar o sutiã pra ~ficar mais confortável~?

Usina velha é que faz comida boa!

Todo mundo já sabe que Lula tem um tumor. A grande mobilização para que Luiz Inácio trate de sua doença no SUS tomou conta da internet no fim de semana. Eu concordo! Acho que Lula deveria se tratar no SUS. Mas a escolha é dele e de sua família. Onde ele vai se tratar não me compete. Mas acho que o ideal mesmo seria Lula se tratar no SUS. Afinal, não é qualquer rede de saúde que tem 98% de aprovação, como o Instituno Nacional do Câncer. Seria uma excelente oportunidade de ver Lula bem muito em breve. 80% dos casos de câncer no Brasil são tratados pelo INCA, que, para os bem informados, é integrante do Sistema Único de Saúde.

O que eu não aguento é ver gente pseudo-politizada repetindo um mantra de “morra logo” ou “castigo divino” sem um pingo de senso crítico. Como se não fosse impactante e doloroso o bastante uma pessoa ter um tumor, ainda ter que se deparar com a pior face do comportamento humano é no mínimo para se perder a fé nas pessoas.

Vocês se julgam os mais politizados do mundo ao ordenarem Lula buscar a cura pro seu tumor no SUS. E o argumento é tão e somente esse. Não existe desenvolvimento. Pois bem, alguém me explica qual o motivo de não terem feito o mesmo quando Itamar Franco, ex-Presidente do Brasil tal qual Lula, não ter recebido o mesmo ‘manifesto’; ou Ruth Cardoso, ex-primeira dama do Brasil; não ter sofrido o mesmo tratamento antes de morrer? Ainda temos o exemplo de José Alencar, que era vice-presidente enquanto tratou de um câncer por anos.

A questão é: se Lula se tratar numa rede particular será criticado por “não acreditar no SUS”. Caso ele resolva seguir o conselho de vocês, será criticado porque “tem dinheiro, poderia muito bem se tratar num hospital particular e não tirar a vaga de um pobre”. Por um acaso vocês esquecem que Lula já foi bem mais pobre que qualquer um de vocês que hoje (em boa parte, graças a ele) podem fazer essa piadinha maquiada de manifesto?

Sou eleitor de Lula. Tenho muito orgulho de ter feito um operário nosso Presidente. E o melhor presidente que esse país já viu. E por duas vezes. Justamente por isso, tenho criticas severas ao seu governo. Mas o momento não é de pisar na dor de alguém por ambições políticas e joguetes de interesse. Acho uma imbecilidade retumbante utilizar disso como muleta política. Ainda mais para quem acha que sabedoria política é meramente trocar avatar no Facebook e dar “Sim, eu vou” em eventos como ‘manifesto virtual contra sei lá o que’.

E no fim disso tudo, eu tenho certeza que esse tumor do Lula vai ser só uma marolinha pra aquele que, num país que não tem sistema efetivamente público de saúde, foi chamado de “o cara”.

 

Relutei bastante pra falar sobre o caso Rafinha x Wanessa porque acho uma palhaçada tão grande que bateu uma preguiça absurda. Rafinha é um tiozão que faz piada sem graça, se orgulha de ofender, mas não tem culhão pra aguentar as consequências. Wanessa é casada com um homem rico, está grávida e, por conta disso, vai ficar um tempo de molho e precisa garantir seu nome na mídia com um CD recém-lançado (após muito adiamento). Rafinha manda umas entrevistas “polêmicas”, uns vídeos com seu eterno humor ruim, Wanessa abre um processo em nome do seu feto e daqui a pouco vai parir e sorrir na capa da Caras. Resumo da obra: são duas Attention Whores querendo mais cinco minutos de holofote. Próximo, por favor!

Sinceramente, eu comeria Rafinha Bastos e Wanessa. Com batatas. O bebê eu deixaria pra lá, afinal, ele pode me processar. Mas Rafinha e Wanessa? Ah! Comeria mesmo! Só pra não ter mais que digerir aos poucos essa história. Teria no máximo uma indigestão, tomaria meu Eno e vamos lavar a louça, porque isso sim está em falta no Brasil. Mas como o canibalismo é considerado um crime, e acredito que ambos não sejam tão saborosos quanto minha atual dieta de poucas calorias, vamos deixar os dois se esbofeteando. Vamos ao assunto que me trouxe aqui: a transformação de um babaca em mártir por julgarem seu crime ser menor.

Está rodando uma corrente, num desses “eventos políticos” do Facebook (até quando?), pelos RTs do Twitter e as imagens rebloggadas do Tumblr um manifesto muito coerente [/ironia] dizendo que o Brasil é o país onde “os humoristas são levados a sério e os políticos na palhaçada”, e sugerindo que os usuários dessas redes troquem seus avatares por fotos do Rafinha Bastos como um manifesto a censura do Brasil e contra a corrupção. Eu não sei por onde começar a vergonha que sinto ao ver isso. A imagem mote da campanha expõe Rafinha Bastos como mártir e José Sarney como vilão nacional e contemporizando: por que Sarney e Maluf estão soltos enquanto as pessoas correm atrás do pobre Rafinha Bastos, pobre coitado, com tochas? Olha, uma coisa não anula a outra. Sarney e Maluf são criminosos? Sim. Rafinha Bastos é criminoso? Também. Não é porque uma pessoa fez uma cagada que a outra passa impunemente. Cada um paga por aquilo que fez. Esse discurso de “enquanto tem tanto bandido solto por ai e vocês querendo processar fulano” é tão eloquente quanto “vocês falam sobre direitos humanos enquanto tem tanta criança passando fome”.  Um problema não anula o outro, eles se acumulam. E devemos debater todos. Não é porque eu estou falando sobre determinado assunto que eu vou tentar inserir outra questão no meio. Isso seria oportunismo (além de um bocado de DDA).

Se os políticos do Brasil são levados na brincadeira, a culpa e é única e exclusiva de quem os elege, no caso, você. O mesmo cara que acha engraçado Rafinha Bastos dizer que “mulher estuprada deveria agradecer ao estuprador, pq ele está fazendo um favor” é o que vota em Tiririca como “voto de protesto” e depois reclama que a política nacional está num cenário insustentável. Não que eu ache Tiririca a pior coisa que já apareceu nesse país. Foi eleito democraticamente, não está fazendo um mandato ruim (por enquanto) e temos coisas bem piores infiltradas em Brasília, como Jair Bolsonaro, por exemplo. Tão logo, se você é um revoltadinho com a política nacional, faça por onde: vote direito.

“Ah, mas o humor não pode ter censura”. Concordo. Bem na verdade, nada pode sofrer censura. Um Estado democrático não se faz calando. Porém, é necessário se fazer entender que certas “brincadeiras” ferem a dignidade do outro. Você acha bacana chamar uma criança com Síndrome de Down de “retardada”, “imbecil” e/ou “mongolóide”? Ou ainda é cabível chamar um negro de “macaco”? Isso é censura? Não. É ter noção de que por mais que você esteja brincando, você carrega nessa brincadeira uma carga histórica que fere a vida do outro e não a faz por respeito. É difícil entender que da mesma forma que um negro se sente ofendido por ser chamado de “macaco”, um homossexual vai se ofender se for chamado de “veado” e por aí vai toda a mistura de fauna e minorias que existem com o único objetivo de minimizar o ser humano?

Que tal pensar por outro foco: parar de dar importância a esse quiprocó em busca de popularidade entre Wanessa e Rafinha e começar a se importar com a política, parando com o velho discurso brasileiro orgulhoso do “ah, eu odeio política, acho que ninguém presta, nem gosto de conversar sobre isso”, como se fosse algo bom e louvável. Os que não gostam de política, são governados pelos que gostam, já disse bem Platão. Vamos parar de alimentar esses monstrinhos como Sarneys, Malufs, Rafinhas e Wanessas. Ou melhor, não vamos não. Afinal, todo mundo precisa alguém pra ser odiado. Inclusive eu, que odeio todos vocês que requentam futrica como se fosse notícia.

Senhoras e senhores, esta é a capa da Trip de outubro. Um especial sobre diversidade sexual. Há uns dois meses uma amiga me falou sobre esse tema e até pediu umas sugestões de pauta e enviei. Assim que esbarrar pela revista, vou comprar. Pelos temas que vi na capa, eles fugiram do lugar comum, o que muito me agrada.

Assim que a publicação divulgou sua capa vi muita gente dizendo “nossa, que tapa na cara da sociedade, parabéns Trip” ou então “A Trip fez o que a Globo até hoje não teve coragem de fazer”. Sinceramente, acho que a Trip não deu um tapa na cara da sociedade e muito menos fez o que a Globo nunca teve coragem de fazer. A Trip deu um soco no estômago de todos os gays e fez o que poucos gays tiveram coragem de fazer. Essa edição não é só pra falar com a sociedade heteronormativa, mas pra dar uma bela voadora em tudo aquilo que a massa média LGBT anda fazendo.

O público LGBT hoje conta com duas grandes publicações: a G Magazine e a Junior. A primeira, de conteúdo majoritariamente sexista, com homens de pouca roupa ou nenhuma. Essa publicação tem 13 anos e está sempre por aí desnudando famosos e anônimos, como a Playboy faz para o mundo há anos. A Junior, com poucos anos de banca, é uma revista mais comportada, voltada a um soft porn no máximo e com o enfoque mais jovem, uma espécie de Capricho Gay. Agora pegue todas as publicações. Veja quantas das 33 capas da Junior ou das 163 da G Magazine figuraram um beijo entre dois homens. Vou economizar seu tempo na busca: nenhuma. A G Magazine até publicou um ensaio com Alexandre Frota beijando um rapaz, mas essa foto foi pro interior da revista. É bem mais rotineiro ver trigêmeos nus, ou uma “trilogia do prazer” escancarada do que um beijo como fez a Trip. A Trip não precisou apelar pro sexismo. Não precisou reforçar a ideia do homossexual promíscuo guiado pela libido. A Trip sim respeitou o homossexual. As outras publicações só chumbaram a ideia de sexo-gueto-sexo-diva-sexo-sexo-consumo-diva-sexo.

Você diz que a Trip fez o que a Globo não teve coragem de fazer, mas quantas vezes você já deu um beijo no seu namorado no meio da rua? Nada adianta cobrar uma postura da TV que você não se dispõe a mostrar a sociedade. Quantas vezes você já deu a mão pro seu namorado num restaurante ou tentou não se esconder? A televisão, hoje pelo menos, apesar de todos os chavões em seus humoristicos, coloca o gay numa posição de mínimo respeito em sua teledramaturgia. E você? Se respeita? Respeita a diversidade sexual como um todo? Ou fica com o pensamento que “bissexual não existe, é coisa de homem que não sabe o que quer” ou exclui travestis e transexuais do seu convívio? Sim, porque isso existe no meio LGBT. Então, caros amigos (opa, revista errada), que tal olharmos um pouco mais pro nosso lindo rabinho antes de jogar bosta no ventilador?

Além da beleza da foto, a Trip é corajosa e bate na cara de todos os gays por não colocar esteriótipos ou fetiches. São dois homens. Eles se beijam. E isso basta. Passa a mensagem. A Trip ensina em outubro muito mais do que dizem suas chamadas. Ensina a todo mundo se misturar a população e parar com o pensamento segregado e de coitadismo. Ser gay é um mero detalhe. Ser gay, na verdade, não significa nada. Você é bem mais que com quem você transa ou deixa de transar.

Parabéns a Trip. Parabéns pelo questionamento. Parabéns pela coragem de expor que nós homossexuais não temos a coragem necessária pra mudar tudo. Parabéns por inserir o homossexual no universo. Parabéns por esse soco na boca do meu estômago.

PS: caso algum revoltoso não tenha percebido, uma dica: eu também sou homossexual. A diferença é que não forço uma barra pra me camuflar. Tampouco acho necessário alardear com quem eu transo. Antes de ser gay, sou um monte de outras coisas legais e mais uma cacetada de coisas babacas. E todo mundo é assim. Inclusive os heterossexuais.

 

 

 

Há alguns meses a arroba mais influente do Twitter, como Rafinha Bastos gosta de ser chamado, foi duramente criticado por fazer uma piada sobre estupro dizendo que “mulher feia quando é estuprada deveria agradecer”. Além dos ataques no Twitter, o Ministério Público decidiu investigá-lo por conta da piadinha desrespeitosa e de péssimo gosto. Nada mais justo. Estupro ou qualquer outro tipo de abuso sexual é algo nojento e criminoso. Além disso, uma “piada” como essa fere a dignidade de quem já passou por essa situação e dos seus familiares. Eu tenho um caso de estupro na família e me sinto ofendido quando vejo alguém banalizando algo tão grave.

Paralelo a tudo isso, a nova sensação do sempre engraçadíssimo e inovador Zorra Total [/ironia] conta da história de uma transexual e sua amiga feia que andam em um metrô lotado e suas desventuras cotidianas. Tudo isso em meio a um bordão que se popularizou rapidamente: Ai, como eu tô bandida!

O roteiro do quadro não muda: Janete encontra Valéria, elas comentam sobre a cirurgia de mudança de sexo de Valéria, fazem uma brincadeira de “você gosta?” – “gosto” até o infinito que irrita o telespectador e a personagem, Valéria dá meia dúzia de patadas e apelidos em Janete e, por fim, alguém abusa sexualmente de Janete no vagão lotado. Neste momento Valéria, muito debochada, diz pra amiga aproveitar o momento porque não é sempre que uma mulher como ela tem esse tipo de sorte. Ou seja, em meio a todas as claques e clichês que imperam no programa de sábado, ensinamos semanalmente que a mulher não deve reagir ou se ofender caso seja sexualmente abusada, e caso venha a sofrer um estupro, deve se sentir sortuda, pois nenhum homem gostaria de se envolver com uma mulher feia. Percebam que é exatamente a mesma piada que saiu da boca de Rafinha Bastos e foi absurdamente pisoteada. Porém na Globo sua projeção é outra, torna-se benéfico. Ignora-se o fato do desrespeito a dignidade. O pior de tudo: tal quadro alcança hoje 25 pontos no Ibope. Todo sábado a noite o mesmo roteiro ensina às mesmas pessoas que estupros e abusos sexuais são bençãos, e não devem ser denunciados.

Fica a pergunta: Qual a diferença do estupro de Rafinha Bastos e do estupro de Valéria e Janete? Nenhuma, salvo o poder de penetração da mensagem. Enquanto Rafinha atende a um público mais “elitizado” socio-culturalmente (afinal, ele é defensor do tal ‘humor inteligente’, apesar dos quilos de preconceito), o Zorra Total vai de encontro com um povo que provavelmente não teve acesso a informação e que utiliza na maioria das vezes a televisão como seu quadro negro involuntário. Os quadros subsequentes colocam a mulher como unicamente uma fêmea, um objeto sexual, ridicularizam o fato Presidência do Brasil estar nas mãos de uma mulher e passam uma hora semanal fazendo o retrógrado humor da mulher de pouca roupa, erotizando o telespectador. Esse é o mesmo programa que ensina que estupro é o novo ‘casar e ter filhos’. É um humor machista e misógino. Eu sinceramente não acho a menor graça dessa bandidagem da Valéria.

Aos que não sabem: hoje no Brasil, 43% das mulheres brasileiras sofrem violência doméstica; uma mulher é violentada a cada 12 segundos; a cada duas horas uma mulher é assassinada. E você vai continuar rindo disso?

Segundo matéria de Keyla Jimenez, da coluna Outro Canal da Folha de São Paulo, as histórias dos personagens de Insensato Coração, Edu e Hugo, bem como toda a trama ao seu redor, como auto-aceitação, aceitação parental, homofobia e união homoafetiva, serão engavetados pela Rede Globo.

Destaque para três pontos que acredito serem fundamentais nessa novela:

1) A Rede Globo convocou uma reunião com Gilberto Braga, homossexual assumido, responsável pelos maiores sucessos de audiência do canal, e tão logo, um dos autores mais rentáveis da casa, para que ele não “carregue bandeira política” e não faça apologia a necessidade de uma lei que puna a homofobia. Por que tal exigência não foi feita a Manoel Carlos às vésperas da aprovação do Estatuto  do Idoso, uma vez que o Brasil é composto por uma maioria jovem? Quando o autor do Leblon inseriu os personagem Laura e Leopoldo, que seriam infernizados pela neta Dóris em Mulheres Apaixonadas, também existia uma bandeira política, não? Quando debatemos racismo (como em Da Cor do Pecado), saúde pública (em De Corpo e Alma), tráfico e consumo de drogas (em O Clone) ou não indo tão longe assim, e utilizando a própria Insensato Coração como exemplo, o caso de abuso sexual sofrido pela personagem Cecília, que tal? Também não são bandeiras políticas? E não merecem ser debatidas e expostas ao público? Onde foi parar aquele enorme e pomposo fascículo sobre Responsabilidade Social que a Rede Globo apresenta a seus patrocinadores na hora de angariar cotas para sua programação?

2) As cenas engraçadas do personagem Roni devem continuar. Ou seja, respeitar o ser humano e mostrar a sociedade que existe um setor fragilizado e que necessita de proteção do Estado não é bom para o Brasil, mas mostrar um personagem caricato que apenas reforça o preconceito, colocando-o como objeto de escárnio como acontece desde sempre na televisão brasileira, isso é totalmente aceitável.

3) A Globo alega que a TV é um veículo de massa e precisa contemplar todos os seus públicos. Os LGBTs não estão inseridos em seus públicos? Nós não assistimos seus programas? Então, uma vez que devemos contemplar TODOS os públicos na TV, por que então a existência de programas como a Santa Missa Em Seu Lar, uma vez que nem todos os brasileiros são católicos? E por que somos obrigados a conviver com o Auto-Esporte, já que nem todo mundo se interessa e/ou tem um carro. E por que não engavetar o Mais Você, já que uma parcela da sociedade não tem nem o que comer e é obrigada a assistir Ana Maria Braga preparando seus quitutes nas manhãs globais?

Curiosamente, no mesmo dia que a matéria é públicada pela Folha, temos dois destaques sobre homofobia no Brasil:

O primeiro caso relata de um pai e seu filho que estavam abraçados em uma festa popular no interior de São Paulo e foram brutalmente agredidos por um grupo de sete rapazes que acreditavam que eles eram um casal de homossexuais. O pai teve parte da sua orelha decepada por um objeto cortante. Caso não acredite, leia aqui. Em outro relato, descobrimos que a Bahia é o estado onde mais homossexuais morrem unicamente por serem homossexuais. E, além disso, revelamos o triste dado que o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo em seus crimes de ódio. E aí eu questiono: num país onde até heterossexuais são agredidos por conta da homofobia, não devemos levantar bandeira e mostrar a sociedade que existe a necessidade de respeito? E a televisão, que é o principal veículo para promoção de qualquer coisa nesse país, não tem a responsabilidade de alertar e informar seus telespectadores sobre isso?

Eu, pessoalmente, estou boicotando Insensato Coração. Forte abraço a todos os envolvidos.

Eu não poderia deixar passar os 42 anos do Orgulho LGBT em brancas nuvens. Desde Stonewall Inn, em 28 de junho de 1969, quando a polícia invadiu o bar e massacrou um grupo de homossexuais e transgêneros, muito foi conquistado. A exemplo no Brasil temos a recente decisão do STF sobre a união homoafetiva, os milhões de cidadãos que se movem contra o preconceito em marchas e manifestações a favor da diversidade sexual em todo o país, o reconhecimento da ex-companheira de Cássia Eller como mãe de seu filho, os avanços na mídia e no debate sobre a homofobia e, obviamente, o primeiro casamento civil homoafetivo, realizado hoje no interior de São Paulo. De 1969 pra cá muita coisa mudou para melhor, apesar dos pesares, estamos remando adiante, lentamente, mas colhendo um mundo mais justo não só para nós, mas abrindo a mente e dando voz a outras minorias. Muitos podem dizer que face ao conservadorismo protagonizado por Bolsonaros, Malafaias e, agora, Myrians, não temos o que comemorar. Mas acho que eles comemoram conosco, afinal, não teriam de onde tirar verba se não fosse pela nossa luta.

Vivemos num país onde é bonito ver dois homens brigando, mas hediondo ver dois homens se amando. Existe muito o que lutar e não podemos nos anular nos outros dias do ano. O homossexual sofre preconceito diariamente e as questões afirmativas são fundamentais para um mundo mais justo. Sonho com o dia que não teremos mais a necessidade de marchas, leis e didatismos para acolher as minorias como gays, negros, mulheres e outros. Enquanto vivermos com o pé no passado, teremos medo de buscar o que é nosso por direito no presente e pior, passaremos uma guilhotina no pescoço do futuro.

Não há religião, cultura, lei, localização ou proibição que vá impedir um homossexual de existir. Não existe essa história de “ele é gay pelas influências”. Se fosse assim, todo mundo seria heterossexual, afinal, estamos numa cultura heteronormativa e, em grande maioria, os pais são heterossexuais. Ninguém escolhe ser gay, bem como não escolhe ser hétero. Não existe uma enquete em dado momento da sua vida que você escolheu com quem transar e quem amar.

Os opositores dizem que as minorias visam criar um nicho de super-cidadãos, inabaláveis e incriticáveis. É muito confortável dizer isso quando se está inserido em uma maioria dominante. A péssima notícia que eu tenho a dar é que a vida não é justa. Para ninguém. E as minorias, independente de qual estamos tratando, tem uma carga histórica que precisa ser apagada. Não podemos menosprezar que negros não tem as mesmas oportunidades que brancos, que mulheres sofrem abusos diários por homens, que algumas religiões e culturas sofreram e ainda sofrem massacres culturais e que gays não tem os mesmos direitos que heterossexuais. Para um mundo mais justo é necessário olhar com abrangência a sociedade e atender as necessidades específicas dos movimentos sociais. As feministas queimaram sutiãs e hoje têm direitos iguais. Os negros exaltaram sua cultura e se inseriram. Os homossexuais não podem se anular por conta de um falso-moralismo.

Que todo dia 28 de junho seja dia de lembrarmos aqueles que morreram, aqueles que sobreviveram, aqueles que fizeram história, aqueles que fazem a sociedade. Que todo dia a gente possa conviver pacificamente, não importando com quem eu durmo ou quem eu amo. Eu quero ser feliz e ter minha cidadania plena e quero o mesmo para todos. Eu quero igualdade e não superioridade, nem dos gays e nem dos heteros. Não podemos viver num mundo de aceitações. Aceitar é apenas dar espaço a mostrar uma superioridade falsa. Quero viver num país onde meus filhos e seus filhos possam se confundir na multidão que constrói essa nação.

 

Contribuição de Rafael Moreira (@pelotelefone) para o Dia do Orgulho LGBT

Em meio a tanta confusão, e muita bobagem dita por Bolsonaros, Malafaias e Myrians, achei que valia a pena fazer alguns apontamentos sobre as bobagens que vem sendo ditas e repetidas, especialmente pela bancada autodenominada evangélica.


Sobre a decisão do STF

Muito tem se falado sobre a decisão, o Malafa vociferando que é inconstitucional e vem a cereja do bolo com o projeto do Deputado João Campos de um decreto legislativo que tem por objetivo sustar os efeitos da ADIn. Mas vamos por partes.
Como o direito não faz parte da educação do brasileiro (o que é uma pena e tema para outros textos), somente quem se aventurou nesse curso consegue (ou deveria conseguir) entender o alcance da decisão. A tal decisão, diga-se, unânime, se baseou no artigo primeiro da Constituição. Isto é (basta ler lá) um FUNDAMENTO da República brasileira, no caso a dignidade da pessoa humana (é redundante, mas tá escrito lá, fazer o que). Não foi com base no art. 226, que trata da família. Assim, o STF, a quem cabe defender a Constituição, entendeu que não é possível que um Estado que defenda a dignidade negar direito aos casais homoafetivos. Em outras palavras, é uma decorrência direta dos valores de base do país reconhecer que cidadãos homossexuais são tão cidadãos quanto os demais. Parece óbvio, e realmente é, mas os ranços de preconceito forçaram a tal ADIn.
Aí me vem um tal Deputado João Campos que, segundo consta, é delegado de polícia e bacharel em Direito (assim diz ele) e apresenta um projeto de decreto legislativo para sustar os efeitos da decisão do STF. Bom, acho que ele ficou na constituição de 1967 e não leu a de 1988. Isso porque o art. 56 da Constituição, que prevê o decreto legislativo, fala que ele poderá ser usado para sustar efeitos de atos normativos do Poder Executivo, não fala nada de Judiciário. Antes, os artigos 100 e 101 deixam bem claro que a palavra do STF é final e não é contestável ou anulável pelos outros poderes. O STF é sim nosso órgão máximo.
Ou seja: o tal projeto do Deputado João Campos NÃO EXISTE JURIDICAMENTE. O máximo que poderia acontecer, num caso raríssimo de surto coletivo, é o próprio STF declarar o ato inexistente (o que até seria lindo).
Além disso, como a decisão foi com base no art. 1º, nenhum projeto, mesmo que de emenda à Constituição, poderá mudar seus efeitos, pois a dignidade humana não pode ser riscada da Constituição.
Portanto, a não ser que os ditos evangélicos resolvam dar um golpe de Estado, pode correr e oficializar no cartório a sua união porque ela vai valer, por mais que o Malafaia não queira (talvez eu não devesse ter dado a idéia do golpe).
E esse post ta muito grande e eu só comecei. Mal de advogado, tenham paciência.

Sobre o PL 122
Aí começa mais um festival de bobagem, que chega a dar aflição a qualquer pessoa alfabetizada e que seja capaz de um mínimo de raciocínio abstrato. Não vou nem perder meu tempo (e o seu, querido leitor) sobre a óbvia constitucionalidade do projeto. Vou me remeter apenas a uma questão e deixar a conclusão pra vocês: A lei vigente, que ficou conhecida como Lei do Racismo (Lei 7.71/89) mas pode ser melhor chamada de lei contra a discriminação, prevê as seguintes condutas como crime:

“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”
Acompanhe comigo: uma das condutas criminosas é induzir ou incitar a discriminação ou preconceito contra RELIGIÃO. Olha, quem conhece um evangélico, um pastor ou já perdeu seu tempo ligando a TV nas madrugadas da televisão sabe muito bem que um dos esportes preferidos dos pastores evangélicos é divulgar os males das religiões espíritas ou de origem africanas, agregando todas sob a estigmatizada alcunha de macumba (que são também minorias religiosas). E mais, não sou poucos aqueles que incitam a chamada “guerra espiritual” contra pais de santo. E, no entanto, eu nunca vi nem ouvi que um pastor sequer tenha sido denunciado por incitar a discriminação contra o candomblé, por exemplo. Ninguém tem dúvidas de que isso diz respeito à profissão de fé deles.
Então, eu não consigo entender o medo que está sendo propagado pelas lideranças evangélicas que eles serão perseguidos (mentira que entendo sim, mas vamos fingir que não). Se ainda levarmos em conta que a recente emenda incluída no projeto pela Marta Suplicy, realmente não há como entender que dizer que ser gay é pecado viraria crime. Sabendo que provavelmente nem o Malafa leu o projeto, tirem suas conclusões.

Notinha sobre a Myrian
Bom, e o assunto da vez é a Myrian Rios que abriu o esgoto e saiu falando todo tipo de bobagem no plenário da Assembléia do Rio. Acho até engraçado, Myrian defendendo o direito de discriminar. Saibam que a babá lésbica dela poderia entrar com uma ação de dados morais na Justiça do Trabalho, onde conseguiria até a reintegração no emprego, tendo em vista que sua demissão foi motivada por discriminação.

Enfim, gente, votem melhor, por favor. É muita perda de tempo com gente burra.
(e procurem as leis no site do Planalto ou do Senado)

Contribuição do Abel Be para o Dia do Orgulho LGBT

Eu penso e fico paranóico. Então, sou gay? Pergunta sem remetente, hermética. Ninguém podia pensar, imaginar, sonhar… muito menos me ouvir. Responder já seria recibo de “viado”. Mas, os outros sabiam, eu sabia. Falavam que eu era “bichinha”, “gay”, enfim, crianças sabem ser cruéis, adultos também.

Hoje, 28 de junho, é dia do orgulho LGBT. Pergunto quantos, quantas, ainda não podem se orgulhar por medo, vergonha, próprio preconceito. Essa dicotomia “Orgulho X Armário” pauta a vida de homossexuais, ou pautou, com raras exceções, cada vez mais comuns, mas ainda assim escassas.

Neste contexto, celebrar a homoafetividade não é só para gays, mas para todo que pretendem construir uma sociedade melhor. Ou alguém defende que algum ser humano deva ocupar um lugar exótico eterno, como atração em um circo de horrores ininterrupto? Isso não é um projeto de vida, muito menos de felicidade. Tal posição é a ocupada por gays, já foi pior. Mudar o imaginário social não é simples, é um desafio. Não trata-se de um artifício retórico, é desafio mesmo, cravado.

Sem maiores digressões, ao longo da história gays serviram ao gozo do outro, tendo de se submeter ao sadismo alheio, fetichizado, enquanto alvos preferenciais e constantes de ódio. Emerge a questão: por quê? Arrisco afirmar que essa destrutividade só interessa ao recalque de quem não aceita a própria homossexualidade e precisa xingar, humilhar, diminuir, praticamente aniquilar o que nega em si mesmo.

Há um medo enorme em não ser aceito por fugir a norma, por ser diferente, medo esse não extirpado após tantas revoluções sociais. A questão, então, é subjetiva? Em parte sim. No entanto, se você tem problemas íntimos esta autorizado a cometer crimes em nome deles? A transgredir pactos sociais? Não, não esta. Esse é o ponto: gays foram vistos como criminosos, como transgressores dos acordos, códigos, interditos sociais vigentes de modo tão radical que lhes coube todo tipo de sanção. Afinal, ousaram fazer algo vetado a todos. Que tipo de pessoas especiais são essas? Que tipo de pessoas? O pior tipo, claro. Bem, fica fácil entender de onde parte a comparação com pedófilos, promíscuos, desonestos em geral etc A aliança entre o recalque, a culpa e o medo em aceitar a vontade de fazer o que esses seres desviantes também fazem é perturbadora, não era de se esperar que não fosse.

Quem não ficaria paranóico descobrindo-se gay diante disso?

Romper este ciclo é um desafio por conta dessa complicação toda, pois não se trata de algo consciente, controlável. É antes de tudo inconsciente. O Orgulho LGBT, portanto, é necessário. É um grito que rompe com essa visão deturpada que iguala gays a humanos torpes, no mesmo nível dos vilões de qualquer filme de terror. Parece bobagem, mas ouça os discursos homofóbicos: são discursos de medo, desespero. Não estou, é bom esclarecer, defendendo ou sendo condescendente com homofobia, mas alguém dúvida que esse preconceito seja medo de se ver em uma bela manhã gay? Surpreendido por um desejo incontrolável de não ser mais hetéro? Pois é.

O Orgulho LGBT é a luta pelo reconhecimento social, sem o qual não há respaldo para nenhum sujeito. Sem o qual gays serão sempre destinados ao exílio, ao circo de horrores ou a destruição pura e simples. Esse dia é por um mundo em que gays se descobrem gays como possibilidade e não como maldição. É, sobretudo, tanto para gays, heteros, quanto bi, ou o que for, um dia para viver sem medo. A sociedade não irá ruir se incluir a homoafetividade, não somos criminosos e sim gente.

DE-PU-TA-DA

Teoricamente vivemos em um Estado Laico. Teoricamente. Durante o fim de semana rodou um vídeo onde a ex-atriz e atual apresentadora e deputada estadual Myrian Rios (PDT-RJ) se manifesta contra a PEC 23, que visa acrescentar orientação sexual no rol das vedações a discriminação da Constituição do Estado do Rio de Janeiro, bem como o racismo e a intolerância religiosa. A deputada diz-se não-homofóbica, porém, diz claramente que não gostaria de empregar um funcionário homossexual. Vale ressaltar que Myrian Rios, eleita pelo excesso de votos do também apresentador Wagner Montes, é missionária e fervorosa integrante do movimento da Renovação Carismática. Palavras de Myrian Rios:

Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um homossexual como meu empregado, eventualmente. Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é lésbica. Se a minha orientação sexual for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser lésbica, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada”, disse. “Se eu contrato um motorista homossexual, e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, eu não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha orientação sexual é outra”, completou, sem esquecer de citar passagens bíblicas e pedir que o Espírito Santo de Deus jogue fogo santo naquela câmara laica.

Ironia é uma integrante da Igreja Católica, onde registramos os mais hediondos casos de pedofilia, generalizar os homossexuais como pedófilos latentes. E, partindo do princípio Myrian Rios de lógica, eu posso, caso queira, não contratar e não receber em minha casa negros ou religiosos, por exemplo, afinal, eles poderiam eventualmente ensinar coisas que não quero aos meus filhos. O perigo que seria eu contratar uma babá católica, por exemplo. Ela ensinaria aos meus filhos coisas que eu não concordo e eu acho que tenho o direito de ser preguiçoso e não explicar certas coisas aos meus filhos e culpar sempre a babá por isso. Eu também tenho o direito de negar emprego a um negro. Não tenho um motivo claro, mas se Myrian Rios acredita estar no direito de demitir ou não contratar um homossexual pelo simples fato de não ser da mesma orientação sexual que a sua, eu posso barrar um negro por ser de uma etnia diferente da minha, não? E como os direitos devem ser iguais para todos, não deve existir qualquer problema em agredir uma mulher fisicamente, afinal, ela é uma pessoa como qualquer outra e essa Lei Maria da Penha vai contra a constituição. Por que deveriamos proteger uma minoria?

A igreja católica e seus praticantes dizem-se contra a prostituição, mas a partir do momento que acreditam ser justificável demitir um funcionário ou não empregar alguém por sua sexualidade, abrem as portas para tal prestação de serviços. Uma grande parcela de travestis e transexuais enveredam pela prostituição não pelo prazer, mas pelo preconceito, por ser a última alternativa de sobrevivência com o mínimo de dignidade. Enquanto deixarmos que religiões interfiram no Estado, estaremos presos ao século XV e jamais seremos um país que valoriza os direitos humanos. Associar a pedofilia, uma prática abominável e criminosa a qualquer forma de sexualidade é algo que nos remete a quão retrógrada está a mentalidade dos nossos representantes. Em um ano em que a ONU coloca a homofobia como uma das bandeiras a serem combatidas no mundo o Brasil vai na contra-mão da sociedade e massacra novamente uma parcela da sociedade, como fez tantas outras vezes. Se for por estastísticas, senhora Myrian Rios, existe muito mais risco de um heterossexual ser pedófilo do que um homossexual, face que quase 80% dos casos de pedofilia no mundo são praticados por pessoas exclusivamente heterossexuais. Julgar uma pessoa unicamente pela sua sexualidade seria o mesmo que menosprezar um funcionário por ser negro ou oriental, desqualificando totalmente o seu currículo. O que queremos é uma sociedade justa para todos. Um mundo sem diferenças. Por que um evangélico pode denunciar abusos contra sua fé (algo que ele escolheu, pois sim, religião é um escolha diferentemente da sexualidade que não importando qual seja, é algo inerente ao ser humano, ou seja, nasceu assim)? Com linhas de racionício tão ultrapassadas muito em breve o negro não terá mais alma, a mulher deverá voltar a submissão e o diferente será queimado em nome de Cristo. Cristo este que hoje deve estar pensando: vocês estão fazendo tudo errado. Exatamente o contrário do que preguei.

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